Feijoada de freezer

Por Ana Cecília Romeu Publicitária e escritora

Com a vida corrida, nem sempre é possível preparar cardápios que demandem hora, e a opção é ter à disposição alimentos congelados. Retirar uma feijoada do freezer e ter de preparar somente um arroz e uma saladinha economiza muitos minutos e garantem uma refeição completa.

Não é difícil perceber o quanto se utiliza, além do sentido literal, a 'feijoada de freezer' no dia a dia ao optarmos pelas coisas que nos poupam tempo, e, além disso, nos protegem de incertezas, de riscos. Como jogar o game no nível mais fácil, ou ler algumas respostas das palavras cruzadas para concluir o jogo.

Nem todos os riscos são desnecessários. A estabilidade que resguarda a insegurança pode ser uma máscara de oxigênio; por outro lado, uma carapaça que nos impede de evoluir. Sentir medo nos coloca na esfera de seres humanos, que, uma vez testados nos limites, nos força a novas soluções.

Optamos pelas coisas que não têm erro, pois errar nesta geração que exercita a popularidade virtual é sinal de incompetência sem direito a curtidas e compartilhamentos.

Muito relacionamento se mantém porque "não há erros", não há surpresas, as coisas podem ser previstas e facilmente calculadas para que a margem de erro tão temida seja mínima, e permanecer com a mesma pessoa numa relação desgastada parece mais inteligente do que apostar numa nova experiência. É como passear com óculos de sol e capa de chuva. Sobrepor-se às intempéries, ao invés de deixar a vida seguir seu curso. A vida é transformação, vivemos fases, e nem sempre o pretérito progride naturalmente para o futuro.

O palpável torna-se sinônimo de segurança; e a ilusão, pobre e tão blasfemada palavra, é retirada do vocabulário, pois ignorada no seu sentido de locomoção, motor para prosseguir. Fluir para aprender, observar. Nem tudo é miragem quando não se conhece o oásis.

O que nos acrescenta mais: viver o dia como se fosse o último ou como se fosse o primeiro? De qualquer forma, é impossível prever epílogos, e nem sempre nos damos conta que estamos na etapa inicial de um ciclo quando ela acontece: algo que engatinha para crescer, caminhar e criar asas.

Ainda li num muro em Buenos Aires a frase sem autoria: "Quando foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?" O que me faz acreditar que a feijoada de freezer não pode ser a única escolha.

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