Moradora da Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido, há dois anos, a assistente administrativa Fátima Alves, de 49 anos, só consegue receber produtos postais no trabalho, na Rua Haddock Lobo, na Tijuca. Ou, se quiser, tem que se deslocar até a central de distribuição dos Correios mais próxima, no caso, a da Avenida Presidente Vargas, no Centro, a cinco quilômetros de casa. A justificativa da empresa é que não entrega Sedex ou PAC (encomendas econômicas) na residência dela e de outros milhares de cariocas por estarem em 'áreas de risco'.
"É uma situação constrangedora e irritante, que me deixa indignada. A Barão de Petrópolis é uma das principais e eu moro num condomínio", alegou Fátima, discordando que o trecho onde reside seja perigoso, a ponto de carteiros não poderem trabalhar. "Cheguei a deixar mercadoria voltar ao destinatário, pois acho abuso pagar frete caro e não receber o que comprei no meu endereço", lamentou.
Os Correios não revelam a quantidade de endereços impedidos por motivo de segurança. Mas admitem que as entregas de correspondências de pessoas jurídicas caíram, em 700 mil unidades, no ano passado, por este e outros motivos. Em 2016, foram 5,9 bilhões, ante 6,6 bilhões em 2015.
Conforme o DIA publicou com exclusividade em abril, estima-se que cerca de 200 mil pessoas estejam em endereços batizados de 'CEPs do Inferno', ou 'do Medo', nas zonas Norte e Oeste. Eles são privados de receber móveis, eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos.
O mecânico José da Silva, 49, que mora na Estrada do Galeão, na Ilha do Governador, também não entende porque não recebe mercadorias pelos Correios e nem por sites de vendas. "Minha área não é de risco. Uma encomenda que fiz em junho pela internet não chegou. A alegação é a violência", apontou José. A amiga dele, Juciara Belarmino, 45, também reclama. "Moro na Praça Santa Rosália, na Penha, local super movimentado, mas não recebo correspondências".
Para a aposentada Fernanda Fernandes, 71, que mora há 50 anos na Rua Piraquara, em Realengo, o extravio de mercadorias pelos Correios é comum. Neste ano, de dez compras que ela fez online, metade não chegou. "Muitas vezes prefiro pagar o triplo do frete por uma transportadora para ter certeza de que a mercadoria será entregue".
Os Correios informaram que se baseiam em mapas de risco de órgãos de segurança, como o Instituto de Segurança Pública, e que as restrições de entregas não englobam bairros inteiros, mas, sim, ruas com alto índice de assaltos. E, não necessariamente, vias com restrições estejam em áreas conflagradas por bandidos.
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