Líder que conseguiu verba para reconstruir terreiro, liderou templo que recebe cristãos do mundo todo

Por O Dia

Rio - Em meio à onda de depredações de espaços de candomblé e umbanda por grupos — inclusive de traficantes — que se dizem evangélicos, a pastora luterana Lusmarina Campos Garcia resolveu mostrar que os ensinamentos do Evangelho nada têm a ver com o ódio. Ao saber dos seguidos atentados ao terreiro de candomblé Kwe Cejá Gbé, da mãe de santo Conceição D’Lissá, em Duque de Caxias, tomou uma decisão corajosa. Sugeriu ao Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (CONIC-Rio) a arrecadação de verba para financiar a reconstrução do espaço religioso. “Ao respeitar a religião do outro, construímos uma sociedade de respeito”, ensina Lusmarina.

A coleta do dinheiro começou em 2015, quando a pastora presidia o conselho. “A ação de queimar um terreiro é tão destrutiva que precisávamos de uma ação igualmente forte para restabelecer a confiança e o amor nas relações entre cristãos e candomblecistas. Se eles destroem, temos que reconstruir”, explica ela.

Pastora Lusmarina (ao centro) durante Caminhada Em Defesa da Liberdade Religiosa%2C em CopacabanaMaíra Coelho / Agência O Dia

Incêndio

Em junho de 2014, um incêndio no terreiro de Caxias destruiu teto, móveis, eletrodomésticos e roupas de santos e de integrantes do templo. Foi o estopim da campanha de doação encabeçada por Lusmarina. Houve alguma resistência entre os organizadores, mas nada que impedisse o desenvolvimento do plano.

No começo, o projeto recebeu R$ 2.121, até ser interrompido por problemas burocráticos. A retomada só veio em outubro deste ano, quando dois integrantes da Igreja Cristã de Ipanema arrecadaram R$ 10 mil e adicionaram ao montante. Nascida no pequeno município de Tupi Paulista, em São Paulo, Lusmarina está acostumada a enfrentar desafios.

Ela foi a primeira mulher e a primeira pessoa não norte-americana, a ser pastora da congregação de língua inglesa da Igreja Evangélica Luterana de Genebra, na Suíça, fundada em 1707.

Liderança feminina

Liderou, entre 2003 e 2012, o templo, que é ecumênico e recebe cristãos do mundo todo, principalmente funcionários das organizações internacionais com sede na cidade, como a Organização das Nações Unidas (ONU). “Claro que alguns homens tinham dificuldade em lidar com a liderança de uma mulher, mas isso é em todo lugar”, resume.

Nas horas vagas, a líder evangélica lê autores como Friedrich Hegel, Walter Benjamin e Michel Foucault, além dos poemas de Paulo Leminski.

Solidariedade e diversidade

O valor da diversidade e da necessidade de acolher as diferenças foi confirmado nessa trajetória por lugares tão diferentes quanto capitais europeias ou municípios do interior fluminense. “Um problema é acreditar que ninguém pode estar fora de um padrão de comportamento, e quem não cabe naquele padrão não é filho de Deus. Esse discurso vem da falta de flexibilidade para compreender as diferenças. Temos que aprender a amá-las”.

Lusmarina não vê incompatibilidade entre o cristianismo e o canbomblé. Os responsáveis pela doação não queriam fazer publicidade da ajuda, mas o babalaô Ivanir dos Santos destacou a importância de revelar a existência de igrejas que pensam e agem de maneira solidária. Lusmarina não esperava a repercussão. “Ações de violência e discriminação são muito propagadas, mas o ódio não faz parte da ética cristã. Grupos extremistas são minorias. Ações como a reconstrução do terreiro ajudam a reconstruir a confiança, as relações e até a democracia”, explica.

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