Denúncia do MP acusa presidente da Casa de barrar CPIs. Bloqueio de bens e prisão serão julgados hoje

Por O Dia

Rio - O presidente da Alerj, Jorge Picciani, é apontado como o responsável por 'blindar' todas as ações contrárias ao governo estadual na Casa, além de barras a instalação de CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito), conforme denúncia do Ministério Público Federal (MPF). Hoje, o Tribunal Federal da 2ª Região (TRF-2) vai julgar os pedidos de prisão e bloqueio de bens do próprio parlamentar e dos deputados estaduais Paulo Melo e Edson Albertassi, ambos do PMDB.

Agentes da Polícia Federal conduziram coercitivamente Jorge Picciani (direita)%2C para prestar depoimentoReginaldo Pimenta/Raw Image / A

De acordo com o MPF, no telefone de Picciani, apreendido durante a operação Quinto do Ouro, em março, foram encontrados diversos registros de mensagens trocadas com outros parlamentares. Entre as conversas, uma com o deputado Gustavo Tutuca, onde o presidente da Alerj dá o aval para instalação da CPI da Uerj, mas "orienta o interlocutor a limitar o objeto da investigação, de modo a não atingir o governo: 'tem que ser em cima da folha senão vira contra o governo que não passa no custeio'".

Em nota, Tutuca esclarece que, desde o início, o intuito da criação da CPI era identificar discrepâncias nas folhas de pagamento. Na conversa, ele consultou Picciani para saber se o momento era adequado para dar sequência à CPI.

Ainda segundo a denúncia, "o consistente diálogo, tido em março de 2017, após a prisão de Sérgio Cabral, não só confirmou o poder de Picciani junto a seus pares, como reafirmou a estratégia de blindagem do governo, deixando claro que a rejeição da CPI sobre o esquema da Fetranspor teve influência direta do atual presidente da Alerj". O DIA não conseguiu contato com a assessoria de Picciani, mas à TV Globo, ele alegou que a "CPI não foi instalada e que nenhuma medida beneficiando as empresas de ônibus foi aprovada, o que demonstra, que a Alerj é uma casa plural, não submetida a nenhum tipo de autocracia".

CAIXA DOIS EM CAMPANHA

Em delação premiada, o marqueteiro Renato Pereira, responsável pelas campanhas dos 'caciques' do PMDB, aponta o uso de caixa dois pelos comitês do ex-governador Sérgio Cabral, em 2010, do ex-prefeito Eduardo Paes, em 2012, de Luiz Fernando Pezão, em 2014, e do deputado federal Pedro Paulo, em 2016.

Ontem, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, recorreu da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, que retirou o sigilo do depoimento. O ministro devolveu a delação à PGR, alegando que há irregularidades nos benefícios da denúncia de Pereira.

Segundo o marqueteiro, na campanha de Cabral, "entre fevereiro e junho de 2010 foram feitos pagamentos mensais de cerca de R$ 300 mil, sempre em espécie". Os serviços eram "faturados em valor menor que o efetivamente cobrado", e o restante revertido para o caixa dois. Na reeleição de Paes à prefeitura, em 2012, o custo foi de R$ 20 milhões e o valor negociado pelo próprio candidato e o Pedro Paulo. Assim como na campanha do ex-governador, "com nota fiscal assinada pelo PMDB, em valor menor do que o cobrado e com a diferença entrando no caixa dois".

Na campanha de Pezão, Pereira chegou a receber cerca de R$ 800 mil de forma não declarada. E, na campanha de Pedro Paulo à prefeitura, em 2016, o orçamento aprovado foi de R$ 360 mil por mês. Em nota, Pezão informou que "todas as doações de campanha foram feitas de acordo com a Justiça Eleitoral". Paes alegou que "a delação é mentirosa e inconsistente". A defesa de Cabral não foi encontrada. Pedro Paulo destacou que "a delação foi duramente criticada e rejeitada pelo STF".

Investigações não devem abalar eleição

Mesmo com o avanço das investigações contra a cúpula do PMDB do Rio, o cientista político Paulo Baía, da UFRJ, avalia que o partido pode não ser abalado nas eleições estaduais do ano que vem. "Quanto maior a indignação com tudo que anda acontecendo, maior o volume de votos brancos, nulos e abstenções, o que facilita a vida das atuais estruturas de poder. Se essa tese se consolidar, o principal candidato ao governo do Rio é o Eduardo Paes, mesmo desgastado".

Jorge Picciani era o último cacique do partido no estado que não havia sido alvo das investigações, apesar de já ter sido citado em mais de uma delação na Lava Jato. Até então, a legenda vinha planejando duas possíveis candidaturas. O mais cotado é o ex-prefeito Eduardo Paes, que começou a organizar seu retorno à política fluminense. Outro sonho antigo do presidente da Alerj era ter um dos filhos, o deputado Rafael ou o ministro Leonardo Picciani na cadeira de governador.

 

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