Saudades dos meus botequins

Por Luís Pimentel Jornalista e escritor

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No Buteco do Jisus, em Botafogo, eu perguntava (só de sacanagem, porque o cardápio era sempre o mesmo):

"Alípio, o que que tem hoje?"

"Você escolhe. Bife ou frango. Arroz e feijão acompanha. Pode ser com ligume ou com virdura."

"O que é o legume, Alípio?"

"Ligume é ligume, oxente! Batata, chuchu e cenoura."

"E a verdura?"

"Virdura é virdura. Alface, tumate e cibola."

"Pode vir também um ovo?"

"Pode. Mas aí é fora à parte..."

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Que nem no samba que compus com Paulinho do Cavaco, 'Saudades dos meus botequins', tinha "um gato dormindo em cima da janela e no alto São Jorge matando um dragão".

Era um singelo e legítimo boteco no Catumbi.

Eu enfrentava os dias de nordestino tentando a vida, em quartinho alugado na Heitor Carrilho. A caminho de casa, no fim do dia, parava ali pruma gelada e para apreciar a elegância de uma frequentadora: sempre sozinha, cigarro no bico e garrafas em cima da mesa. Devia ter uns 50 anos, era bonita e silenciosa. Lá pras tantas pagava a conta, fechava a bolsa, arrumava os cabelos com as mãos e sumia pelas ruelas do bairro. Ninguém sabia ao certo onde morava.

Tempos depois, no meu inventário de ausências, passei por ali, curioso. O boteco se acabara, a frequentadora misteriosa provavelmente também. Hoje fiz um brinde sozinho, em homenagem a ela e aos cenários e personagens que a cidade vai vertiginosamente enterrando.

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Diz um verso genial de Aldir Blanc (pleonasmo!), musicado por João Bosco: "Pistola em butequim não dá bom carma / Melhor trocar o berro pela Brahma".

Pois o sujeito chegou no Buteco do Bira, na Correa Vasquez (Estácio) e estacionou ruidosamente o trezoitão na mesa, pediu uma batida da casa e grunhiu:

"Vou matar!"

Covarde desde menino, fui logo pedindo a conta pra bater em retirada, quando o Bira me acalmou:

"Relaxe. Diz isso toda vez que briga com o namorado."

Me assustei, pois naqueles tempos não era tão comum assim:

"Namorado?!"

"Da mulher dele."

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Essa, o Luiz Guimarães de Castro botou num filme dele, o curta 'O carnaval e os desenganos': o folião chegou no bar Bip-Bip, no finzinho do Carnaval, e puxou uma cadeira. Despejou os cotovelos sobre a mesa e gemeu: "Uma cerveja, estupidamente gelada".

Alfredo, dono do estabelecimento, latiu: "Só tem quente". "Serve", pungiu o folião, caindo imediatamente num pranto de derrubar encostas. Tão sincero que até o Alfredo se comoveu:

"Que foi, querido?" Acarinhado, o sujeito abriu o verbo: "Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um motorista de ônibus?"

Corno em fim de festa é comum, mas, plagiando Lupicínio Rodrigues, não é a toda hora que se encontra. Alfredo tentou ajudar: "Qual é a linha?" "Nenhuma. Piranha da pior espécie". "Estou falando do Ricardão. Qual é a linha que ele pilota?" "571, Glória-Leblon, via Jóquei."

O comerciante enxugou uma lágrima discreta:

"É duro mesmo. Se pelo menos a vadia tivesse escolhido um motorista do 572, que é via Copacabana..."

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Luís Pimentel, colunista do DIA Divulgação

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