Tenebrosas transações de novo

Por Roberto Muylaert Editor e jornalista

-

O período Temer talvez passe para a história como tempo de devassa no trato da coisa pública, com quadros da pior qualidade moral dando exemplos de desfaçatez, numa orgia de interesses escusos. A má qualidade do Poder Executivo chegou a um nível tão baixo que é até capaz de rivalizar com os congressistas. Estes, com poucas exceções, jamais pensam no país, mas, sim, no que receberão para votar algum projeto, qualquer que seja.

As votações dos grandes projetos de interesse do Executivo são acompanhados pelos jornalistas políticos já entediados, sem aquela carga de revolta que sentem no início, quando entendem o que se passa nas relações promíscuas entre Executivo e Congresso Nacional.

Bom lembrar que as duas últimas grandes votações diziam respeito a malfeitos de tal monta do presidente, que resultaram na abertura de dois processos contra ele. Claro que, com a proteção do foro privilegiado, as autoridades federais não podem ser julgadas senão pelo Supremo Tribunal Federal, que deixa o próprio Congresso decidir se o processo deve prosseguir, ou não.

Interrompido o processo, Temer respira aliviado na TV, afirmando que agora pode votar os projetos de interesse para o país. Querendo dizer que o Ministério Público faz o papel de atrasar a Nação, ao tentar levar adiante processos contra ele, sabendo que o Congresso os estancará, mediante o atendimento dos interesses de cada parlamentar. O incrível é que não há segredo nisso. Tudo é feito pelo Executivo para que as vantagens ofertadas aos congressistas sejam atendidas, não passando pela cabeça de ninguém perguntar sobre o que interessa ao Brasil.

É claro que a conta dessas despesas fica muito alta, e precisa ser quitada, com o nosso dinheiro, claro.

É por isso que o governo já cria o orçamento com déficit gigantesco. É como se a dona de casa calculasse com o marido as despesas do lar, rachadas entre os dois: "Nós juntos ganhamos bem, R$ 10 mil por mês. Mas não seria melhor prever uma conta mensal de R$ 60 mil? Assim. Podemos gastar mais, bastando arranjar quem pague essa diferençazinha". No caso do Brasil, quem paga o déficit absurdo somos nós.

O governo cansa de dizer que não tem dinheiro, mas dinheiro existe, malbaratado por tenebrosas transações, como diria Chico Buarque.

Galeria de Fotos

Roberto Muylaert, colunista do DIA Divulgação

Comentários

Últimas de Opinião