As linhas do consórcio Santa Cruz, que controla a maioria das linhas da Zona Oeste, acumulam o triplo de processos do que as do InterSul
As linhas do consórcio Santa Cruz, que controla a maioria das linhas da Zona Oeste, acumulam o triplo de processos do que as do InterSulFOTOS Alexandre Brum
Por GUSTAVO RIBEIRO
A diferença de tratamento das empresas de ônibus para polos opostos do Rio não é só percepção dos usuários, mas indicada em números. Desde 2010, ano da licitação do transporte na capital, o Ministério Público (MP) moveu quase três vezes mais ações contra o Consórcio Santa Cruz (41), que atua na maior parte da Zona Oeste e concentra o maior volume de linhas, do que contra o Consórcio Intersul (14), que opera na Grande Tijuca e Zona Sul, áreas consideradas mais nobres. As companhias justificam que a área é mais afetada pela concorrência das vans irregulares e que sofre mais severamente os efeitos da crise no setor.
Os processos são ajuizados a partir de denúncias dos passageiros ao MP. Enquanto o Consórcio Santa Cruz lidera o ranking, o Consórcio Transcarioca, que abrange a Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Recreio, Madureira e Cascadura, sofreu 10 ações, a menor quantidade. O segundo consórcio mais contestado (26 vezes) foi o Internorte, responsável por quase toda a Zona Norte. O Intersul ficou em terceira posição.
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"Não há preocupação das empresas com o direito das pessoas de ter acesso a um serviço público decente. Não é à toa que o pior serviço fica nas regiões mais pobres da cidade, onde há menos fiscalização e descaso do poder público. Isso ocorre porque quem manda no sistema é a máfia de sempre", diz o vereador Tarcísio Motta (Psol), da CPI dos Ônibus. "Os serviços das concessionárias sempre tiveram qualidades distintas entre Zona Sul e Zona Oeste", concorda o engenheiro de Transportes Alexandre Rojas, da Uerj.
Como O DIA publicou segunda-feira, 115 processos foram ajuizados no período pelas Promotorias do Consumidor contra as empresas (a maioria da capital) por irregularidades nas linhas.
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A agente administrativa Ana Cláudia Costa, 40, se acostumou ao perrengue para ir e vir da Zona Oeste. Ela sai do trabalho, no Centro, com a certeza de que, além da demora, terá que procurar bancos limpos. Quando consegue viajar sentada na linha 398 (Tiradentes-Campo Grande), divide o espaço com baratas. "Elas percorrem os bancos, sobem na janelas, sem falar no cheiro de urina".
Na Zona Norte, a estudante Veridiana David, 23, usa a 355 (Madureira-Praça Tiradentes) para ir à faculdade, no Centro. "Andar nesse ônibus é contar com a sorte. Recentemente, quebrou na Penha. Desde Madureira, já tinha problemas, mas insistiram em seguir".
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A sessão de ontem da CPI dos Ônibus não ocorreu porque só Tarcísio compareceu. Alexandre Isquierdo (DEM), Rogério Rocal (PTB), Eliseu Kessler (PSD), Dr. Jairinho (PMDB) e Felipe Michel (PSDB) não apareceram.