Coronel foi comandante da PM na gestão de Cabral, de 2011 a 2013Arquivo O DIA
Por Bruna Fantti

Rio - "Os dignos terão apoio. Para os outros, a lei". A frase foi dita pelo coronel Erir Costa Filho ao assumir o comando da Polícia Militar, em 2011. Passados sete anos, o oficial é acusado pelo Ministério Público Estadual de sofrer de "cegueira deliberada" ao permitir regalias ao ex-governador Sérgio Cabral na prisão.

Essa não foi a primeira reviravolta na carreira do oficial, que fez fama ao se autopromover como linha dura. Sua saída da Polícia Militar ocorreu após o então secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, não ter sido informado da anistia da prisão a policias militares que haviam praticado infrações leves, como faltas ao trabalho. Um irado Erir Ribeiro chegou a quebrar vasos de plantas na saída do gabinete de Beltrame, após conversa de dez minutos.

"A anistia foi a gota d'água. Sua exoneração ocorreu porque na época das manifestações ele ligava diretamente para Sérgio Cabral e não para o Mariano, que era sempre pego de surpresa", afirmou uma pessoa que trabalhou no gabinete do ex-secretário de Segurança.

Com o apoio dos policiais anistiados, o coronel tentou a eleição para deputado estadual em 2014, utilizando o número 17.'190' para ser digitado na urna. Na tentativa de adubar sua candidatura, o principal doador foi Marco Antonio Cabral, filho do ex-governador, que destinou R$ 7.145 para a confecção de santinhos, cartazes, placas de lona e adesivos. O valor correspondeu a 98% do dinheiro arrecadado pela campanha. Conseguiu 8.749 votos, metade deles de Nilópolis, município da Baixada Fluminense no qual ainda mora. Na época, declarou ter bens no valor total de R$ 1.046.000, com terreno em Cabo Frio, casa em Teresópolis e uma Range Roover.

Após passar pela vice-presidência do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio, em janeiro de 2015, sucedendo Rogério Onofre na cúpula do órgão, foi chamado pelo governador Luiz Fernando Pezão para a pasta penitenciária."É um homem digno", afirmou o governador na época, enquanto visitava o Complexo do Alemão.

Sua dignidade, no entanto, foi colocada à prova quando o juiz Eduardo Oberg afirmou que ele tentou impedir a transferência de presos do Comando Vermelho. Chamado à Alerj para depor, chorou. Depoimentos em juízo apontaram encontros do secretário com a cúpula da facção. No entanto, a investigação não foi à frente, por motivos não totalmente esclarecidos.

Para o Ministério Público Estadual, mesmo com as denúncias feitas pela imprensa sobre as irregularidades e benefícios a Cabral, "a cúpula da SEAP mantém-se em peculiar estado de normalidade. Todos os atos ilícitos são prontamente acompanhados de justificativas, algumas pueris, outras mais bem alinhavadas, todas no limite do inaceitável".

PODER DE INTIMIDAÇÂO
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Licitações e transferências sob suspeita
Além das regalias concedidas ao ex-governador, o MPE tem outras investigações em andamento envolvendo o nome de Costa Filho.
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As mais recentes referem-se à falta de licitação para a cantina da cadeia de Benfica e a um esquema de empresas fantasmas no fornecimento de gelo para o sistema penitenciário. O lucro dos esquemas investigados beneficiaria agentes penitenciários.
Há ainda uma apuração sobre o esvaziamento do Grupamento de Portaria Unificada, formado por agentes autônomos que fiscalizavam caminhões e correspondência (Sedex) que entravam nos presídios. Na gestão do coronel, muitos agentes foram transferidos, facilitando a entrada de celulares e drogas nos presídios.
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Promotores também constataram a falta de apuração correcional dentro da própria Seap. A entrega de fast food, por agentes, a traficantes do Comando Vermelho ainda não foi apurada. Outro exemplo é a paralisação da sindicância interna instaurada, após denúncia do DIA, que tem como alvo o subsecretário Sauler Sakalem, por suspeitas de proximidade com milicianos. O afastamento de Sakalem também foi solicitado pelo MP.

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