Escolas de samba sem Carnaval, sem desfile e sem dinheiro

Agremiações de Nova Iguaçu lamentam que a cidade mais uma vez não realize a festa e se preocupam com a situação

Por Aline Cavalcante

O carpinteiro Jorge Alberto faz gaiolas agora
O carpinteiro Jorge Alberto faz gaiolas agora - Luciano Belford / Agencia O Dia

Na última semana, a Prefeitura de Nova Iguaçu bateu o martelo e acabou com as esperanças das escolas de samba da região. A cidade, pelo terceiro ano consecutivo, não fará o tradicional Carnaval. Sem desfilar há três anos e sem patrocínio, 20 agremiações do município agonizam.

Nada de samba ou ensaios. Nas quadras, o que se encontra é o vazio e a saudade. "Ficamos muito tristes por não desfilar. Ano passado a gente preparou tudo e quando faltavam 15 dias nos avisaram que não teria desfile. O resultado foi uma perda de cerca de R$ 50 mil", afirmou Reginaldo de Albuquerque, o presidente da Escola de Samba Independente de Nova América.

Quem trabalhava nas agremiações já não pode mais contar com o salário que vinha de lá. É o caso do Jorge Alberto, carpinteiro que fazia toda a parte de madeira dos carros alegóricos. "Trabalhei na escola durante seis anos. Era um trabalho certo, com o qual eu contava para pagar as despesas. Tenho me virado fazendo gaiolas e outras coisas".

As dívidas preocupam Edna dos Santos, 73, presidente da Esperança do Amanhã. "Eu devo gente que prestou serviço para a escola e não tenho como pagar, isto me dói muito. Estamos com a quadra fechada, sem subsídio, sem evento e ainda temos despesas com luz e limpeza. Conseguimos nos erguer com luta e agora estamos assim".

De acordo com a Liga da União das Escolas de Samba de Nova Iguaçu (Lubesni) não houve diálogo com a prefeitura. "Tentamos levar as propostas das escolas para fazer o Carnaval da cidade. Entregamos 28 ofícios e não fomos atendidos", afirmou Arlene Camargo, presidente da Lubesni.

"Queríamos apenas que a prefeitura desse autorização para desfilarmos, ainda que não bancasse nada. Acho que falta boa vontade", diz Alexandre Santiago, diretor de Carnaval da Esperança do Amanhã.

Para quem sempre desfilou, fica a saudade. "Eu choro quando lembro que não vou desfilar. Sinto falta da agitação dos ensaios", desabafa Dulcineia Gomes, 58.

A prefeitura justifica que, diante da crise, a decisão foi com base em priorizar áreas fundamentais para o cidadão, como a Saúde e o pagamento dos salários de servidores.

SEM PROJETO SOCIAL

Nem só de desfile vivem as escolas de samba. A rotina nas quadras são de projetos sociais, ou eram, já que fica cada vez mais difícil manter as aulas gratuitas para a comunidade. Na quadra da Nova América já não tem mais as aulas de percussão. "Era uma maneira de tirar estes meninos da rua, mas não conseguimos manter porque a manutenção dos instrumentos é cara e não temos dinheiro. Fico triste com tudo isso", revelou Leonardo Alves, o mestre Leo.

Os alunos também sentem falta. "Gostava muito das aulas, queria que voltassem", contou Wemerson de Oliveira, 16.

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O carpinteiro Jorge Alberto faz gaiolas agora Luciano Belford / Agencia O Dia
Independente de Nova América ainda faz alguns eventos na quadra Luciano Belford / Agencia O Dia
Presidente da GRES Esperança do Amanhã de Cabuçu, Edna dos Santos, em meio a quadra vazia FOTOS Luciano Belford
Integrantes mostram o que sobrou dos desfiles Luciano Belford / Agencia O Dia

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