Por douglas.nunes

Policiais civis em várias unidades da federação interromperam parte de suas atividades nas primeiras horas desta quarta-feira. Segundo a Confederação Brasileira de Trabalhadores Policiais Civis (Cobrapol), entidade responsável pelo ato nacional que reúne policiais civis, federais e rodoviários federais, profissionais de ao menos 16 unidades aderiram à paralisação, sendo que nove delas com suspensão das atividades por 24 horas. Logo mais, às 16h, representantes da categoria realizarão marcha pela Esplanada dos Ministérios. Eles reivindicam o nivelamento do salário dos policiais em todo o país e melhores condições de segurança e infraestrutura.

De acordo com a Cobrapol, a mobilização nacional conjunta foi a forma encontrada para cobrar do governo uma política nacional de segurança pública. Em seu site, a entidade afirma que Alagoas, Amazonas, Bahia, Brasília, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins estão participando da mobilização.

Polícia Civil do Rio faz manifestações pela cidade

No Rio de Janeiro, policiais civis do preparam uma série de manifestações durante a paralisação de 24 horas programada para esta quarta-feira. O presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Rio de Janeiro (Sinpol), Fernando Bandeira, afirmou que 60% do efetivo estão em greve e percorrem delegacias do estado para fortalecer o movimento. A partir das 14h, está marcada uma mobilização na Cidade da Polícia, em Benfica, zona norte e às 19h, a categoria deve ser reunir na Tijuca, zona norte, para decidir os rumos da greve.

Polícia Civil do Rio de Janeiro prevê paralisação de 60% do efetivoSeverino Silva / Agência O Dia

A Chefia de Polícia Civil informou que mantém diálogo aberto com os representantes da categoria e que as negociações estão em andamento. A instituição garantiu que está monitorando o funcionamento de todas as delegacias do estado para adotar medidas necessárias para o bom atendimento à população. O órgão informou também que o cidadão pode pré-agendar o registro de ocorrência pela internet pelo site. Apenas crimes de roubo de carro e homicídio não podem ser pré-registrados.

Bandeira disse que se até o início da Copa do Mundo, o governo do estado não tiver aberto um caminho de diálogo, os policiais civis podem fechar os braços durante o evento.

“Queremos evitar problemas com o estado e com a Copa do Mundo e com o Brasil. Passaram-se dois anos e não se resolveu nada e 2014 é um ano importante de eleições”, comentou ao explicar que a pauta de reivindicações foi apresentada ao governo em 2012 e até hoje o sindicato não obteve resposta.

Dentre os itens da pauta de reivindicações estão, plano de saúde, reajuste de 100% do tíquete alimentação e do vale-transporte, criação de um plano de cargos e salários, incorporação das gratificações e reajuste de 50% no piso dos agentes para diminuir a discrepância com os vencimentos de delegados. Segundo Bandeira, dos cerca de 11 mil policiais, mais de 90% são policiais civis que ganham entre R$800 e R$900, sem as gratificações. Menos de 10% são delegados e ganham em torno de R$ 20 mil.

“O salário só vai a R$1,5 mil com as gratificações e aumenta um pouquinho mais nas Delegacias Legais na Core [Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais]. Então é um jogo de salário de acordo com o local onde se está trabalhando,” declarou o sindicalista. “Os policiais ficam com medo do delegado titular tirá-los de onde estão e eles perderem a gratificação. Isso cria até divisão entre nós”, disse ele.

Estados aderem à paralisação

Em São Paulo, somente ocorrências de natureza grave estão sendo registradas nesta quarta-feira nas delegacias do estado, segundo os sindicatos dos investigadores e dos escrivães do estado. 

As entidades não informaram quantas unidades paralisaram as atividades, mas, de acordo com Heber Souza, secretário-geral do Sindicato dos Escrivães de Polícia do Estado de São Paulo, a adesão foi maior nas unidades do interior. “Em cidades como Lins, Bauru, Assis, a categoria está bastante mobilizada. Na capital, [a adesão] não foi tão grande, mas sabemos de muitas delegacias que só estão recebendo ocorrências de natureza grave”, apontou.

A mobilização dos policiais paulistas tem reivindicações específicas para o estado. “Além da pauta nacional, estamos pedindo a modernização da polícia, investimentos em tecnologia e prioridade na área de investigação”, explicou Heber Souza. No estado, são 32 mil policiais civis. Não há previsão de manifestação pública dos policiais em São Paulo.

Em Alagoas, os policiais optaram por manter os serviços integralmente. O Sindpol local convocou a categoria para um ato pela aprovação da proposta de emenda à Constituição 51/2013, que trata, entre outras coisas, da implantação da carreira única e da desmilitarização da Polícia Militar. De acordo com o vice-presidente do sindicato, José Edeilto Gomes dos Santos, embora a categoria não tenha paralisado as atividades, “um bom número” de policiais” participou do ato conjunto com a Polícia Federal, em Maceió. O coordenador de comunicação da Polícia Civil, Amarildo Albuquerque, garantiu à reportagem da Agência Brasil que o movimento não prejudicou o atendimento à população e que os serviços estão funcionando normalmente em todo o estado.

No Amazonas, a categoria também optou por não aderir à paralisação, mas manifestou apoio à mobilização nacional em reunião de um grupo de policiais. “Temos uma negociação já em andamento e, desde segunda-feira, estamos nos reunindo com representantes do governo estadual. Por isso, optamos por não fazer uma paralisação e orientamos a todos que estão de serviço a comparecer normalmente ao trabalho, para não atrapalhar as negociações”, comentou o diretor financeiro do Sinpol, Fredson Bernardo da Silva, que informou que ao menos cem policiais civis participam do ato, no centro de Manaus. “Apoiamos o movimento pela valorização da segurança pública em todo o país”, disse.

Na Bahia, o Sindpoc anunciou que, das 8 horas desta quarta-feira à mesma hora de quinta-feira, apenas o mínimo de 30% do efetivo de serviço estará a postos para atender casos de prisões em flagrantes e crimes contra a criança e a vida. Segundo o presidente da entidade, Marcos de Oliveira Maurício, ao menos 65% da categoria está parada. Até o momento, não foram registrados transtornos. A Polícia Civil da Bahia informou não ter recebido reclamações sobre o atendimento, mas ainda não tem um balanço sobre o movimento. A corporação está orientando os cidadãos a, se necessário, procurar os delegados responsáveis pelas delegacias ou a registrar ocorrências na delegacia virtual.

No Distrito Federal, a categoria aprovou a paralisação entre 8 horas e meia-noite desta quarta-feira, durante assembleia realizada na terça-feira. Vice-presidente do Sinpol, Renato Rincón afirmou que a adesão à paralisação "é maciça" e que apenas casos de homicídios, latrocínios, estupros, remoção de cadáveres e outras ocorrências emergenciais devem ser atendidas. A Secretaria de Segurança Pública confirmou que as vítimas de crimes de menor potencial ofensivo não estão sendo atendidas nas delegacias, mas garantiu que todas as ocorrências graves serão registradas e atendidas normalmente. O sindicato convocou a categoria a comparecer à marcha desta tarde.

No Espírito Santo, a paralisação de 24 horas foi aprovada durante uma assembleia realizada na manhã desta quarta-feira. Segundo o Sindipol, os policiais que aderirem ao movimento vão permanecer em suas unidades, mas trabalhando apenas em emergências, flagrantes e recolhimento de corpos. Os policiais capixabas cobram melhores condições de trabalho e a exigência de nível superior para ingresso na corporação. Em todo o estado, o atendimento nas delegacias e departamentos acontece normalmente. A secretaria informou ainda não ter um balanço sobre a adesão ao movimento.

Em Santa Catarina, segundo o Sinpol, serviços foram interrompidos no interior do estado, onde a adesão da categoria à mobilização foi mais significativa. Já na capital, Florianópolis, devido à baixa adesão, o sindicato optou por fazer um ato de esclarecimento à população. No interior, a orientação sindical é que os policiais atendam apenas emergências e ordens judiciais. Procurada, a assessoria da Polícia Civil informou que, "em todo o estado, não houve paralisação".

No Pará, o sindicato que reúne servidores públicos da Polícia Civil chegou a anunciar a adesão da categoria à mobilização nacional, mas, segundo a imprensa local, os policiais fizeram um ato em Belém e agendaram uma assembleia para o próximo dia a fim de discutir uma provável paralisação. A Agência Brasil não conseguiu conversar com nenhum representante do sindicato ou da Polícia Civil do Pará.

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