Crise argentina domina encontro entre Brics e Unasul

Maioria dos países teme que a derrota da Argentina na justiça americana acabe comprometendo os processos de renegociação de dívida de outras nações

Por O Dia

Embora a pauta oficial da reunião dos 16 chefes de estados dos países integrantes do Brics e da Unasul (que reúne os países da América do Sul) fosse a inclusão social e o desenvolvimento sustentável, dois temas acabaram dominando as manifestações de boa parte dos líderes presentes ontem em Brasília: a disputa da Argentina com os chamados fundos abutre, que vêm ameaçando a renegociação da dívida do país, e a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos Brics.

No encontro, emergiu uma preocupação, compartilhada entre a maior parte dos países, sobre os efeitos que a sentença da justiça americana, favorável aos fundos, poderá ter sobre outras renegociações em andamento de dívidas de nações e sobre a própria Argentina. “Apareceu (na reunião) o tema da Argentina, pelo que o país está passando, devido à sentença do juiz nos EUA. É um tema que suscitou a preocupação de quase todo mundo. Essa sentença é irracional. Todos manifestaram seu apoio à Argentina”, disse o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, após o encontro.

Para o Brasil, o tema é particularmente importante pelos seus efeitos sistêmicos: pode criar uma insegurança no lançamento de bônus de dívidas. Em março, o país decidiu entrar no processo judicial entre a Argentina e os fundos abutre, que corre na corte de Nova Iorque, como amicus curiae (termo em latim que significa “amigo da corte”), em apoio ao país vizinho.

Em sua passagem por Brasília, a presidente argentina Cristina Kirchner falou sobre o tema antes, durante e após o encontro. “Acreditamos em uma pátria grande e que é preciso acabar com esse tipo de pilhagem internacional em matéria financeira, que hoje estão querendo fazer contra a Argentina e também vão tentar levar adiante contra outros países”, disse ela, ao chegar à capital. Manteve o mesmo tom em seu discurso durante a reunião quando afirmou que o país seguirá adimplente. Na visão da presidente argentina, o país está “sofrendo um ataque especulativo fortíssimo” e reafirmou que a Argentina está “em dia” com seus pagamentos. A decisão da Corte americana, afirmou Cristina, permite um ganho de 1.600% aos credores, muito superior ao que será pago aos que aceitaram a renegociação da dívida.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial também foram alvo de críticas dos mandatários. A deixa já estava nas sucessivas declarações dos Brics divulgadas ao final dos últimos encontros: o grupo quer a reforma da distribuição das cotas do fundo, de forma a dar mais poder aos emergentes, cuja importância geopolítica ascendeu. Ontem, os líderes sul-americanos manifestaram seu apoio à criação do banco dos Brics, como um contraponto às instituições de Bretton Woods. Segundo o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, o banco propiciará “uma nova arquitetura financeira que beneficie o desenvolvimento econômico em condição de eqüidade entre os países”. Para o presidente uruguaio, José Mujica, o banco é uma alternativa: “O mundo financeiro é imprevisível e a insegurança e a volatilidade atuais são muito grandes. Isso nos obriga a ter uma reserva. Meu país é muito pequeno, tem PIB de US$ 52 bilhões e reserva de US$ 18 bilhões, é uma disparidade”.

Pela manhã, após o encontro com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a presidenta Dilma Rousseff reafirmou o interesse dos Brics na reforma do FMI. “Nós não temos o menor interesse em abrir mão do Fundo Monetário. Pelo contrário, temos interesse em democratizá-lo, torná-lo mais representativo”, disse.

A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, enviou uma mensagem a Dilma, na qual diz querer trabalhar em conjunto com a equipe dos Brics dedicada ao projeto de criação do Arranjo Contingente de Reserva, outro produto da reunião de Fortaleza.

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