'Não se deve transformar os Brics em ato político', diz presidente do Cebri

Luiz Augusto de Castro Neves, alerta para o viés político que os países dos Brics podem expressar de forma equivocada, como a eventual ajuda financeira à Argentina ou até a entrada do país vizinho no grupo

Por O Dia

O presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Luiz Augusto de Castro Neves, alerta para o viés político que os países dos Brics podem expressar de forma equivocada, como a eventual ajuda financeira à Argentina ou até a entrada do país vizinho no grupo. Castro Neves, que foi embaixador do Brasil na China entre 2004 e 2008, defende a efetividade das iniciativas lançadas na segunda-feira, de ordem econômica, de forma que os países dos Brics possam contribuir para desenvolver uma nova arquitetura financeira e comercial no mundo. Sobre a China, diz que o país asiático terá função importante no financiamento proposto pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos Brics, embora a participação inicial de cada país seja igual. Entre os países dos Brics, a China é a nação que mais tem condições de aportar recursos no banco. Sobre o interesse chinês de fazer acordos de livre comércio na América Latina, Castro Neves afirma que não traria benefícios ao Brasil, devido às vantagens comparativas e à alta competitividade da economia chinesa. No entanto, o embaixador acredita que as oportunidades de comércio com a China são crescentes, diante da nova estratégia de crescimento do consumo interno adotada pelo atual governo chinês.

Qual é o significado da criação do banco e do fundo dos Brics?

O fundo é uma facilidade de curto prazo, já existe, é uma prática normal. Alguns países da Europa têm isso, uma caixa para dificuldades de curto prazo. Essas iniciativas foram uma tentativa de tornar mais concretas as reuniões dos Brics. Até agora, os Brics têm sido um grupo de países diversos entre si, politicamente, culturalmente, de histórias muito diferentes e que, na verdade, têm pouco em comum. O Brics foi um acrônimo criado pelo <CW-8>economista Jim O’Neill, da Goldman Sachs, e que colou. O grande traço de união é a busca de maior papel e importância nas grandes decisões internacionais. Eles querem que o FMI faça uma reforma que os contemple com maiores responsabilidades e querem ser membros permantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. São um grupo de países emergentes que quer mais participação nas grandes decisões internacionais, em política econômica inclusive.

É uma maneira de se afirmar no cenário mundial?

Sim, e também de refletir o fato de que são, hoje, economias de maior dimensão. A China é a segunda economia do mundo. O Brasil é a sétima ou oitava. E Rússia e Índia são economias grandes. A Rússia é um grande produtor de energia e a Índia é um país importante por si só. Embora não seja parte do Tratado de Não Proliferação, ela é de fato uma potência nuclear. No caso do banco, é uma espécie de contraponto ao FMI. Talvez no futuro possa haver uma certa fraqueza porque, como não conseguiram a reforma no FMI, fizeram o próprio banco para financiar seus projetos e eventualmente e o de outros países. Digamos que amanhã o FMI resolva fazer uma reforma que contemple as aspirações dos Brics. O banco continuará a existir ou deixará de existir porque perderá sentido? Outra coisa que me chamou a atenção foi a China convidar a Argentina para integrar os Brics.

Por quê?

Seria politizar um pouco o discurso dos Brics, que, até hoje, se circunscreveu à área econômica. Os Brics surgiram como os grandes emergentes. A Argentina se encontra imersa em meio a uma grande trapalhada financeira.

A Cristina Kirchner disse que haveria uma “pilhagem” na Argentina. O discurso dos Brics está se politizando?

Não sei se é o caminho. De qualquer forma, mesmo que a Argentina tenha credenciais para integrar os Brics, existem outros países em desenvolvimento que teriam certamente mais credenciais do ela, como o México, uma economia muito mais importante do que a da Argentina. Outro país é a Indonésia, uma economia importante, tanto em termos de território, quanto de população. Esse convite ao protagonismo argentino tem um viés muito mais político do que econômico. E a presidenta Dilma Rousseff disse que eventualmente vai usar o banco dos Brics para emprestar dinheiro para a Argentina.

É uma crítica aos Estados Unidos, aos credores da Argentina?

Sim, mas não deixa de ser algo muito mais retórico do que algo com base na realidade. Mais parece uma declaração no estilo “esquindô, esquindô”.

Vai chegar a algum lugar?

Provavelmente, não. Inclusive, na América Latina, o grande banco financiador é a CAF (Banco de Desenvolvimento da AMérica Latina), extremamente bem gerido e que abrange a região como um todo. E o banco dos Brics competiria com a CAF.

Mas a ideia é o banco dos Brics financiar a infraestrutura na América Latina.

Sim. Esse capital dos Brics, que ainda não foi integralizado, é apenas um capital nominal, de US$ 50 bilhões, sendo US$ 10 bilhões para cada um. Isso pode ser muito maior. A liquidez do banco, a sua capacidade para emprestar, vai depender essencialmente da decisão da China de aplicar seu dinheiro nos Brics. Os chineses têm dinheiro sobrando para isso. Eles têm mais reservas do que toda a economia brasileira somada.

Se espera participação maior da China no financiamento?

A China tem a maior capacidade entre os demais de fazer aportes ao banco dos Brics.

Não são participações iguais?

A participação será igualitária. Mas um banco depende de aplicação. Além do capital registrado, qualquer banco capta dinheiro no mercado e empresta para quem está precisando. A capacidade dos Brics de emprestar dinheiro para outros países vai ser em função do que conseguirem captar. E quem tem mais condição de fazer isso é a China.

Como o sr. vê a questão do comércio entre os Brics?

São países com realidades e interesses diferentes. China e Índia são potencialmente inimigos, estiveram em guerra até 1962. Têm uma longa faixa de fronteira ainda não definida, disputada por ambas as partes. A Rússia e a China já tiveram relações boas, relações más. Agora, melhorou um pouco depois do episódio da Ucrânia, em que a União Europeia reagiu muito mal em relação à Rússia, o que acabou empurrando a Rússia para os braços da China.

A China quer o livre comércio com a América Latina. Isso contraria a iniciativa dos Brics?

A China já tem acordos de livre comércio com países da América do Sul, como o Chile. O Chile é muito mais integrado às cadeias globais de valor do que o Brasil, uma economia muito mais fechada. Não sei em que medida o Brasil aceitará o livre comércio com a China, porque implica em abertura comercial e a China tem muito mais vantagens comparativas do que o Brasil, é muito mais competitiva do que o Brasil, onde há muita queixa da invasão dos produtos chineses. Um acordo de livre comércio agravaria essa situação. A indústria brasileira, como tem uma tradição de ser protegida, nunca se preocupou em ser competitiva e é um preço que estamos pagando agora.

E investe pouco em pesquisa e tecnologia...

Investe muito pouco. Um estudo sobre pesquisa, desenvolvimento e inovação comparando os Estados Unidos com o Brasil mostra que, nos EUA, 30% da pesquisa estão centrados em institutos de pesquisa e universidades, enquanto 70% são pesquisas das empresas. No Brasil, a proporção é o contrário. Quase que a totalidade das pesquisas ocorrem nas universidades e nos centros de estudos e as empresas brasileiras praticamente não pesquisam, não fazem inovação. Só usufruem daquilo que foi feito em indústrias americanas ou europeias. Basta ver a publicidade da Volkswagen na televisão, que fala que o carro é o grande sucesso da tecnologia alemã.

Há o risco de a China ficar hegemônica nos Brics?

A China tem uma economia muito mais dinâmica do que os outros países dos Brics. Cresce 7% ao ano, que não é mais os 10% que cresceram, mas cresce a taxas altas. A ideia da China é investir mais no seu mercado interno, negligenciado porque o esforço de crescimento foi voltado para a exportação, o que deixou muita gente na China à margem da prosperidade. Há numerosas oportunidades de investimento na China, que vai precisar de acesso, de garantia de suprimento de matérias-primas, sobretudo de produtos agrícolas para sua população, cada vez mais urbana e cada vez mais forte. Portanto, haverá uma demanda crescente por alimentos, não só em termos quantitativos, mas em termos qualitativos. A China, na medida em que precisa se integrar mais na economia mundial, vai continuar investindo fora, marcando sua presença. É importante para ela criar parcerias e interdependências.

O presidente da Venezuela disse que a reunião de ontem era um novo tempo para a geopolítica mundial.

É pura retórica. Não tem mais do que isso. Porque uma das tendências é evitar que o grupo se transforme em uma caixa de ressonância de países que se sentem marginalizados. A Venezuela está em uma situação muito precária em termos econômicos e sociais, e é comum nesses países se colocar a culpa no resto do mundo.

É preciso haver um esforço para evitar o enfrentamento com os blocos hegemônicos?

Um dos grandes desafios dos Brics é colocar esses mecanismos para funcionar efetivamente, porque o banco e a facilidade de crédito no curto prazo são importantes. E não começar a expandir e transformar os Brics em um ato político, em uma questão retórica. Os Brics devem ter uma importância econômica mais efetiva que possa contribuir para a nova arquitetura econômica, comercial e financeira do mundo.

O sr. vê impactos dessas iniciativas dos Brics para a União Europeia e os EUA ?

O grande evento dos Estados Unidos, da União Europeia e da Ásia também é o grande acordo em negociação entre Estados Unidos e Ásia. O outro é a parceria transatlântica entre Europa e Estados Unidos, que seria o maior acordo comercial de que se tem notícia. O que ocorre hoje é a formação gradativa de cadeias globais de valor. Os centros produtivos hoje são muito internacionalizados, integrados. A especialização em segmentos da cadeia produtiva leva a um aumento da produtividade da economia e a uma maior competitividade. O grande desafio nosso é nos inserirmos nestas cadeias da melhor maneira possível e os chineses foram os mais bem-sucedidos nessa questão. E alguns países latino-americanos, como o Brasil, continuam muito fechados, voltados para si, protecionistas e pouco competitivos.

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