Por bruno.dutra

São Paulo - Nos últimos dez anos, os salários cresceram mais do que a produtividade, o que diminuiu a competitividade das empresas brasileiras. Embora a afirmação seja verdadeira, não foi apenas o aumento real dos salários o responsável por esse descompasso, mas a falta de investimentos como consequência da valorização do câmbio. Essa foi a conclusão dos economistas que participaram ontem do 11º Fórum de Economia da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV).

Professor da FGV, Nelson Marconi lembra que o Brasil optou em ter uma economia baseada na demanda agregada interna como forma de crescer e fugir dos efeitos da crise mundial. Entretanto, diz ele, desde 2008, quando a crise internacional começou, o consumo no Brasil subiu, mas as importações cresceram mais fortemente do que a produção nacional: “O que se esperava era que o consumo estimulasse o investimento e, assim, a produção da indústria nacional. Mas foram as empresas estrangeiras que se apropriaram desses benefícios via importação, afetando os investimentos”.

Como a produção não aumenta, mas os salários sim, significa que o custo unitário do trabalho está ficando maior, diminuindo ainda mais a competitividade brasileira, que é agravada pela desvalorização cambial. “Se o custo unitário de trabalho está aumentando e a receita de exportações diminuindo, isso afeta negativamente o setor produtivo, e não tem emprego que se sustente”.

Diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio discorda dessa avaliação. Segundo ele, são justamente os ganhos reais de salário que estão ampliando a demanda interna e fazendo a economia girar. “Essa demanda interna se apropriou da produção e puxou os investimentos. Mas as empresas investiram apenas em modernizar fábricas já existentes e pouco na expansão, por isso não conseguiram atender à demanda”.

Para ele, a discussão deveria ser qual é o crescimento que os salários precisam ter para sustentar uma nova demanda”.

Clemente discorda que este seja momento de reduzir salário e emprego como no passado: “Estaremos desestruturando aquilo que segura parte da demanda, da indústria e do investimento”.

Opinião semelhante tem o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, professor da FGV. Para ele, o que causa a queda na produtividade é a baixa taxa de investimento. A competitvidade brasileira, diz, está ruim desde a década de 1990: “Há consenso de que o problema está no investimento”.

Já o professor e especialista em mercado de trabalho José Pastore diz que o ganho real do salário é bem-vindo, desde que acompanhado de ganho de produtividade. “O descasamento entre salários e produtividade generalizou-se com a falta de mão de obra, ampliando muito o custo unitário do trabalho. O Brasil está perdendo o bônus de ter uma população jovem por conta do baixo crescimento demográfico e, com isso, a mão de obra passa a ser escassa e cara quando se leva em conta a produtividade do trabalho”, diz.

Por conta desse descasamento, diz ele, as empresas podem adotar duas estratégias para pagar a diferença: repassar para os preços ou reduzir o lucro. “Repassar aos preços só é possível para bens não comercializáveis, como em serviços, que não têm competição internacional. No caso da indústria, a diminuição dos custos vem via restrições crescentes do lucro, que reflete na capacidade de investir e de inovar”, afirma Pastore.

“Mais renda gera expectativa além do consumo”

Para Claudio Gonçalves Couto, professor da Escola de Administração da FGV, essa discussão deve levar em contas as transformações sociais do país em 20 anos e se refere principalmente a uma maior equidade. “Nos últimos dez anos houve uma redução significativa da desigualdade e da pobreza. O aumento de renda gera expectativas que vão além do consumo”, diz ele, sugerindo que as discussões devem levar em conta também essa busca pela igualdade.

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