Por marta.valim

À primeira vista, a intrincada fórmula matemática no quadro negro da cafeteria, sob o cabeçalho “Teorema da Ergodicidade de Moore”, escrito em inglês, soa anacrônica em um país que ocupa uma das últimas posições no ranking da disciplina elaborado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). A variedade de idiomas falados nos corredores do edifício de arquitetura modernista erguido em meio à floresta, no Rio, mostra porém que essa primeira análise é precipitada. Pelo local, onde funciona o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), circulam pesquisadores internacionalmente renomados e estudantes de todo o planeta, atraídos pelos programas de pós-graduação do instituto.

A notoriedade do Impa ultrapassou as fronteiras acadêmicas este ano, chegando às páginas do “The New York Times” — que publicou longa e elogiosa reportagem sobre o instituto — depois que o pesquisador Artur Ávila foi agraciado com a medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da Matemática, por sua contribuição à pesquisa de sistemas dinâmicos unidimensionais. Com 63 anos de atividades, o Impa prepara um processo de expansão e o lançamento de um fundo para receber doações de ex-alunos e pessoas e empresas interessadas em financiar a pesquisa matemática.

Os frutos colhidos com o prêmio de Ávila começaram a ser plantados em 2000, quando a instituição se livrou de algumas amarras do poder público ao se transformar em organização social independente. A mudança facilitou a contratação de pesquisadores estrangeiros sem a exigência de proficiência em língua portuguesa, comum à outras instituições de ensino públicas. “Em nosso último concurso, apareceram 100 candidatos para duas vagas. Apenas 12 eram brasileiros. Se exigíssemos proficiência, teríamos que abrir mão de 88% deles”, exemplifica o diretor da instituição, Cesar Camacho. As vagas foram preenchidas por um francês e um alemão.

A diversidade cultural, latente em todos os ambientes do edifício no bairro do Horto, ao pé da montanha que divide as Zonas Sul e Norte do Rio, é considerada por Camacho — ele mesmo um estrangeiro, nascido no Peru — um dos trunfos do Impa. Há ex-alunos do instituto espalhados nos mais renomados centros de ensino do mundo. “Conheci primeiro os pesquisadores e, depois, o Impa. Na verdade, fiquei surpreso quando, em meio à minha graduação na China, descobri que muitos dos pesquisadores que estudei vieram daqui”, conta o doutorando Ziaochuan Liu, há três anos no Rio. A crise nos países desenvolvidos, diz Camacho, tem ajudado a atrair o interesse para o Brasil.

A avaliação dos candidatos por mérito é outro trunfo apontado pelo diretor do instituto. “Não temos exigência de idade mínima nem de graduação mínima. Há alunos que estão no ensino médio ou no começo da faculdade já fazendo mestrado aqui”. Camacho cita Ávila como exemplo: o vencedor da medalha Fields começou seu doutorado ainda cursando o ensino médio e teve que esperar a conclusão da faculdade para obter o diploma, uma vez que a legislação exige o cumprimento das etapas. Para Camacho, esse é “um exemplo das travas que o país coloca” — ele ostenta um título de doutor pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, sem ter diploma de graduação.

A seleção de pesquisadores é feita com análise de currículo e cartas de recomendação. Os alunos podem começar com cursos livres e, depois, avançar para os programas de mestrado ou doutorado. Os cursos são financiados pelo governo, que garante um orçamento de R$ 30 milhões ao Impa, e há bolsas para todos os mestrandos e doutorandos. O instituto coordena a realização das Olimpíadas da Matemática, com o objetivo de buscar talentos que não teriam acesso ao Impa por conta própria.

Na contramão, há um esforço em parceria com universidades públicas para levar ex-alunos para coordenar cursos de Matemática em todo o país. Camacho conta que algumas pesquisas se transformam em serviços — como um laboratório de dinâmica dos fluidos, usados pela indústria do petróleo — mas diz que o foco não é a “matemática industrial”. Entre os ex-alunos do Impa, Camacho cita figuras conhecidas no mundo econômico, como Alexandre Scheinkmann, professor da Universidade de Princeton, o ex-diretor do Banco Central Sérgio Werlang e Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

O Impa recebeu este ano, da família Marinho, do Grupo Globo, a doação de um terreno de 250 mil metros quadrados ao lado de sua sede, onde pretende construir um novo prédio para expandir as atividades. O projeto de construção e seus custos estão sendo elaborados, mas Camacho diz que conta com apoio da Presidência da República para a expansão. Com mais alunos e pesquisadores, um dos objetivos é diversificar as áreas de pesquisa. “Devemos estudar aqui no Brasil algo em torno de 15 áreas de pesquisa, enquanto a Matemática tem umas 60 áreas”, argumenta ele.

A formulação de um fundo de doações de grande porte por empresários e instituições é outra meta para o futuro. Embora a prática seja ainda incipiente no Brasil, algumas cátedras do Impa já são mantidas com doações financeiros de outras personalidades, como o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, o matemático americano James Simmons, e a família Moreira Salles. Nos Estados Unidos, onde as doações são disseminadas, universidades receberam US$ 39 bilhões de pessoas físicas ou jurídicas no ano passado, ajudando a financiar bolsas de estudos e projetos de pesquisa.

ENTREVISTA

Cesar Camacho, diretor do Impa: ‘Pouco se fala em educação no país’

O Brasil é um país conceituado em relação à pesquisa matemática, mas está mal posicionado quando se trata do ensino da disciplina no ensino básico. O que explica isso?

Desde 2005, temos tido um contato mais próximo com a escola pública, através da realização das Olimpíadas de Matemática, e percebemos que o ensino tem uma série de deficiências, que começam pela formação do profissional. Além disso, não é uma profissão atraente. Os salários ainda são baixos e as pessoas mais qualificadas, mesmo que tenham vocação, preferem seguir outras carreiras.

O fato de ter uma gestão mais pulverizada do que a pesquisa contribui para o problema?

Houve um divórcio, desde a década de 1950, entre a pós-graduação e o ensino público nas escolas. A pós-graduação focou seu desenvolvimento na análise do mérito científico, na qualidade da pesquisa, o que faz com que tenhamos figuras importantes na pós-graduação brasileira com conhecimento dos mais variados temas. Isso não aconteceu com o ensino público. A análise do mérito não prevaleceu. E isso começa pela degradação salarial e se aprofunda com a procura pela isonomia entre os profissionais, sem a análise de mérito.

Como resolver essa questão?

A solução só virá quando a educação for prioridade para os governos, o que ainda não acontece no Brasil. O país vive um momento de grande debate em torno da eleição, mas onde está a educação? Não temos ouvido muita gente falar no assunto...

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