Por bruno.dutra

A China é acusada por empresários brasileiros de fazer concorrência predatória, oferecendo artigos baratos e de baixa qualidade. Paralelamente, o Brasil continua sendo um forte exportador de commodities para a China. Aparentemente há um enorme potencial comercial entre os dois países, mas permanecem os conflitos. O que deverá predominar: os interesses comerciais ou os conflitos?

Acho que pode haver alguns conflitos nas reuniões de negócios, sobre qualidade. Mas a presença da China é relativamente nova no Brasil e a relação econômica entre os dois países também, por isso eu não ficaria surpreso ao ver as dificuldades que você menciona. Não há dúvida de que as companhias chinesas recorrem às vezes a métodos predatórios, não apenas no Brasil, mas em outros lugares. Porém, isso só exige que ambos os lados fiquem atentos. Parece que as lideranças de ambos os países já conversaram sobre essa questão. Espero que haja uma relação saudável entre os dois países.

O que a indústria brasileira poderá esperar da concorrência chinesa: vai aumentar ou se chegará a um equilíbrio?

Eu acho que a competição vai ficar mais intensa, provavelmente porque a economia chinesa está desacelerando e, portanto, haverá mais ênfase no mercado exportador. As companhias chinesas têm muita capacidade instalada e precisam encontrar novos mercados para seus produtos. Por isso eu acho que se a regulação da competição for justa e transparente, a competição é boa. A questão é como você organiza a competição, e não se ela será intensa ou não.

O Brics tem chance de sucesso, especialmente agora, que foi anunciada a criação de seu próprio banco de desenvolvimento? Há conflitos históricos, como China e Índia, e diferenças grandes entre os países. Qual o peso disso para o sucesso da iniciativa?

A relação sino-indiana é bem complicada e está ficando ainda mais complexa. Pessoalmente, não enxergo os Brics como bloco econômico ou político viável. Acho que é mais retórico do que concreto. O fato é que esses quatro países têm interesses muito diferentes uns dos outros e a Rússia está em uma situação muito diferente do Brasil, da China, da Índia. É difícil imaginar esses quatro países com uma política externa ou econômica conjunta. Eu não consigo visualizar isso.

O acirramento da crise da Ucrânia, que vem provocando o isolamento da Rússia pelos EUA e pela Europa, pode acelerar a integração dos Brics??

Duvido muito que o Brasil sacrifique sua relação com os Estados Unidos para ficar ao lado da Rússia nisso. E a China não está criticando a Rússia abertamente, mas, por outro lado, não acho que a China gostaria de ver instabilidade na região. Por isso, não acredito que a existência dos Brics seja motivo para que Índia, Brasil e China tenham uma política externa comum. Não acredito nisso. Seus interesses econômicos não favorecem a Rússia substancialmente.

Economistas apontam que o crescimento acelerado da urbanização e da classe média na China deverá aumentar o mercado doméstico, inclusive para produtos manufaturados, mas principalmente para alimentos de outros países, além de criar um nível mais elevado de qualidade dos chineses em relação a seus próprios produtos. Esse processo está acontecendo?

Está acontecendo e acho que este é o motivo pelo qual os países latino-americanos, especialmente o Brasil, podem realmente ter uma vantagem na China. A infeliz consequência do crescimento chinês é o dano ambiental à água, ao ar, ao solo; e a classe média está exigindo alimentos de baixo impacto ambiental, orgânicos. Acredito que a indústria alimentícia será uma parte mais e mais importante do comércio entre Brasil e China.

Até quando a China conseguirá manter esse ritmo de crescimento, na faixa de 7% a 8% ao ano? Uma desaceleração desse crescimento afetaria fortemente os países que exportam commodities para a China, como o Brasil?

Sim, eles serão afetados. A desaceleração é quase inevitável. Por isso haverá efeitos sobre o Brasil de forma negativa em termos de comércio de commodities. Por outro lado, como falamos anteriormente, um mercado consumidor chinês está se desenvolvendo para alimentos de qualidade e produtos alimentícios melhores, e é onde as empresas brasileiras têm um potencial competitivo.

O que a China vem fazendo para melhorar a imagem de seus produtos mundo afora, combatendo a visão criada nas últimas duas décadas de que “Made in China” é sinônimo de produtos de baixa qualidade?

Este é um problema no mercado externo e interno da China. Há um grande debate agora sobre como resolver esse problema no país. Acho que a única solução é aumentar a efetividade das leis, reduzir a corrupção no sistema regulatório e que o governo realmente vá atrás das companhias, para puni-las quando necessário. O problema é que algumas dessas companhias são protegidas pelo governo local. É preciso realmente separar o governo dessas companhias para que, quando necessário, o governo possa ir atrás delas.

Aqui no Brasil, duas empresas chinesas (China National Offshore Oil Corporation - CNOOC e o fundo China National Petroleum Corp - CNPC) fazem parte do consórcio vencedor para explorar o campo de petróleo de Libra, um dos mais promissores do pré-sal. Essa participação foi considerada “tímida”pela imprensa econômica. Qual é a estratégia da China para entrar em investimentos pesados, especialmente de infraestrutura, em países como o Brasil?

Há um forte apetite chinês por recursos naturais, e as companhias chinesas — e essas duas companhias especificamente — não estão fazendo exploração de recursos naturais apenas no Brasil, mas também na África. Mas dentro da China há muitas críticas às companhias que fazem isso. Um problema com essa estratégia é que a China precisa reduzir a parcela que a energia tem no crescimento do PIB. Entretanto, as companhias chinesas ainda investem pesado em subsidiar a produção de energia barata. Olhando para o futuro, não acho que essa seja uma estratégia muito boa. Espero que diminua esse tipo de investimento por parte da China.

A China poderá ajudar a Argentina, financeiramente, na sua briga com os fundos abutres em torno do pagamento da dívida externa do país? E o que ela pediria em troca?

Eu pessoalmente não acredito que o governo chinês irá se voluntariar a ajudar a Argentina. Esse é um problema para o FMI resolver e, também, a Argentina já teve muitos desses problemas de calote. Só fornecer dinheiro para eles não irá resolver esse problema. Não acredito que o governo chinês irá ajudá-los.

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