Banco do Brasil e Caixa vendem carteiras

Bancos públicos seguem estratégia usada pelos privados para comercializar carteiras com atraso de mais de 180 dias, criando FIDC e analisando propostas de compradores

Por O Dia

Fora do mercado de venda de créditos “podres” até agora, os bancos públicos já encontram maneiras de viabilizar a estratégia, muito usada por bancos privados, principalmente estrangeiros. Os créditos “podres” são aqueles em atraso há mais de 180 dias, baixados a prejuízo nos balanços. A venda era mais difícil para bancos públicos, que teoricamente precisavam abrir concorrência para vender pelo melhor preço. Mas esse entendimento está mudando, ou, ao menos, sendo contornado.

O Banco do Brasil (BB) está esperando a aprovação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para abrir seu primeiro fundo de investimento em direitos creditórios (FIDCs), informou o diretor de reestruturação de ativos operacionais do BB, Carlos Roberto Caffarelli. O fundo compraria esses créditos do banco, que conseguiria, dessa forma, recuperar parte do prejuízo. O fundo deve ser aprovado ainda neste ano, prevê.

Alexsandra Camelo Braga, vice-presidente de riscos da Caixa Econômica Federal, disse que o banco está em fase adiantada de seleção de compradores para seus créditos podres. “Concluímos que essa é uma operação de mercado”, diz, acrescentando que se os bancos privados fazem, e ganham com isso, a Caixa deveria fazer também. “Os bancos privados não precisam fazer uma licitação antes de vender suas carteiras, mas claro que analisam diversas propostas para fechar com a melhor oferta. A Caixa está fazendo o mesmo”, diz, sem revelar quais são os candidatos nem quanto pretende vender. “A Caixa apenas precisa demonstrar que criou competição, que não entregou para uma única empresa”, diz Alexsandra.

Caffareli, do BB, também não revela o valor dos créditos que pretende repassar ao FIDC. Mas diz que normalmente vende operações não ajuizadas e baixadas no balanço, como manda o Banco Central (BC). O executivo explica que até agora o BB vende seus créditos podres exclusivamente para uma subsidiaria interna, a Ativos S.A. — uma empresa especialista em cobrança. Do resultado obtido, o BB recebe uma parte.

“São operações comerciais, com valores limitados a R$ 400 mil”, informa Caffarelli. “Também temos agências especializadas em cobranças de dívida, que é feito por nossos funcionários”, diz. Caffarelli diz ainda que na medida em que recupera parte desses créditos o banco libera espaço para emprestar mais — ou seja, alivia o chamado índice de Basileia, que mede a alavancagem das instituições.

Alexsandra, da Caixa, informa que o banco já vendeu carteiras algumas vezes, na época da reestruturação, transferindo créditos podres. E que costuma vender carteiras de crédito imobiliário para lastrear Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) — mas esses não são contratos em atraso. “É uma operação financeira comum — a Caixa não tem como hábito a venda de créditos podres, mas já comprou”, afirma, acrescentando que está conversando com empresas especializadas na compra de carteiras não-performadas para definir a melhor estratégia a adotar. A executiva informou ainda que está começando a selecionar carteiras com monoproduto — de clientes que em algum momento contrataram só um produto com o banco e não teve bom desempenho — e aquelas das quais a Caixa já esgotou as alternativas e esforços de recuperação. Alexsandra explica que é preciso que as operações sejam de fácil comprovação (de que o crédito existe). “A comprovação do cheque especial é feita pelo extrato; a do cartão de crédito, pela fatura. Mas tem modalidades de difícil comprovação”, diz.

Outro banco público, o BNDES, optou pelo caminho mais ortodoxo e abriu uma licitação. O resultado deve sair no final deste ano. A consultoria PwC está avaliando a carteira de aproximadamente R$ 37 bilhões em créditos vencidos. O contrato foi assinado em setembro do ano passado. Segundo a assessoria de imprensa do BNDES, o resultado ainda não saiu. Só depois disso é que o banco vai decidir se vai abrir uma licitação para venda desses créditos.

Com a desaceleração da economia e do ritmo de concessões de empréstimos, o peso das operações de crédito vencidas e não pagas vai crescer sobre o total da carteira dos bancos. A venda também ajuda a atender ao aumento das exigências do acordo internacional conhecido como Basileia III — quanto mais crédito em atraso, mais provisões os bancos precisam fazer, o que diminui o capital.

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