Por bruno.dutra

O recorde mundial que as eleições presidenciais no Brasil bateram, com mais de 674 milhões de interações no Facebook entre o primeiro e o segundo turno, apontam novas tendências para a coleta de dados dos institutos de pesquisas tradicionais. Eleitores no Brasil somam mais de 140 milhões de pessoas e nem todos estão conectados. Mas o que se poderia chamar de “população brasileira do Facebook” chega hoje a quase 90 milhões de pessoas.

Por isso, empresas focadas nas potencialidades do universo digital estão em busca de um nicho já ocupado pelos institutos de pesquisas tradicionais, como Datafolha, Ibope e Vox Populi. Algumas das chamadas startups têm se dedicado a criar ferramenta para decifrar as intenções de votos de internautas a partir das interações nas redes sociais. É o caso da Bloom Digital Research, que foi precursora na leitura de tendências durante as manifestações de junho de 2013.

“Nossos métodos de pesquisas têm abrangência muito maior que os institutos de pesquisa tradicionais. Estamos falando de milhões de usuários na internet. Os institutos tradicionais trabalham com alguns milhares de entrevistados”, compara Felipe Attílio, gerente de Social Listening da Bloom Digital Research.

Para o publicitário da startup, outro diferencial que pode ser assimilado pelos institutos no futuro é o processamento de dado em tempo real. Attílio afirma que enquanto os institutos tradicionais mostram um retrato de um momento, “as empresas que nasceram no meio digital, trabalham com métodos digitais e pesquisam o próprio ambiente digital” e mostram um filme em tempo real.

Ele argumenta que os institutos não conseguiram captar reações e mudanças surgidas após o último debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, na Globo, porque precisavam divulgar o resultado no dia seguinte, na véspera da eleição. “O debate pode ter sido decisivo para a mudança de opinião do eleitorado, mas os institutos não captaram a tendência. Nós conseguiríamos ver esses resultados em tempo real. E, mais do que entregar um resultado em menos de uma hora a um cliente, conseguiríamos entregar o modo como as opiniões oscilam por fatores internos ou externos”, afirma Attílio.

Consultor de campanhas eleitorais e professor de Comunicação Política da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Roberto Gondo vê com ressalvas a utilização das métricas do mundo digital. Para ele, essas empresas ainda não mensuram a situação real de uma eleição de verdade. Ele defende que apenas 10% da população brasileira está conectada ativamente, a ponto de participar de intensas interações nas redes.

“Nem todo mundo usa as redes como um ponto de preparação para o voto. Se fosse assim, Marina teria se tornado presidente da República. Hoje, acredito que esse tipo de monitoramento funciona melhor em eleições proporcionais, onde candidatos a deputado, por exemplo, conseguem identificar nichos. Mas não duvido que os grandes institutos já estejam desenvolvendo, em seus departamentos de inteligência, pesquisas que integrem as entrevistas tradicionais com as análises de redes sociais”, pondera Gondo.

Analista de risco político, Paulo Kramer afirma que as empresas que produzem métricas sobre eleições em redes sociais precisam estar atentas ao direcionamento produzido por lideranças políticas para esses assuntos. “Para saber mesmo o comportamento do eleitor, o melhor ainda é tal da pesquisa com amostra aleatória”.

Para Kramer, que é também professor licenciado de Ciência Política da UnB, institutos tradicionais como Datafolha e Ibope terão que afinar forçadamente suas metodologias nas próximas eleições. Aí, sim, o digital pode ganhar um papel mais importante nas sondagens de intenção de voto. “Ibope e Datafolha estão numa excessiva zona de conforto. Mas especula-se que uma grande rede de comunicação brasileira estuda para o ano que vem trazer para cá um instituto de pesquisa americano. A concorrência vai forçar a modernização das metodologias”, diz ele.

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