Por bruno.dutra

Rio - Mesmo antes de iniciar seu discurso no seminário sobre reforma política da 9ª Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rosseto, recebeu vaias de parte dos estudantes presentes. Dois dias depois, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, foi recebido com batuques e confetes na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, onde acontece a Bienal. O contraste evidencia a relação que a maior organização estudantil da América Latina mantém com o poder atualmente: uma alternância entre apoio e cobrança.

As discordâncias também revelam as disputas travadas no interior da UNE, que apresenta uma composição bastante heterogênea, embora pouco conhecida. “O senso comum nem sabe como atua a UNE hoje, muito menos como é por dentro”, comenta Jéssica Pietrani, estudante da Universidade Federal Fluminense (UFF). A Bienal, que termina hoje, contou com a participação de 15 mil estudantes inscritos, de diferentes estados e organizações político-partidárias, fora os visitantes. Segundo a entidade, 20 mil pessoas passaram pelo evento, diariamente.

A UNE costuma ser lembrada por sua atuação na resistência à ditadura militar, principalmente em sua fase inicial, na campanha das Diretas já! e nas passeatas que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Entretanto, com a chegada do PT ao governo, a presença da entidade em movimentos contrários às políticas governamentais reduziu de forma significativa. Eleita presidente da entidade no último Congresso da UNE (Conune), em 2013, Virgínia Barros, de 27 anos, afirma que o recuo nas cobranças foi um movimento natural, em função do maior diálogo com o governo.

“As formas de atuação e cobrança precisam dialogar com a conjuntura que a gente vive. Nas décadas de 80 e 90, houve um processo de desmantelo da universidade. Desde que o Lula assumiu a presidência, esse cenário começou a mudar”, argumenta Virgínia, que logo em seguida pondera as conquistas alcançadas:

“Eu acho que ainda é insuficiente, as nossas principais conquistas ainda estão por vir. Mas hoje, diferentemente do passado, existe espaço para diálogo. Nossa postura é de diálogo, mas de pressão permanente, nas ruas e nas universidades, para que a gente consiga avançar”.
Atualmente, as principais bandeiras da UNE são a reforma política e a reforma universitária. A primeira se insere no projeto de lei de iniciativa popular, formulado em conjunto com a OAB, CNBB e mais de cem entidades. Já a segunda trata da continuidade da expansão do Ensino Superior, prevendo melhoria da qualidade da educação, além da regulamentação das universidades privadas, que inclui o controle do valor das mensalidades pelo poder público.

Embora este seja um norte comum, há divergências entre os grupos que compõem as 17 cadeiras da Executiva da organização. “A direção da UNE foi cooptada, deixou de ser uma entidade de luta para ser o braço direito das políticas do governo”, critica Jéssica, que milita pelo coletivo “RUA”, ligado ao Psol.

Diversidade marcou o encontro dos estudantes que vieram de todas as regiões do paísAlexandre Brum / Agência O Dia

Ao lado de “Juntos!” e Partido Comunista Revolucionário (PCR), o grupo compõe a Oposição de Esquerda da UNE, com três cadeiras. O grupo majoritário, liderado pela União da Juventude Socialista (UJS) — ligada ao PCdoB — possui, junto com o “Kizomba”, do PT, 12 cadeiras. Os dois assentos restantes são ocupadas pelo Campo Popular, que engloba o Levante Popular da Juventude e outros coletivos. Grupos de outros partidos de projeção nacional, como PMDB e PSDB, também participam do debate interno, mas são pouco expressivos no movimento estudantil.

Um dos principais pontos de divergência entre as correntes que disputam a UNE é a expansão do Ensino Superior. Os setores ligados ao governo defendem o aumento de vagas nas universidades como prioridade, visando à democratização imediata do acesso, enquanto os grupos radicais priorizam a melhoria da qualidade antes que a expansão seja conduzida.

Na Bienal, contudo, as divergências políticas ficam em segundo plano. O objetivo do evento é promover a integração dos estudantes por meio dos espaços de expressão cultural. O estudante Johnny Aguiar, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, considera que o evento é uma oportunidade dos jovens serem ouvidos. “É um espaço muito bom, porque a juventude das periferias tem voz para expressar sua arte”, diz. Militante do Kizomba, ele apresentou uma peça sobre a violência contra a mulher no evento, junto com colegas.

Uma semana de muita cultura regada à política

Batuque, palavras de ordem, intervenções teatrais, uma profusão de lambe-lambes e instalações delicadas ou grandiosas: tudo junto ao mesmo tempo. Ao cruzar o portal da Fundição Progresso, uma antiga fábrica de fogões transformada em espaço cultural no Centro do Rio de Janeiro, um visitante de primeira viagem leva um choque de sensações. E se surpreende ao perceber que, a poucos metros dali, uma pequena roda de debates ou um seminário acontece sem maiores problemas. Assim foi a 9ª Bienal da UNE, uma verdadeira feira cultural organizada por estudantes para estudantes.

“Enfrentei 30 horas de viagem e tenho acompanhado, principalmente, as mostras culturais e as mesas LGBT”, contou Bruno Faust (19), da Universidade Federal da Fronteira Sul, no Paraná.

O Circuito Universitário de Cultura e Arte da UNE (Cuca), braço de entidade que organiza o evento, trouxe para o Rio 203 trabalhos de jovens de todo o Brasil e de diversos gêneros artísticos. Para receber as obras, um ambiente foi criado a partir de resíduos urbanos como papel, palets e caixotes de feira: tudo feito manualmente.

“O fato é que não debatemos muito o papel da cultura, e aqui essa oportunidade é plena”, afirma Julia Lazaretti (18), da Universidade do Oeste de São Paulo, que após o discurso do recém-empossado ministro da Cultura, Juca Ferreira, decidia, com amigos, se iria ao show da banda Cidade Negra, nos Arcos. Integrante do coletivo Kizomba, ligado ao PT, e fãs do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o grupo admitiu que o governo os tem decepcionado com a guinada ortodoxa na economia, mas mantém o otimismo. “Em 4 anos tudo pode mudar, e para melhor”, aposta Júlia.

Entrevista

Virgínia Barros, Presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

“Diferentemente do passado, hoje existe espaço para diálogo”

A campanha “Fora Collor” foi a última grande mobilização da UNE contra o governo. O que aconteceu com a organização?

As formas de atuação e cobrança precisam dialogar com a conjuntura que a gente vive. Na ditadura militar, a UNE atuava na clandestinidade, porque não existia espaço para o diálogo em nosso país. No período Collor, também não. Foi um presidente que se fechou ao diálogo com a sociedade. Além da corrupção, seu governo ficou marcado pela implementação de uma série de políticas de enfraquecimento do Estado e de implementação do neoliberalismo no Brasil. Nas décadas de 80 e 90, houve um processo de desmantelo da universidade. Desde que Lula assumiu a presidência, esse cenário começou a mudar.

Vocês estão satisfeitos com o cenário atual?

Eu acho que ainda é insuficiente. As nossas principais conquistas ainda estão por vir. Mas hoje, diferentemente do passado, existe espaço para diálogo. É claro que só existe condicionado ao resultado das nossas lutas. Estamos conseguindo ampliar o Ensino Superior, melhorá-lo, embora de forma ainda insuficiente. E vamos seguir pressionando para que a gente consiga avançar mais. Foi assim que a gente conquistou os 10% do PIB e os royalties do pré-sal para a educação. E é assim que a gente vai seguir conquistando mais direitos para os estudantes e melhorias nas universidades. Nossa postura é de diálogo, mas de pressão permanente, nas ruas e nas universidades, para que a gente consiga avançar.

Como vocês receberam a nomeação de Cid Gomes para o Ministério da Educação?

O Cid Gomes tem em seu histórico uma declaração muito infeliz, sobre os professores em greve no Ceará. A UNE é parceira da luta dos professores no país, e sempre seremos solidários a eles. Estamos cobrando as políticas com as quais a presidenta Dilma se comprometeu. Logo em seus primeiros dias como ministro, ele convocou uma reunião com o Fórum Nacional da Educação. A UNE participa do FNE, e a gente acha que isso pode ser uma virada de página para conseguirmos avançar, com o diálogo na formulação e execução das políticas educacionais.

A UNE de 1992 apoiaria a realização da Copa do Mundo no Brasil?

A realidade que nós vivemos hoje é diferente da de 92. A UNE continua defendendo as mesmas coisas, nós ainda somos norteados pelos mesmos princípios de nossa origem, há 76 anos. Eu não acho que foi irretocável. A gente precisa fazer uma avaliação crítica, mas o saldo foi positivo, porque foi protagonizado pelo nosso povo, que recebeu bem o mundo em nosso país. É muito legal que o Brasil tenha possibilidade de se apresentar para o mundo por meio do futebol. Agora, acho que nós conseguimos dar nosso recado em cima das contradições, inclusive.Que essas discussões todas possam servir para a gente avançar no debate da reforma urbana e da elitização do futebol, que é parte integrante de nossa cultura.

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