Por bruno.dutra

Rio - O representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobras, Silvio Sinedino, reforçou ontem as críticas feitas por minoritários à atuação do governo na reunião que escolheu o novo presidente da estatal, Aldemir Bendine, realizada na última sexta. “O acionista controlador acha que o Conselho de Administração é o seu quintal”, afirmou, em bate-papo realizado pela internet, referindo-se ao vazamento do nome escolhido pelo governo antes de votação pelo Conselho. Sinedino deixa a vaga em abril, quando será substituído pelo coordenador do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, Deyvid Bacelar, eleito no último domingo.

“O vazamento do nome foi lamentável, mais uma demonstração da pouca consideração que o acionista majoritário tem pelo conselho da Petrobras”, criticou o representante dos trabalhadores. Segundo ele, o Conselho estava prestes a iniciar a votação do novo presidente quando um dos representantes avisou que o nome de Bendine já havia sido publicado na imprensa. “Não vimos nem o currículo dele.” A União indica sete dos 10 assentos no Conselho de Administração da Petrobras — do restante, dois são indicados por minoritários e um, pelos trabalhadores.

A votação de Aldemir Bendine já havia sido criticada por um dos representantes dos minoritários, o presidente da Associação dos Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Mauro Cunha. “Os conselheiros tomaram conhecimento do nome do novo presidente da Companhia pela imprensa, antes do assunto ser discutido”, reclamou ele, em nota distribuída na sexta-feira. “Eu gostaria de dizer em público as verdades que pus em ata, mas correria o risco de sofrer retaliações, como já sofri no passado”, completou.

Segundo Sinedino, o vazamento da informação deixou constrangido o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que ainda preside o Conselho de Administração e vinha cobrando sigilo a outros membros da mesa após vazamentos à imprensa sobre questões deliberadas em reuniões anteriores. Ele informou que sugeriu ao Conselho a análise de uma lista tríplice apresentada pelos empregados, pleito que vem sendo defendido pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), à qual é ligado, e que votou contra o nome de Bendine — assim como os representantes dos minoritários.

Representante dos trabalhadores no Conselho de Administração desde 2012, ele adiantou que terá apenas três reuniões pela frente antes de deixar a vaga, em abril — a próxima será realizada no dia 27 de fevereiro e espera-se que avalie o balanço com a contabilização das perdas da corrupção. Nas eleições concluídas ontem, que contou com a participação de apenas 12,2 mil dos 86,1 mil empregados da companhia, Bacelar teve 57,83% dos votos.

A eleição de Bacelar trouxe à tona um racha entre as entidades que representam os trabalhadores da Petrobras. O novo membro do conselho é ligado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), criticada ontem por Sinedino por um suposto alinhamento ao governo federal. “Insisto que meu sucessor se coloque de maneira menos subordinada ao governo, se é que a FUP consegue fazer isso, já que todo mundo tem uma boquinha dentro da Petrobras”, acusou.

O coordenador da FUP, José Maria Rangel, minimizou as acusações, classificando a fala de Sinedino como “choro de perdedor”. A FUP, que congrega hoje 14 sindicatos representando mais de 150 mil trabalhadores, é ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), também mais alinhada ao governo federal. Nos últimos anos, vinha perdendo apoio entre lideranças mais radicais do movimento sindical da categoria, que se uniu na Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).

Bacelar é o terceiro empregado da Petrobras eleito para representar os trabalhadores no Conselho de Administração — antes dele, estiveram no cargo o próprio Rangel e Sinedino, por dois mandatos. Segundo a Petrobras, 138 candidatos concorreram à vaga nas eleições concluídas no domingo. Seu nome deve ser avalizado por assembleia de acionistas, em encontro que deverá ainda votar as mudanças propostas pelo governo para seus representantes no conselho — hoje, além de Mantega, a ex-ministra Miriam Belchior mantém sua vaga, e o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Marcio Zimmermann.

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