Por bruno.dutra

Rio - Com pequenas cargas, entre 30 milhões e 40 milhões de litros por navio, distribuidoras de combustíveis começam a aproveitar as oportunidades geradas pelos altos preços da gasolina e do diesel no Brasil para trazer produtos mais baratos do exterior. Segundo fontes do setor, as importações têm como destino prioritário o mercado de São Paulo, o maior e mais competitivo do país. Na avaliação da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a competição com a Petrobras tende a aumentar este ano, caso os preços internos da gasolina e do diesel se mantenham mais caros do que as cotações internacionais.

“Há outros agentes (além da Petrobras) fazendo importações significativas de combustíveis neste momento”, disse ontem o superintendente de Abastecimento da ANP, Aurélio Amaral, em seminário sobre o desempenho do mercado de combustíveis em 2014. No ano passado, disse ele, a agência emitiu 21 autorizações de importação e exportação de combustíveis a mais do que em 2013. A partir de junho, quando atingiu o pico de US$ 115 por barril, o preço do petróleo iniciou uma trajetória de queda intensa, chegando a ser cotado na casa dos US$ 40 por barril, sem redução correspondente nos preços internos.

Pelo contrário, em novembro a Petrobras elevou os preços da gasolina e do diesel em 3% e 5%, respectivamente. “O que movimenta o mercado é o preço”, resumiu Amaral, evitando informar nomes das empresas importadoras. Segundo uma fonte, as distribuidoras têm aproveitado as baixas cotações no exterior para defender seus mercados em São Paulo, onde já existe uma tradição de importação de correntes de petróleo para produção de gasolina a custos mais baixos. “É um mercado muito competitivo, que já opera com margens menores e hoje é atacado por produtos mais baratos do que os vendidos pela Petrobras”, diz o especialista.

Segundo cálculos de analistas, os preços da gasolina e do diesel no Brasil estão entre 40% e 60% superiores às cotações praticadas no mercado internacional. A Petrobras já anunciou que pretende manter os valores atuais, em estratégia para reforçar a geração de caixa enquanto enfrenta restrições para contratação de novas dívidas. Em sua última entrevista como presidente da estatal, Graça Foster reconheceu que a política poderia abrir espaço para outros importadores, mas disse que o benefício financeiro é mais importante.

No ano passado, segundo dados divulgados ontem pela ANP, o mercado brasileiro de combustíveis cresceu 5,28%, com destaque para os combustíveis automotivos (gasolina e etanol), que registraram alta de 7,85%. O aumento da mistura de etanol anidro à gasolina, de 20% para 25%. A melhora nas vendas do combustível derivado da cana-de-açúcar (aumento de 10,54% com relação ao ano anterior) garantiu um alívio à balança comercial de gasolina: o déficit do produto caiu 28,16%, para 1,8 bilhão de litros.

Já o déficit nas compras de diesel se manteve em alta, apesar da desaceleração econômica: foram 10,8 bilhões de litros, volume 9,73% superior ao registrado em 2013. Parte desse aumento é fruto da geração de energia por termelétricas, que ficaram ligadas durante quase todo o ano. A estratégia do governo para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas também provocou alta nas vendas de óleo combustível, de 24,14% com relação a 2013. Nesse caso, porém, o Brasil é exportador.

Amaral afirmou que a tendência é que o mercado se mantenha aquecido em 2015. “Pelos próximos dois ou três anos, o cenário é de expansão”, comentou. Para especialistas, porém, o déficit na balança comercial do setor, por outro lado, deve apresentar queda, com a entrada em operação da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o aumento da mistura de etanol na gasolina para 27% — que deve começar a vigorar em março, segundo conversas entre o governo e a indústria sucroalcooleira.

Presente ao seminário da ANP, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) sugeriu incentivo ao uso de biodiesel em volumes além do obrigatório (hoje em 7% do diesel vendido nas bombas) nos estados mais distantes das refinarias, como medida para contribuir com a redução do déficit comercial.

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