Por monica.lima

São Paulo - O Rio de Janeiro comemora 450 anos em meio à expectativa sobre quais legados da Copa do Mundo, Olimpíadas e pré-sal serão permanentes. Entre anúncios bilionários de investimentos e planos de revitalização, sobram dúvidas sobre a retomada sustentável da economia do principal cartão-postal do país. Para o professor de Economia Política da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ Mauro Osório, coordenador do Observatório do Estado do Rio de Janeiro, o caminho trilhado até aqui não assegura a entrada em um círculo econômico virtuoso.

“Houve avanços, mas ainda não vejo a consolidação de um novo momento para o Rio, seja a cidade ou o estado. Para atrair empresas, são necessários investimentos em infraestrutura e governança”, diz Osório, que aborda o tema na próxima edição da revista “Conjuntura Econômica”, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre).

Para ele, o salto do Rio depende de uma ruptura de padrões que leve a capital fluminense a buscar mais planejamento, transparência e, principalmente, um projeto integrado entre região metropolitana e estado. Nesse caminho ele cita a criação, pelo governo do estado, da Câmara Metropolitana de Integração Governamental do Rio de Janeiro para a promoção de políticas urbanas.

Outro avanço, diz, foi a construção do Arco Metropolitano. Orçada em R$ 1,9 bilhão, a obra liga o Porto de Itaguaí até o acesso à BR-040 (Rio-Minas), em Duque de Caxias. Quando finalizada, trará benefícios não apenas ao trânsito, mas também para a economia fluminense. Segundo estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), a abertura da primeira parte da via, inaugurada em julho do ano passado, deve alavancar o PIB do estado em R$ 1,8 bilhão: cerca de 0,4% do atual.

Ainda assim, Osório destaca a necessidade de se planejar o entorno do Arco. “Nossa região metropolitana tem uma vantagem, que é a quantidade de área verde e terreno livre. Porém, se não houver um zoneamento urbano no entorno do Arco, rapidamente correremos o risco de ter de lidar com o problema de ocupações desordenadas.”

Investimento recorde, avanços nem tanto

Estudo da Firjan aponta que entre 2014 e 2016 o estado do Rio deve receber R$ 235,6 bilhões em investimentos. A capital vai concentrar 16,1% do total, ou R$ 37,8 bilhões. Segundo a Firjan R$ 9,9 bilhões serão exclusivamente da capital em instalações para os Jogos Olímpicos. Incluindo gastos como melhorias em aeroportos, mobilidade urbana e hotéis a cifra sobe para R$ 22,6 bilhões.

Apesar desse volume recorde de investimento, o professor da UFRJ afirma que a cidade precisa se desvencilhar de uma herança ingrata que a persegue desde que perdeu o status de capital do país, em 1960, quando passou a crescer abaixo da média nacional.

“Desde então, não conseguimos construir uma estratégia sólida para nossa economia, que girava em torno da demanda da capital nacional. Demoramos a nos libertar dessa dependência, já que muitos apostavam no fracasso de Brasília”, diz Osório.

Como exemplo ele aponta a falta de dinamismo que impede o Rio de aumentar sua participação no ICMS arrecadado pela Região Sudeste. “Em 2004 Minas Gerais nos passou em termos de receita de ICMS e até hoje não conseguimos retomar essa posição”, diz.

Para dar mais dinamismo à economia carioca, Osório defende estímulo a cadeias além do petróleo e gás. Uma das opções, diz, é a área da saúde, aproveitando a significativa concentração já existente, de 12% da indústria farmacêutica nacional, e uma área de pesquisa bem desenvolvida com polos como o da Fiocruz. “Saúde e defesa são segmentos em que temos potencial e que geram transferência e desenvolvimento tecnológico.”

“Temos uma janela de oportunidade de fazer a bifurcação no sentido oposto à ocorrida em 1960, mas ainda há correções a fazer para engatilhar o estado nesse trilho, e isso não ocorrerá sem ampliarmos o pensamento sobre o Rio”, conclui Osório.

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