Por bruno.dutra

O que o senhor destaca nesses quatro anos de gestão?

Nós conseguimos readequar a estrutura da empresa, com investimentos importantes nas áreas de infraestrutura e tecnologia. E também no que diz respeito a pessoal, pois tínhamos um déficit muito grande. Eram 107.500 trabalhadores na época e, hoje, temos 120 mil.

Como está a situação financeira dos Correios?

Estamos em um período de muita dificuldade, em que estamos operando no equilíbrio, gerando resultados bem pequenos. Em 2013, o último que temos disponível, nós demos R$ 320 milhões de lucro, e o ano de 2014 vai ficar menor do que isso, algo muito apertado. A nossa margem tem diminuído muito. Nós passamos dois anos sem reajustes de tarifas. E, no ano passado, quando foi dado reajuste pelo Ministério da Fazenda, veio equivalente somente a um ano. Isso também acaba prejudicando nosso resultado.

As tarifas estão defasadas? Há negociação para reajustá-las?

Nós aprovamos na última quinta-feira, no Conselho de Administração, um pedido de revisão tarifária. Estamos pedindo um realinhamento de 9,3%, que leva em conta o Índice de Serviços Postais. O último reajuste, em junho do ano passado, só utilizou até maio de 2013. Então, estamos pedindo o realinhamento de maio de 2013 até dezembro de 2014. Vão ser quase dois anos, porque com toda a tramitação, se for super rápida — e nós vamos fazer pressão para que seja — na melhor das hipóteses, o reajuste passa a valer só em abril.

Como está a disputa do Sedex com a DHL?

É grande. Os Correios, hoje em dia, são uma empresa muito interessante do ponto de vista da competição. Pouco mais da metade de nossa receita, coisa de 52%, 53%, é do famoso monopólio postal: carta, telegrama, cartão postal, documentos pessoais. Já foram 100%. A outra fatia é de mercados concorrenciais: banco, encomendas em geral, comércio eletrônico, etc. E a disputa é muito interessante. Nas grandes cidades brasileiras, temos grandes internacionais, como Fedex e DHL; e grandes brasileiras, como Braspress, Braslog. As empresas de aviação não entregam em casa, mas também disputam conosco. Há ainda as empresas pequenas, quase individuais. O cara tem dez motocicletas no Rio ou em São Paulo e faz o serviço de entrega nos bairros da cidade. A concorrência é enorme. As multinacionais estão investindo no Brasil e começaram a crescer. A Fedex está com uma estrutura grande, comprando algumas empresas brasileiras. Mas, nos últimos quatro anos, investimos em torno de R$ 1,6 bilhão em melhoria de infraestrutura e rede de tecnologia. Isso foi um avanço, abrimos e reformamos mais de 700 centros de tratamento no Brasil.

Esse investimento também tem a ver com os complexos operacionais, que sendo reformados e construídos?

Isso mesmo. Passamos a usar modalidades de construção sob medida para alugarmos os espaços. Nós já inauguramos dois centros no Estado de São Paulo, um em Cajamar, e outro ao lado de Viracopos, em Campinas. Temos projetos para o Rio de Janeiro, mas não conseguimos deslanchar, e ainda temos projetos para reformar Benfica. Nos últimos quatro anos, a carga que passou a ser tratada em Benfica foi multiplicada por 3,5. Aumentou a quantidade e mudou a lógica do volume também.

Por que esses projetos não deslancharam aqui no Rio?

Benfica teve problemas jurídicos. O Ministério Público embargou a obra, mandou parar até que se fizesse toda a investigação de um problema com um ar condicionado comprado há mais de dez anos. E tivemos problemas de licitação também. As outras estão em processo de contratação ainda, para aumentarmos nossa capacidade produtiva no Rio de Janeiro.

Onde serão os outros complexos?

Todos em regiões metropolitanas do Rio, mas ainda não estão definidos, porque está em processo de chamamento público, de escolha da localidade. Temos regiões sendo discutidas. O chamamento se dá em caráter sigiloso, porque se falar que é dos Correios, o preço do terreno triplica. São na região do Grande Rio e as áreas a serem escolhidas têm relação com o fluxo rodoviário.

Para onde vão os demais investimentos?

No ano passado, tivemos uma arrecadação em torno de R$ 18 bilhões, com um gasto muito próximo disso, mas ainda não fechamos os números do ano. O investimento em novos produtos, automóveis, tecnologia, entre outros, foi da ordem de R$ 570 milhões, que fazem parte daqueles R$ 1,6 bilhão que já falei. Os investimentos são para essa nova fase dos Correios, que tem como um dos principais pontos a logística. Inclusive, fazendo gerenciamento de cargas e estoques para empresas que acharem que vale a pena terceirizar, para que eles cuidem apenas da fabricação e da venda do seu produto. Além disso, também queremos transformar as agências em espaços de multisserviço, aproveitando a capilaridade que temos no Brasil. Esse ano nós pretendemos começar a avançar no serviço financeiro ao lado do Banco do Brasil. Vamos começar a vender consórcios, em março ou abril, a fazer operações de seguros dentro dos Correios, em junho ou julho.

Como está o investimento em tecnologia?

Nós temos um piloto, por exemplo, de caixa de autoatendimento em Brasília, e vamos colocar no Rio e em São Paulo. Queremos avançar muito no campo da tecnologia. Temos procurado melhorar o acesso a informações por smartphone. O rastreamento já melhorou muito e, agora, estamos em um processo de ampliação, para os carteiros usarem smartphones em toda entrega de objetos, que vai facilitar enormemente, principalmente nos rastreáveis. Nós fizemos um piloto alguns anos atrás para toda a família Sedex. Os carteiros que trabalham com isso já utilizam smartphones, todo o acompanhamento dele é feito por meio eletrônico. Facilita o trabalho deles e agiliza o rastreamento para o cliente.

Sobre o investimento em Viracopos, a informação era de R$ 500 milhões até 2018. Isso permanece?

Essa é uma discussão com a administração atual, que é uma concessão, e teremos um hub, um centro de tratamento dentro do aeroporto. Está em discussão o tamanho dessa obra. Mas avançamos para ser aluguel. Alguém vai fazer a obra para eles, conforme nossas necessidades, construir doca e local para parar avião, doca do lado de fora para os caminhões, em um formato que nos interesse, como aquelas outras formas de construção sob medida, com o BPS.

Os nossos Correios estão no mesmo nível do que é hoje a ponta na área?

Nós combinamos mais com os correios tradicionalistas, mas queremos avançar para o correio diversificador de serviço, que é para isso que estamos investindo no banco, em logística. Chegamos a fazer parceria com o correio italiano, mas ele tomou a decisão de abrir capital e recuou nos investimentos externos, em setembro do ano passado. Vamos ser credenciados de alguma operadora de telefonia para vender chip na nossa rede em parceria. A gente ia ser sócio do negócio de telefonia celular virtual, agora nós seremos parceiros de alguma empresa de telefonia. Vamos ter que fazer todo o processo de novo. Essa experiência de diversificação dos serviços é internacional. O correio italiano fez isso, o português também, o japonês, que tem um grande banco. O correio alemão, então, acabou sendo o dono da DHL, tem banco... Do ponto de vista da capilaridade e da presença nacional, não devemos nada aos maiores correios do mundo. A Accenture faz a avaliação periódica sofre eficiência dos maiores correios do mundo, e fomos consideramos um dos dez melhores. Temos uma eficiência muito boa. No ano passado, de cada 100 objetos que entregamos, 93% estavam como contratado e sem nenhuma avaria. Nós queremos chegar a 95,5% ou 96%. Entregamos 38 milhões de objetos por dia. Disputamos com empresas internacionais junto ao COI para ser o operador logístico das Olimpíadas e vencemos.

Em que pé está a criação de subsidiárias?

Estamos em discussão para logística, em conversação com empresas para fazermos parcerias e ampliarmos nossa capacidade de fazer negócios mais ágeis. Estamos ainda com o que nós chamamos de serviços postais eletrônicos, que é tudo que envolve o digital, como o que chamamos de impressão de dados não idênticos, que envolve todas as contas, como extrato bancário, conta de água, luz, telefone... A ideia é prestar serviços para instituições financeiras e empresas de gás e luz, do início ao fim ao lado de outra companhia. Esse trabalho está em avaliação no Ministério da Fazenda. Quando ele autorizar, vamos começar a fazer esse serviço. Principalmente com a impressão de dados variáveis, que é a impressão das contas. O banco vai só entregar uma informação digital e toda a customização, impressão e controle vão ser feitos por essa empresa. E é uma impressão inteligente. Hoje eles imprimem em São Paulo e distribuem para o cliente lá no Acre, por exemplo. O que é do Acre será impressos no Acre. Isso baixa o custo para eles e não perdemos o cliente. Nós geraremos receita menor, mas também teremos um custo menor.

Havia uma ideia de ter uma frota própria. Esse projeto foi arquivado?

Esse projeto está em suspenso. Está em discussão com os ministérios da Fazenda e das Comunicações, para avaliar qual é o melhor formato, e se faremos na forma de parceria com participação minoritária, ou na forma de aluguel de uma frota completa. Por enquanto, segue sendo o processo que a gente faz há muito tempo de licitação de trechos específicos, de rotas pré-estabelecidas por 30 meses.

Qual é o salário médio de um carteiro inicial hoje?

Gira em torno de R$ 1.500,00, já com os 30% de periculosidade. Sem contar os benefícios, como vale-refeição e plano de saúde. Nesses quatro anos, uma coisa importante, mas que nos trouxe um problema, em especial no Rio de Janeiro, foi a regularização das agências franqueadas. Eram 1.500, hoje são mil. Quando esse projeto foi instaurado nos Correios, não existia a Lei de Licitações, então era uma concessão. Com a Lei de Licitações ocorreu a discussão prolongada com TCU e órgãos de controle. Em 2011, fizemos o processo para termos agências franqueadas licitadas, com o novo modelo.

Todas voltaram a ser licitadas?

Sim, 90%. E as novas passaram a ser licitadas. No Rio de Janeiro, 120, se não me engano, resolveram usar uma estratégia de ir para a Justiça manter a concessão do jeito que era antes. Ao fazerem isso, não disputaram a licitação, perderam na Justiça e ficamos sem conseguir substituir, o que foi muito ruim. Não conseguimos reverter esse processo no Rio, e isso tem atrapalhado, inclusive, nosso atendimento.

Há uma carência do atendimento?

Aqui no Rio, em torno de cem agências.

Como funciona essa franquia exatamente?

A pessoa física ou jurídica, ao disputar e vencer, constrói uma agência, aluga um espaço e o monta da mesma forma como se fosse uma agência dos Correios. Ela faz todo o atendimento que fazemos, menos o Banco Postal, até porque eles têm medo em relação à segurança. Mas estamos conversando com os franqueados, para ver se eles também passam a fazer Banco Postal, porque ajuda na receita deles mesmos.

O funcionário da franquia é vinculado aos Correios ou à agência franqueada?

O atendente é do franqueado. Tudo fica sob responsabilidade dele. As franquias só fazem balcão, não têm nem carteiro. Nós buscamos, no fim da tarde, toda a captação de objetos que eles fizeram ao longo do dia.

O Banco Postal está funcionando como se previa quando foi planejado?

Existem 1.200 municípios no Brasil onde a única agência bancária é o Banco Postal. Depois de uma licitação muito disputada, desde 2012, estamos com o Banco do Brasil.

Como estão sendo combatidos os problemas de segurança, com furtos de mercadorias?

Os grandes problemas de roubo a carteiros se concentram no Grande Rio, Grande São Paulo e Região Metropolitana de Campinas, principalmente na cidade de Campinas. Em Campinas, é roubo a carteiro. Nesse triângulo São Paulo, Belo Horizonte e Rio, são os roubos de caminhões.

Como será o novo modelo de contratação de funcionários?

Vai ser por concurso, mas que terá validade de 12 a 60 meses, modelo já aprovado pelos órgãos de controle. Algumas universidades já vêm praticando e vamos fazer pela primeira vez. Formatamos e aprovamos na diretoria na semana retrasada. Inclusive, já foi acordado com o sindicato de Campinas, onde temos os maiores problemas. Seguimos uma norma do Governo Federal, obedecemos o básico da leis de Licitação e de Concurso Público. O concurso é transparente, a pessoa sabe que está disputando uma vaga que vai de 12 a 60 meses. Porque se ao final de um ano a empresa não precisar mais do quadro, pode romper o contrato. Para nós, é importante, porque temos demandas sazonais e temos sempre problemas com a Justiça para a contratação de mão de obra temporária. É a primeira vez que vamos fazer, começamos em Campinas, mas depois vai ser levado para o Brasil inteiro. Mas não abandonaremos os concursos nos termos tradicionais. Estamos em análise para um possível concurso nos moldes tradicionais para ainda em 2015.

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