Por douglas.nunes

Um desavisado que entrasse no metrô do Rio de Janeiro na manhã de ontem poderia pensar que a Copa do Mundo ainda não acabou. Bandeiras e camisas verde e amarelas, apitos e caras pintadas dominavam os vagões em direção à Zona Sul da cidade. "Olha a burguesa coxinha batendo panela", ironizava uma senhora a caminho do ato que, segundo a Polícia Militar reuniu 15 mil pessoas contra a presidente Dilma Rousseff na orla de Copacabana.

Na saída da estação Cantagalo, próxima à concentração dos manifestantes, o estudante Luiz Alexandre dos Santos, que veio do Mato Grosso do Sul para estudar e tentar carreira política no Rio, explicava sua indignação: "Eu não tenho dó da Dilma porque ela não tem de nós. Vim aqui para pressionar o governo. Quero impor um período de três meses para ela mudar".

No mesmo local, a engenheira Maura Bragança, de 56 anos, e seu filho tomavam café da manhã antes de seguirem para o ato. Ele vestia uma camisa azul da Seleção Brasileira. Ela, de óculos escuros, estava envolta por uma bandeira do Brasil. "Eu trouxe ele nas 'Diretas Já', e, agora, ele vem comigo porque a corrupção está aí de novo", comentou. Gabriel, estudante de medicina de 25 anos, não quis revelar o sobrenome à reportagem. "Vocês são da área de humanas, muito ligada à esquerdopatia. Então, prefiro não dizer", argumentou. Em seguida, explicou o que deveria ser feito para mudar o país: "A saída é a cassação dos direitos políticos de todos que defendem pensamento marxista. As pessoas precisam ter senso crítico para entender o que acontece verdadeiramente".

A manifestação foi organizada por três grupos, cada qual com seu carro de som na orla: Vem Pra Rua, Brasil Limpo e Cariocas Direitos. Apesar da insatisfação comum, os caminhos escolhidos para a mudança variavam. Embora a maioria visse a saída em um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff, alguns enxergavam no protesto um meio para tensionar o governo e fortalecer a oposição para as eleições presidenciais de 2018.

Vestindo uma camisa da ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher, o economista Daniel Venturini, de 39 anos, afirmou estar insatisfeito com a conjuntura econômica "como uma pessoa de classe média". E comentou a pressão pelo impedimento da presidente. "Particularmente, eu apoio. Agora, o impeachment tem que vir das ruas. Não pode ser alguma coisa articulada no Congresso". Favorável à privatização da Petrobras como saída para a crise, defende que o processo seja conduzido em outro momento. "O PT fez uma privatização invertida. Mas, agora, os ativos estão depreciados. É necessário esperar que a empresa volte a se valorizar para vendê-la".

As divergências se evidenciaram quando um jovem que tinha subido numa estação de tratamento de esgoto ergueu uma faixa favorável à intervenção militar. Prontamente, a professora de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maria Beatriz David (65) o repreendeu, pedindo que abaixasse a faixa. "Ele não sabe do que está falando. Fui perseguida e exilada durante a ditadura. Só o que quero é que as instituições funcionem", explicou.

O clima de cobrança e revolta se alternava com brincadeiras. Na orla, um senhor carregava uma peça de mortadela inteira. "Isso aqui é para botar dentro do pão dos petistas que foram comprados na sexta-feira", comentou Jaci Santos (49), em alusão às manifestações organizadas por centrais sindicais e movimentos sociais ligados ao governo. Por diversas vezes, o cântico de "eu vim de graça" foi ecoado pelos manifestantes. Mas não ficou de fora o tradicional "eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor", além do hino nacional, tão presentes nos estádios que receberam jogos da Seleção na Copa do Mundo.

Atrás de uma faixa que dizia "Army, Navy and Air Force, please save us once again of comunism" (em tradução livre, "Exército, Marinha e Força Aérea, por favor nos salvem outra vez do comunismo"), o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) se desdobrava para atender a todos os pedidos de "selfies" dos manifestantes. "Na última quinta-feira, protocolei o pedido de impeachment, e o Eduardo (Cunha, presidente da Câmara dos Deputados) vai decidir se coloca na pauta ou se arquiva. Mas, como dizia Ulysses (Guimarães), 'se o povo quer, a casa vota', afirmou.

Uma das principais mobilizadoras do movimento nas redes sociais, Isabella Trevisani tem no parlamentar do Partido Progressista sua "principal referência política no mundo". A estudante de curso pré-vestibular veio de São Paulo, no dia 2 deste mês, para ajudar na articulação do ato no Rio. "Esse governo quer trazer o 'sociocomunismo', tem ligação com Fidel Castro e Chávez (ex-presidente venezuelano, morto em 2013). Antigamente, a gente comprava muito mais no mercado com uma nota", diz a ativista, aos 18 anos. "Meu avô sempre fala que comprava Kinder Ovo com R$ 1. Hoje, custa quanto? R$ 3,50?", completa.

Com as mãos na cintura, de sunga, após um banho de mar, o professor de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro Max Sant'Anna, de 65 anos, observava da areia a movimentação. "Todo mundo é contra a corrupção. Mas as coisas estão sendo apuradas, e é preciso respeitar a presidente eleita de forma democrática. Não defendo a Dilma, mas a figura que ela representa. Isso me cheira a golpe mascarado", avaliou.

Com supervisão de Fabio Nascimento

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