Por bruno.dutra

São Paulo - A onda de manifestações contra o governo Dilma parece ter arrefecido. Na mobilização deste domingo, as passeatas promovidas por grupos como o Movimento Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre reuniram 450 mil manifestantes em 24 estados e no Distrito Federal, segundo dados da Polícia Militar - número bem inferior ao registrado no dia 15 de março, quando as passeatas que pediam o impeachment de Dilma e o fim da corrupção reuniram cerca de 2 milhões de pessoas.

Segundo o sociólogo Wagner Iglesias, professor da Universidade de São Paulo (USP), já era esperado uma queda no número de adesões nos protestos. “O próprio perfil dos manifestantes apontava para essa tendência. São pessoas mais velhas e de uma classe social pouco habituada à intensa participação na vida política do país”, explicou, comparando com o movimento de greve dos professores de São Paulo que reuniu um número crescente de manifestantes ao longo da semana passada.

De acordo com Iglesias, os organizadores do evento demonstram ter grande força em São Paulo e Rio de Janeiro, mas pouco influência em outros estados. “As lideranças da oposição se sentem constrangidas a abraçar esses movimentos. Isso porque há grupos que pedem a intervenção militar e ter a imagem política associada ao pedido de volta da ditadura é uma grande queimação de filme, como ocorreu com o senador tucano Aloysio Nunes, fotografado em março entre esses manifestantes. Em segundo lugar, é uma saia justa para Aécio Neves que pode ser taxado como mau perdedor ao pedir o impeachment de Dilma”, diz.

Segundo o sociólogo, é esperado um aumento das adesões às manifestações das centrais sindicais e os movimentos sociais contra o PL 4330, que regulamente as terceirizações no país, marcada para o próximo dia 15. “Os protestos feitos no dia da votação foram muito tímidos, tanto que o próprio relator da projeto, o deputado Arthur Maia (SD/BA), disse que tinha dado risada do fracasso do movimento. Mas na ocasião o tema das terceirizações não estava na agenda de discussões da sociedade. Agora que entrou no centro do debate e que está ficando claro que vai mexer com o bolso do trabalhador, é possível que o número de manifestantes aumente consideravelmente”, analisa. A manifestação do próximo dia 15 está sendo organizadas pela CUT e outras centrais sindicais que se opõem ao PL 4330 e contará com o apoio de movimentos como UNE e MST.

São Paulo, mais um vez, foi a cidade brasileira que reuniu o maior número de manifestantes ontem. Segundo dados preliminares da Polícia Militar, cerca de 275 mil pessoas se reuniram na Avenida Paulista, vestidas nas cores da bandeira do Brasil. A segunda cidade com o maior número de manifestantes foi Brasília, com 25 mil pessoas, seguida pelo Rio de Janeiro, que reuniu 10 mil. No Nordeste o número de adesões foi baixo. Em Sergipe, segundo a PM, o protesto tinha cerca de 350 pessoas, em Natal pouco menos de uma centena, em Fortaleza menos de 500. Em Salvador foram registrados 4 mil, em Recife 8 mil e em Maceió 10 mil, segundo os organizadores.

Para Wagner Iglesias as manifestações foram positivas sob alguns aspectos. “Finalmente vai ficando explícita a sua principal motivação: são protestos anti-governo, muito mais do que contra a corrupção, como tentava-se vender até há pouco. A maioria dos cartazes exibidos nas imagens da TV país afora era contra Dilma, contra o PT, contra Lula, contra Dias Tóffoli e contra programas do governo, como o Mais Médicos, o Bolsa Família e as cotas para negros nas universidade. Além de pedirem o impeachment da presidenta, houve até faixa contra a CNBB, acusando nossos bispos católicos de serem bolivarianos.

Já menções a outros partidos ou a políticos da oposição foram raras”, avalia Iglesias, mencionando que o fôlego dos protestos pode diminuir ainda mais daqui para frente já que, segundo pesquisa do Datafolha divulgada no sábado, o índice de popularidade da presidente parou de cair, diminuindo o número de pessoas que considera seu governo ruim ou péssimo.

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