Sem Angra, Petrobras pode fazer transferência de petróleo no Uruguai

Revogação da licença ambiental para operações ship to ship em Angra, após vazamento, agrava gargalos na logística de petróleo no Brasil. País vizinho já é usado como alternativa por petroleiras privadas

Por O Dia

Rio - A revogação definitiva da licença ambiental para a transferência de petróleo entre navios na Baía da Ilha Grande agrava os gargalos logísticos para a exportação da produção do pré-sal. A Petrobras ainda não informou qual alternativa será usada, mas especialistas acreditam que parte das operações será transferida para o Uruguai, que já é usado por empresas privadas de petróleo que atuam no Brasil, como a BG. A construção de um terminal oceânico de transferência, um dos principais projetos logísticos do setor, está atrasada por falta de licença ambiental.

O fim das operações de transferência entre navios (chamada de ship to ship) foi decidida pelo Instituto Estadual de Ambiente (Inea) no final da semana passada, após vazamento de pelo menos 800 litros de petróleo na Baía de Ilha Grande. O ship to ship vinha sendo usado pela estatal como uma alternativa à restrição de berços de atracação nos terminais da empresa na região Sudeste — os projetos de expansão dos dois principais terminais, em Angra dos Reis (RJ) e em São Sebastião (SP) foram vetados por órgãos ambientais.

Neste tipo de operação, um navio aliviador, responsável por trazer o óleo das plataformas, transfere a carga para um navio tanque, que transporta o petróleo para exportação. O modelo é usado porque, com mais tecnologia embarcada, os navios aliviadores têm custo de operação maior do que o cobrado pelos navios tanques: a diária dos primeiros sai, em média a US$ 50 mil; nos petroleiros comuns, custa US$ 35 mil. Além de Angra dos Reis, a Petrobras vem realizando algumas operações no litoral capixaba, em menor escala. 

Em janeiro, a estatal divulgou nota comemorando a 225ª operação ship to ship na Baía de Ilha Grande. “Esta alternativa representa uma solução logística que possibilita flexibilidade operacional, otimização de ativos, com resultado financeiro elevado, além de apresentar índice de segurança operacional reconhecido pelas autoridades internacionais”, disse a empresa, na ocasião.

Ontem, procurada pelo Brasil Econômico, a Petrobras informou que atenderá à determinação do Inea e que as operações passarão a ser feitas em outros locais — sem especificar quais. “Os impactos nos custos operacionais da Petrobras estão sendo analisados”, comentou a companhia. Se optar pelo Uruguai, diz um especialista, cada operação terá um custo adicional de, pelo menos, US$ 200 mil, correspondentes à diária pelos quatro dias a mais de viagem dos navios aliviadores. “Sem contar as 40 toneladas de combustível a mais por dia”, diz a fonte.

A busca por alternativas para as operações ship to ship ilustra o tamanho do gargalo na logística de escoamento de petróleo no país. Atualmente o principal entreposto de exportação de petróleo no país, o Terminal da Baía de Ilha Grande (Tebig) foi construído em 1977, quando o país ainda era grande importador de petróleo. Com o crescimento da produção do pré-sal e, consequentemente, das exportações, a busca por soluções se tornou urgente.

A opção considerada mais econômica pela Petrobras é a Unidade Offshore de Transferência e Exportação (Uote): um petroleiro preparado para operar como um terminal oceânico, recebendo petróleo de navios aliviadores e transferindo para navios tanque. O projeto prevê a instalação do navio e das boias de atracação em águas rasas próximo à costa de Macaé, no Norte Fluminense. Segundo uma fonte, a embarcação já está pronta na China, mas ainda não iniciou a viagem ao Brasil por dificuldades no licenciamento.

“O Brasil tem gargalos tanto para o recebimento de petróleo quanto para a importação de combustíveis. Hoje, os únicos terminais com berços disponíveis estão nos portos de Suape (em Pernambuco) e Itaqui (no Maranhão)” diz o especialista Marcus D’Elia do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos). “Com a suspensão das novas refinarias, a importação de combustíveis tende a aumentar, agravando o problema”, conclui.

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