Por monica.lima

Brasília - O Banco Central (BC) deu início à reformulação do Comitê de Política Monetária (Copom) e sinalizou ao mercado ontem que, no que depender dos novos diretores aprovados ontem em sabatina pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado — o economista do setor privado Tony Volpon e o servidor Otávio Damaso — o alvo a ser perseguido para os próximos anos será entregar uma inflação que não ultrapasse o centro da meta de 4,5%, ainda que isso signifique, no curto prazo, juros mais altos e a piora do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

A mensagem foi reforçada pela declaração também ontem do presidente do BC, Alexandre Tombini, que, ao participar de seminário em São Paulo, repetiu o discurso de que o compromisso da autoridade monetária é derrubar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta ao fim de 2016, e, uma vez tendo alcançado o feito, manter os preços em até 4,5% durante os anos seguintes, o que não acontece desde 2009. Mas, se faltaram surpresas na mensagem de Tombini, o mesmo não se pode dizer de seus comandados, especialmente o novo diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon.

Único membro do Copom vindo do mercado financeiro, Volpon trocou a diretoria executiva da Nomura Securities, em Nova York, e mudou-se com esposa e dois filhos para Brasília. Quando trabalhava no mercado, era conhecido por críticas ácidas à condução da política econômica. Ele também é considerado o único hawkish — termo em inglês que descreve banqueiros centrais com postura mais dura com os juros — a integrar a nova diretoria do Copom.

Volpon demonstrou isso quando expôs aos senadores pouca tolerância com preços altos. “Eu não acredito que um pouquinho a mais de inflação seja OK”, afirmou, numa referência, ainda que indireta, ao pensamento desenvolvimentista defendido não só pela própria presidenta Dilma Rousseff, como pelos principais formuladores de sua antiga equipe econômica, como o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o então secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin. Volpon foi enfático: “A melhor coisa que podemos fazer para assegurar o maior nível de crescimento da economia é sempre ter inflação perto da meta. A farta experiência internacional nos mostra que, com inflação alta, não se chega a lugar algum”.

O economista foi além. Sugeriu que, uma vez alcançada a meta, o objetivo do BC deve ser perseguir um alvo menor, ideia que já defendia quando trabalhava no mercado financeiro: “Acredito que deveríamos trabalhar para, eventualmente, no momento adequado e na situação adequada, baixar a meta de inflação”.

Curiosamente, não é uma proposta que encontre respaldo do Palácio do Planalto. Durante a campanha eleitoral, o então candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, defendeu que o governo baixasse a meta de inflação, num futuro próximo, para 3%. Dilma rebateu: “Para ter 3% de inflação, o senhor (candidato) vai triplicar o desemprego, vai elevar a taxa de juros a 25%, porque esse é o receituário. A quem serve isso? À população é que não é”.

As dissonâncias entre o que pensa a presidenta e o novo diretor do BC foram lembradas pelos parlamentares ontem na CAE. Líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB) questionou declarações polêmicas de Volpon, quando estava na Nomura. Em entrevista ao “Correio Braziliense”, em dezembro de 2013, o economista afirmou que o BC tinha errado ao cortar juros um ano antes, num movimento conhecido como “cavalo de pau” da política monetária. “Tudo o que eu disse nessas entrevistas, foi num determinado contexto. Como analista de mercado, essa era minha função”, frisou o novo diretor do BC, com uma ressalva: “Acho que houve uma correção (de rumos) importante depois daquele momento”.

Já Otávio Damaso, servidor do BC há 17 anos, indicado para a Diretoria de Fiscalização, preferiu um tom mais ameno, e fugiu de polêmicas. “Inflação baixa é um bem inestimável para as famílias e empresas brasileiras”, declarou.

Ambos os diretores foram aprovados por placar confortável na CAE: 22 a 2. Até fechamento desta edição, ainda não havia definição da votação no plenário do Senado.

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