Por bruno.dutra

São Paulo - Apesar do anúncio feito pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, de que o governo federal prepara ainda para este ano uma nova rodada de concessões em projetos de infraestrutura, há ceticismo de que os projetos avancem. “Não existe clima para a realização de novas concessões no momento em que as grandes construtoras estão sendo investigadas”, disse ontem o analista sênior de construção pesada da agência de classificação de risco Fitch Rating, Alexandre Garcia, durante um seminário realizado pela agência. O executivo se referia às empresas que estão sendo investigadas na Operação Lava Jato por envolvimento em um esquema de corrupção na Petrobras.

Garcia reconheceu que o setor de construção civil pesada é bastante fragmentado no Brasil. Mas salientou que as empresas que não fazem parte do grupo “Top” não têm condições de substituir as grandes empreiteiras. “Em um primeiro momento, elas até podem ganhar market share, mas não têm nem expertise e nem capital que suporte períodos longos de obras como são as de infraestrutura”, afirmou o executivo.

O analista disse ainda que o dano na imagem das empresas investigadas contaminou todo o setor de construção. Desde o início do ano a Fitch colocou as empresas desse segmento em observação. Além disso, as empresas estariam com dificuldade em conseguir financiamentos de longo prazo no mercado financeiro. “Algumas empresas, inclusive, devem estar recebendo pedidos de cancelamento de contratos, o que só amplia os problemas de liquidez e formação de caixa”, explicou.

Ainda assim, ele acredita que a necessidade crescente de ampliar os projetos de infraestrutura no Brasil é um ponto que beneficia o setor. “O ponto fraco é ter como cliente principal o setor público, já que os pagamentos nesse caso tem um comportamento mais errático, quando comparado ao setor privado”, afirmou Garcia.
Ainda assim, disse, o alento é que, ao final do processo de investigação, as empresas que forem inocentadas poderão ganhar participação de mercado, assumindo vários projetos importantes.

Diretor-executivo da agência de classificação de risco, Rafael Guedes destacou que a Operação Lava Jato também tem potencial para contaminar ainda mais o já conturbado ambiente político interno.

Apesar de ajustes, Brasil segue na mira da Fitch

Guedes voltou a dizer que o desempenho econômico fraco pesou na decisão da Fitch Ratings de colocar a nota soberana BBB do Brasil em perspectiva negativa. Ele reconheceu que o governo começou a tomar medidas positivas, mas ponderou que ainda há desafios, já que os índices de confiança permanecem baixos e o ambiente econômico global ainda não está resolvido.

Segundo Guedes, uma baixa performance econômica por tempo prolongado, deterioração das reservas internacionais e piora relevante na composição da dívida poderiam levar a um rebaixamento do rating brasileiro. Por outro lado, recolocar a perspectiva brasileira na condição de “estável” seria o máximo de positivo que o país poderia conseguir. “É muito difícil de antever para o Brasil mais do que isso neste momento”, disse.

Ainda assim, seria necessário reduzir os desequilíbrios macroeconômicos e melhorar a consistência das políticas econômicas com a consolidação fiscal.
A boa notícia do seminário veio do diretor-sênior de Energia, Mauro Storino, que afastou o risco de apagão em 2015. Ele explicou que as chuvas de março, acima da média histórica, foram suficientes para uma recomposição dos reservatórios, que alcançaram 35% da capacidade, volume suficiente para garantir energia para 2015.

“Entretanto, dois fatores que ajudaram a garantir esse cenário são ruins: um é a projeção de um PIB fraco, que afeta a atividade econômica e diminui a demanda de energia. O outro é o preço da energia, que tem feito consumidores domésticos e empresariais diminuir o consumo”, analisou Storino.

O diretor da Fitch salientou que o fantasma apenas foi afastado para 2016, já que o níveis dos reservatórios continuam muito baixos. “Teremos que começar o próximo ano com vela na mão e rezando para chover”, brincou.

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