Assim como o PT, PSDB encara crise ideológica

Ligações com bancadas como a evangélica e a da bala aproximam o partido de um discurso conservador, que o distancia dos ideais de seus mais eminentes fundadores

Por O Dia

A crise ideológica que divide o PT — com contradições em relação a bandeiras histórias, como, por exemplo, na aprovação do ajuste fiscal — se repete em seu maior rival político, o PSDB. “Os dois partidos vivem situações muito parecidas. O problema não é só a questão de denúncias de corrupção, mas uma mudança em relação a posições históricas que deixam seus eleitores tradicionais ressabiados e confusos”, afirma o cientista político Wagner Iglecias, professor da USP. Para ele, esses simpatizantes do PSDB concordam com a agenda neoliberal adotada pelo partido para a economia, mas discordam frontalmente de posturas mais próximas das bancadas evangélica e da bala.

Na opinião de Iglecias, os tucanos estão sacrificando a defesa dos direitos humanos e de uma sociedade plural e democrática para se tornar um partido mais conservador em temas morais. Ele cita como exemplos o deputado federal goiano João Campos, autor de um projeto para incluir o homossexualismo entre as doenças passíveis de tratamento pelo sistema público de saúde, e a escolha do Coronel Telhada, pela bancada estadual paulista, para ser um dos representantes do partido na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.
Ex-comandante da Rota, tropa mais temida da PM do estado, Telhada foi criticado pelos próprios correligionários no ano passado por defender a separação de São Paulo do Brasil. A declaração, considerada “xenófoba” pelos tucanos, foi um protesto contra a reeleição da presidenta Dilma. Em São Paulo, ela teve menos votos no segundo turno do que o candidato do partido, Aécio Neves.

A divisão entre conservadores e históricos se repete em outros temas, como a redução da maioridade penal. A bancada do PSDB defendeu na Câmara a PEC, mas os secretários de direitos humanos da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso assinaram uma carta contra a iniciativa junto com os chefes da pasta nas gestões do PT. Entre as duas posições, o governador paulista Geraldo Alckmin propôs uma mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente para aumentar as punições máximas para adolescentes infratores de três para oito anos. “Não sou favorável à proposta, mas defendo que é algo a ser discutido”, contemporiza José Gregori, signatário da carta.

Também ministro do governo FHC, o professor e diplomata Paulo Sérgio Pinheiro não poupou críticas ao governador paranaense Beto Richa (PSDB), ao falar sobre a repressão da polícia a uma manifestação de professores. Ele chegou a chamar as justificativas de Richa, que responsabilizou os black blocs pela violência, como “conversa para boi dormir”. Signatário do manifesto contra a redução da maioridade penal, lembrou que muitos dos que defendem a proposta são financiados pela indústria das armas e que ela faz parte de um pacote de medidas conservadoras em tramitação no Congresso, como a PEC que tira do Executivo o poder de demarcar terras para indígenas e quilombolas — proposta que conta com apoios expressivos dentro da bancada tucana no Congresso.

Na questão da terceirização da mão de obra, o PSDB inicialmente ficou em dúvida e apoiou o adiamento da votação, mas ao final acabou endossando a proposta. A deputada paulista Mara Gabrilli, que é tetraplégica, foi uma das poucas vozes que continuaram contrárias ao projeto até o final. No seu entender, o texto original poderia reduzir drasticamente a cota de trabalhadores com deficiência no mercado de trabalho — permitiria que as empresas contratassem apenas com base no número de empregados contratados, e não em relação ao total. 

Para Iglecias, o PSDB de hoje contraria a tradição de líderes como os ex-governadores paulistas Mário Covas e Franco Montoro, seus fundadores. “Quando o Montoro era governador, houve um protesto em que as grades do Palácio dos Bandeirantes foram derrubadas. Ele pediu para os manifestantes formarem uma comissão e os recebeu”, compara. O cientista político afirma que o senador paulista Aloysio Nunes tem sido o interlocutor entre o partido e os grupos conservadores. “Não deixa de ser curioso que alguém que foi tão ligado ao guerrilheiro Carlos Marighela no combate à ditadura hoje pose para fotos ao lado de manifestantes favoráveis à intervenção militar”, afirma.

José Gregori discorda que o PSDB esteja abandonando a pauta dos direitos humanos. “Há posições pessoais de integrantes do partido que são contrárias, mas líderes como o presidente Fernando Henrique se mostram fiéis a esses princípios. Nenhum outro partido defende tanto isso”, garante.

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