Por monica.lima

A forte estiagem no verão do ano passado, que pegou de surpresa os brasileiros do Sudeste, não surpreende em nada os pesquisadores da Embrapa. Atentos às mudanças mundiais do clima e aos impactos sobre a produção de alimentos no país, eles concentram estudos sobre as técnicas de melhoramento genético, para sair na frente da crise hídrica e garantir que as plantas consigam produzir a mesma quantidade de nutrientes com uma quantidade mínima de água. Feijão-caupi, milho, sorgo e soja são algumas das culturas em que supergrãos, mais tolerantes à seca, estão sendo desenvolvidos e testados.

Com perspectiva de comercialização já a partir de 2018, o feijão-caupi é o que conta com os estudos mais avançados. A pesquisa, inédita no mundo, conseguiu que a cultura atingisse o desenvolvimento pleno com apenas 50% de água necessária.

“Nos últimos 8 a 10 anos, percebemos que os períodos de seca, estiagem e veranicos vêm se prolongando. Como o feijão-caupi naturalmente tem mais tolerância à seca, por ser originalmente do continente africano, optamos por fazer o melhoramento genético clássico nele”, conta o geneticista Kaesel Damasceno, pesquisador da Embrapa Meio-Norte e coordenador do estudo, iniciado em 2010.

Damasceno explica que o foco principal do projeto é promover a segurança alimentar das populações que vivem anualmente em condições de seca e que se sustentam por meio da agricultura familiar, como no Piauí e Ceará. Mas o pesquisador ressalta que as vantagens da cultura podem ser bem aproveitadas pelos produtores de soja para o período de safrinha.

“O feijão-caupi já conta com um ciclo curto de desenvolvimento, de 60 a 80 dias, e, havendo escassez de chuva, os produtores teriam a mão cultivares que se adaptariam bem”, diz.

Em Sete Lagoas, Minas Gerais, o pesquisador da unidade Embrapa Milho e Sorgo, Lauro Guimarães, faz parte do grupo de estudos que desenvolve, em campo e em laboratório, o melhoramento genético do milho, através da seleção assistida por marcadores moleculares. Uma técnica que utiliza as informações do DNA da planta, associada ao seu desempenho agronômico, que são testadas no semiárido de Minas, na cidade de Janaúba, e no semiário nordestino, em Teresina (PI).

“É importante esclarecer que não há solução para a seca. Se não chover, talvez só cactos sobreviverão. É difícil prometer um produto resistente à seca”, ressalta Lauro Guimarães. “No momento, estamos na fase de cruzamento e desenvolvimento de cultivares de milho. É possível que em 4 a 5 anos consigamos entregar para o mercado materiais com indicação de maior tolerância à seca”, prevê o pesquisador, que lembra que os estudos para tornar o sorgo mais tolerante à seca — grão da mesma família do milho , porém mais rústico — estão em igual patamar.

A grande promessa da Embrapa em termos comerciais — o melhoramento da soja por meio de transgenia — está estacionada. As pesquisas, que contaram com parceria técnico-científica e financeira do governo japonês, precisam de cerca de R$ 20 milhões para avançar ao ponto de os supergrãos serem comercializados.

No mundo, ainda não existem cultivares de soja mais tolerantes à seca sendo produzidos comercialmente.

Pesquisador da área, Alexandre Nepomuceno explica que a técnica se baseia em retirar um gene específico de uma planta modelo, a Arabidopsis thaliana — a primeira planta no mundo a ter o DNA sequenciado — e colocar na soja. 

“A troca faz com que a planta aguente mais tempo sem água. As próximas etapas da pesquisa são o cruzamento das plantas de soja com variedades adaptadas às diferentes regiões do país, e a obtenção da autorização da CTNBio (Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) para a comercializar. Processos demorados e que têm um custo estimado: R$ 20 milhões”, diz.

“Por isso, não sabemos quando estará disponível no mercado. É preciso pessoal, recursos envolvidos e parceria”, acrescenta Nepomuceno, para quem a atenção às mudanças climáticas é urgente. “Vamos ver, cada vez mais, períodos extremos, com muita chuva ou secas prolongadas. É preciso estar preparado. A engenharia genética é apenas uma das ferramentas”, observa.

Crise hídrica aumentou em 30% procura por gotejamento

Mais rápido e menos custoso que o melhoramento genético de grãos, o manejo adequado das culturas por meio de técnicas mais avançadas de irrigação podem garantir eficiência e economia de água em períodos de estresse hídrico. Engenheiro agrônomo e gerente agronômico da Netafim, empresa israelense há 20 anos no Brasil, Carlos Sanches diz que a procura pela técnica aumentou 30%, desde o início da crise hídrica. O gotejamento tem revolucionado, especialmente, a produção de arroz, onde o processo de irrigação clássico, por inundação, gera desperdício de 55% de água.

“De cada 100 litros de água aplicado por inundação, apenas 45 litros chegam à planta. No gotejamento, a eficiência chega a 95%”, diz o agrônomo, que esclarece ainda que a técnica permite também o uso controlado de fertilizantes. Além do arroz, a técnica de irrigação por gotejamento está sendo usada no café, cana, milho e soja. “Os produtores estão mais atentos a sistemas inteligentes de manejo das culturas”, diz Sanchez.

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