Em mais um movimento de pressão ao governo, PT vai propor conferência econômica

Fórum seria um projeto paralelo ao Programa Nacional de Emergência

Por O Dia

São Paulo - A direção do PT vai levar à pauta da reunião do diretório nacional no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira e sábado,  a proposta de organizar uma conferência econômica do partido. O fórum seria um projeto paralelo ao Programa Nacional de Emergência.

"O programa de emergência é para lidar com a questão imediata do problema fiscal do País. A conferência seria um encontro com espaço para um debate mais amplo sobre os rumos da economia brasileira", afirmou Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, ao Broadcast Político.

Rui Falcão, presidente do PTAgência Brasil

A fundação, que é o braço intelectual da legenda, foi chamada pela direção para auxiliar no debate econômico, com propostas para curto, médio e longo prazos. "O PMDB, que tem a Vice-Presidência, fez seu projeto 'Ponte para o Futuro', nada mais natural que o PT também contribua com diretivas sobre a política econômica", afirmou Pochmann.

O documento mencionado pelo presidente da Perseu Abramo foi apresentado no ano passado, em meio às crescentes especulações de impeachment de Dilma Rousseff. O programa peemedebista, patrocinado por Michel Temer, trouxe uma série de propostas liberais que confrontam diretamente as pautas da base sindical do PT. O documento fala, por exemplo, da flexibilização de leis trabalhistas.

Mas mais que um contraponto ao PMDB, as propostas petistas para a economia têm se mostrado opostas aos direcionamentos recentes do próprio governo Dilma Rousseff. O atrito é tal que a presidente considera não participar da festa de aniversário de 36 anos do PT na noite de sábado, a reunião do diretório. A festa para 3 mil pessoas, com bateria da Portela, é anunciada há semanas pela legenda, com a divulgação da presença de Dilma e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Oficialmente, a direção partidária e interlocutores próximos a Lula dizem que o objetivo do partido é contribuir de forma propositiva com Dilma. Na prática, o governo enfrentará pressão crescente do seu próprio partido. Pochmann reforça essa linha propositiva, mas admite que há um desconforto da legenda com as medidas de ajuste do governo Dilma, como o anúncio de contingenciamento do orçamento. O corte veio com a proposta de gatilhos caso limites de gastos não sejam cumpridos. Um deles atinge diretamente uma bandeira dos governos do PT: a suspensão do reajuste do salário mínimo acima da inflação.

"O caráter social, que é o sentido do PT, de certa maneira não tem sido parte da discussão da economia até agora", afirma Pochmann.

Propostas à esquerda

O Programa Nacional de Emergência, que também está na pauta da reunião do diretório, traz sugestões como o uso de reservas internacionais para a criação de um fundo de desenvolvimento e emprego, além de falar da "radicalização" dos mecanismos de distribuição de renda. Outros temas polêmicos que compõem o programa são a redução de taxa de juros e a recriação da CPMF. Dilma já se posicionou de forma contrária ao uso das reservas e uma intervenção maior sobre a atuação do Banco Central deixaria o mercado ainda mais desconfiado com o governo.

Já a conferência traria outros temas com olhar desenvolvimentista, como propostas para a 'reindustrialização' da economia brasileira - que suscitaria o debate da volta de incentivos fiscais -, a melhoria na qualidade de postos de trabalho no setor de serviços e formas de ampliar a discussão econômica para "além do tripé macroeconômico", como afirmou Pochmann ao argumentar que o debate precisa sair da discussão básica em torno de políticas fiscal, monetária e cambial.

"Podemos ir além, discutir como resgatar a indústria, já que o Brasil voltou a ser essencialmente uma economia de produtos primários; como aumentar a inclusão da base da pirâmide social com melhoria da qualidade dos postos de trabalho na área de serviços e também a questão da sustentabilidade ambiental", afirmou Márcio Pochmann. "A conferência pode ter o papel de organizar melhor a complexidade da situação atual do Brasil e trazer projetos para os próximos anos."

Oxigenada

O economista, de linha desenvolvimentista como a presidente Dilma, diz que a proposta discutida até aqui não inclui trazer debatedores de linha ortodoxa - para ele "neoliberal". "Seria mais dentro dessa perspectiva (desenvolvimentista). Afinal, a outra (ortodoxa) já se conhece tão bem, está tão exposta. Precisamos de uma oportunidade para dar uma 'oxigenada'."

O presidente da fundação questiona a efetividade de perseguir um superávit primário, tão cobrado pelo mercado financeiro, e cita o caso do Canadá, como um país que já determinou que terá déficit "por vários anos". Perguntado se a situação brasileira não é diferente por ser uma economia em desenvolvimento e menos estável que a canadense, Pochmann rebateu: "No ano passado o Brasil teve déficit nominal de 10% do PIB e ainda foi o quarto a receber investimentos estrangeiros diretos, alguma coisa aí não bate".

A proposta de realizar a conferência ainda depende de aprovação na reunião do diretório. Idealmente, ela seria realizada no primeiro semestre, para evitar o período mais "agitado" das eleições municipais. Pochmann se disse otimista com a aprovação da ideia. "Acho que tem convergência para se aprovar uma proposta dessa natureza, não vejo grandes obstáculos, mas posso estar enganado."

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