Por felipe.martins

Rio - Milhões de brasileiros tomaram neste domingo as ruas de 505 cidades dos 26 estados do país e do Distrito Federal para pedir o impeachment da presidente Dilma. Foi um dos maiores atos da História recente, com presença massiva de famílias e idosos vestidos de verde e amarelo. Três características marcaram os protestos: a rejeição aos políticos tradicionais, a crítica à corrupção e a exaltação do juiz Sérgio Moro, que conduz os processos da Operação Lava Jato. Faixas e bonecos faziam referência ao magistrado. No Rio, era possível comprar camisas vendidas por ambulantes com o tema ‘morobloco’.

Apito e cartaz para protestar contra a corrupção e apoiar o juiz Sérgio MoroDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Segundo o movimento Vem Pra Rua — um dos organizadores das manifestações —, cinco milhões de pessoas participaram da jornada em todo o país. Ainda que os atos também tenham sido convocados por partidos de oposição, a mobilização teve forte característica apartidária. Em São Paulo, onde o protesto superou a Diretas Já (1984), segundo o DataFolha, os manifestantes vaiaram figuras tradicionais do PSDB, como o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves (MG). No Rio, o deputado federal Indio da Costa (PSD) também foi impedido de discursar.

Na orla carioca, um milhão de manifestantes — segundo a organização — participaram de ato pacífico na Avenida Atlântica. Com a presença marcante da classe média e de celebridades, como as atrizes Suzana Vieira e Luana Piovani, os manifestantes expressavam sua revolta em clima de Carnaval.

Com direito a carro de som tocando o ‘Samba do impeachment’ e cortejo fúnebre com boneco do Lula, o público abusou do refrão “Acabou o caô, o Sérgio Moro chegou”. Nas janelas, moradores estendiam faixas de apoio ao juiz e pela “desPTização” do país.

Morador da Tijuca, o engenheiro aposentado José Fausto Alves, 65, acredita que a Lava Jato vai produzir reflexos positivos nos próximos governos. “Eu não acho que a maioria dos opositores seja honesta, mas tem que haver alguma mudança. E a ação da Polícia Federal e da Justiça vai fazer com que os próximos governantes pensem”, opinou.

Dizendo-se “tocado” com as inúmeras menções positivas em todo o país, Moro afirmou em nota que o governo deve “ouvir a voz das ruas” e se “comprometer com o combate à corrupção, cortando na própria carne”. O magistrado disse ainda que o “êxito” nas investigações deve-se ao trabalho que envolve Polícia Federal e Ministério Público Federal.

MUDANÇA NO GOVERNO

Questionados sobre a conduta política de possíveis sucessores de Dilma no caso de uma renúncia (Michel Temer e Eduardo Cunha, ambos do PMDB), manifestantes faziam coro na rejeição aos atuais políticos. No entanto, defendiam que a saída do PT seria o início de uma mudança. “Em um momento acreditei no Lula quando ele abriu as portas do Brasil para o mundo. Mas a roubalheira e o caos que o PT deixou no país são inadmissíveis”, disse o produtor César Garcez, 29.

No início do ato, um avião sobrevoou Copacabana com uma faixa onde estava escrito: “Não vai ter golpe”. A cada vez que o monomotor passava, os manifestantes vaiavam.  Embora fossem minoria, algumas pessoas pediam a intervenção militar. “Você não vê um militar rico. E no regime militar tudo funcionava”, esbravejou o consultor de telecomunicações Ronaldo Nascimento, 54.

Segundo a organização do Vem Pra Rua%2C no Rio de Janeiro%2C um milhão de manifestantes participaram de ato pacífico na Avenida Atlântica%2C com faixas e cartaz e cartazesCarlos Eduardo Cardoso / Agência O Dia

Na contramão do ato, os ciclistas João Santos, 48, e sua mulher, Angélica Mesquita, 41, criticaram a falta de proposta que reestruturasse o governo e combatesse a corrupção. “Sai a Dilma e qual será a nossa opção?”, questionou João.


Especialistas: “Há uma crise de representatividade”

A rejeição à presidente Dilma Rousseff e aos políticos tradicionais retrata a crise de representatividade atual no país, segundo especialistas. A adesão massiva ao movimento de ontem também reflete as últimas pesquisas de opinião que apontam a reprovação ao governo petista e ao ex-presidente Lula.

“Foi a maior manifestação política no país refletindo as pesquisas de opinião. Diferente dos protestos contra partidos de 2013, o ato de ontem não teve a marca juvenil. Em sua maioria, era um público com mais idade”, analisa o cientista político e professor da UFRJ, Paulo Baía.

Para o especialista, a mobilização que tomou todo o país vai acelerar a discussão pelo impeachment no Congresso Nacional, bem como a elaboração de novas medidas do governo. “Sobretudo no Senado, o impeachment volta a ser pauta com essas manifestações. Nos próximos três meses isso será discutido para valer. E, como contraponto, o governo terá que responder com uma alternativa concreta à sociedade em geral e aos próprios movimentos sociais que apoiam o PT, mas que são contra as atuais medidas econômicas de Dilma”, afirma Baía.

Economista e analista político, Wilson Diniz considera a crise institucional no país como a causa para a insatisfação. “Esse movimento é apenas um alerta do que está acontecendo no Brasil. Há uma rejeição geral a partidos, com tantos envolvimentos em escândalos de corrupção”, declara Diniz.

O analista chegou a criticar a exaltação ao juiz Sérgio Moro. “Ele é tido como herói, mas é um coadjuvante em meio às investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal”. Ex-líder dos caras-pintadas, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) atacou opositores e afirmou que a rejeição aos políticos de outros partidos revela a crise de representatividade. “A oposição e a forma como a Lava Jato é conduzida agravam a crise política e criam essa instabilidade no país. Mas a rejeição a Aécio e Alckmin mostra que o foco não é o governo. A crise é de representatividade”.

Governo analisa atos e apoia acordo

O governo Dilma se surpreendeu com o tamanho das manifestações e teme o impacto dos protestos no processo de impeachment. A ausência de confrontos, porém, foi motivo de alívio.Em conversas reservadas, interlocutores da presidente dizem que é preciso um pacto nacional, mas ainda não conseguem definir os próximos passos.

Lula na sacada de sua casaEfe

“A situação é muito difícil”, disse um ministro após reunião convocada pela presidente para analisar os protestos. “Os problemas não são poucos e matamos muitos leões por dia. Achamos que nem todos os caminhos estão interrompidos”.  Em São Bernardo (SP), o ex-presidente Lula recebeu o apoio de 400 pessoas. No Rio, cerca de 100 militantes defenderam o governo na Praça São Salvador, em Laranjeiras.

Protestos por toda a parte

São Paulo

São Paulo reuniu o maior ato do país contra o governo. Cerca de 450 mil pessoas, segundo o Datafolha, lotaram a Avenida Paulista. Regina Duarte, que já declarou seu medo do PT, também protestou. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) foram vaiados. “Estamos aqui como cidadãos, respeitando a pluralidade nessa sociedade tão múltipla e na busca daquilo que nos une, o fim desse governo”, tentou discursar o senador.

Atriz Regina Duarte participou da manifestação na capital paulistaAgência Brasil

Belo Horizonte

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), passou rapidamente pela Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde ocorreu o ato contra o governo. O parlamentar tucano cumprimentou correligionários, não discursou e seguiu para São Paulo. O protesto na capital mineira reuniu cerca de 30 mil pessoas, número superior aos 25 mil registrados nos protestos pelo impeachment em março do ano passado.

Brasília

A manifestação em Brasília terminou com o público cantando o Hino Nacional na Esplanada dos Ministérios. Ao final do hino, os manifestantes gritaram: “Fora, PT”. Segundo a Polícia Militar, cerca de 100 mil pessoas participaram da manifestação. Não houve ocorrência de atos violentos durante o protesto. O percurso dos manifestantes começou no Museu da República e foi até o Congresso Nacional, em um total de dois quilômetros.

Recife

No Recife, a manifestação percorreu mais de sete quilômetros da praia de Boa Viagem e mobilizou mais de 150 mil pessoas, segundo os organizadores. O ato aconteceu sem confrontos diretos e contou com a presença de muitas crianças. Alguns manifestantes apelaram para frases preconceituosos, como o caso de um grupo que carregava uma faixa “Balança que essa quenga cai”. O material causou a irritação de participantes do protesto.

Salvador

As manifestações em Salvador não atraíram um multidão de baianos. De acordo com a Polícia Militar, cerca de 20 mil pessoas participaram do protesto — o número é três vezes maior do que o registrado na última passeata pelo impeachment.

O ato de domingo ocorreu na região do Farol da Barra e não houve registros de confrontos. Os manifestantes gritavam palavras de ordem como “Fora Lula”, “Fora Dilma” e “Fora PT”.

Londres

Foram registrados protestos contra o governo até no exterior. Nos Estados Unidos, integrantes da comunidade brasileira foram para as ruas em Nova York, Miami e Washington. Em Londres, na Inglaterra, cerca de 50 pessoas ocuparam a frente da Embaixada do Brasil com gritos de “Lula na cadeia” e “Fora Dilma”. “O Brasil está cansado de tanta corrupção”, dizia Mariza Palma Gomes, paulista que mora há 15 anos na capital britânica.

Em Londres%2C na Inglaterra%2C cerca de 50 pessoas ocuparam a frente da Embaixada do Brasil com gritos de “Lula na cadeia” e “Fora Dilma”Reprodução

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