Temer, o vice que escreveu carta para Dilma pedindo atenção, chega ao poder

O terror do novo presidente hoje atende por dois nomes: crise econômica e relação com o Congresso

Por O Dia

Brasília - Michel Miguel Elias Temer Lulia, 75 anos, escreve poesias nas noites de solidão. Seu último livro chama-se ‘Anônima Intimidade’ e oferece versos um tanto quanto proféticos sobre o país que desde hoje passa a ser comandado pelo poeta e professor de Direito Constitucional. “Embarquei na tua nau. Sem rumo. Eu e tu”, registra Temer no poema Embarque.

A nau de Temer não navegará em mar tranquilo. Ainda ontem, ele enfrentou turbulências. Os assessores do novo presidente chegaram a anunciar que o deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG) seria o ministro da Defesa. Os militares não gostaram. Acharam o neto do ex-governador de Minas, Newton Cardoso, muito jovem para dialogar com generais, brigadeiros e almirantes. Temer cedeu e entregou a pasta para o deputado Raul Jungmann (PPS-PE).

Temer assume nesta quinta-feira a Presidência da RepúblicaRomério Cunha / VPR

O ministério Temer nasce com a pretensão de obedecer princípios de austeridade defendidos por Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central do governo Lula e agora todo-poderoso ministro da Fazenda. Meirelles chefiará também a Previdência Social e promete medidas polêmicas, como igualar a idade da aposentadoria de homens e mulheres.

Convicto de que o sucesso — ou do fracasso do governo — depende de amenizar a crise econômica, Meirelles mandou cortar gastos públicos. Temer obedeceu e enxugou os ministérios. Cortou dez. Entre eles, o da Cultura que foi fundido com a Educação e entregue para o deputado pernambucano Mendonça Filho, do DEM.

Também foram eliminadas as secretarias dos Direitos Humanos, das Mulheres e da Igualdade Racial. Agora estão todas sob o guarda-chuva do novo Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos. O titular é Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública do governo de São Paulo na gestão do tucano Geraldo Alckmin. Mais do que as novas atribuições do ministério, Moraes terá sob seu comando a Polícia Federal. É um advogado experiente que transita tanto pelo PSDB quanto pelo PMDB. Em 2014, advogou para o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O presidente afastado da Câmara, aliás, foi um dos defensores do nome de Alexandre no ministério.

Arte mostra os homens fortes do novo governo de Michel TemerArte O Dia

Descrito pelo jornal ‘Financial Times’ como um político de “aparência ligeiramente gótica e que, a despeito da expressão impassível, tem uma vida pessoal um pouco picante”, Temer está no terceiro casamento. Sua mulher é a ex-modelo Marcela, quatro décadas mais jovem que o marido, classificado por ela de extremamente charmoso, mas apelidado de “mordomo da casa do terror”, por Antonio Carlos Magalhães, o ardiloso ex-governador da Bahia, morto em 2007.

O terror de Temer hoje atende por dois nomes: crise econômica e relação com o Congresso. Os dois estão interligados. Para amenizar a carestia, reduzir o desemprego e retomar o crescimento, o novo governo precisa do apoio dos parlamentares. Para isso, Temer tem conversado pessoalmente com um velho desafeto, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado. Em pauta, o assunto mais urgente é a revisão da meta fiscal para um déficit de R$ 96 bilhões.

“Se a revisão da meta não for definida até o dia 22 no Congresso, o déficit implicará em paralisações do governo”, explica o senador Romero Jucá, agora ministro do Planejamento, e que, na noite de ontem, foi até o Ministério da Fazenda conversar com o ainda ministro Nelson Barbosa. A ideia era aparar arestas com petistas e realizar o que Temer tem chamado de pacificação.

“Não se faz política com o fígado. A raiva precisa acabar”, filosofa Temer, autor de versos e cartas — uma delas endereçada à Dilma em dezembro passado. No texto, ele reclamava de ser tratado como peça de decoração. Agora, ele é a peça-chave. 

Novo comandante quer união para superar crise econômica

A intenção de unir o país e amenizar o clima de Fla-Flu político será um dos temas do discurso de hoje do novo presidente em exercício Michel Temer. Ele empossará os ministros durante a tarde e fará uma reunião com toda a equipe. Há a promessa de que o encontro será transmitido pela TV e que depois haverá uma coletiva de imprensa do ministro da Fazenda, Henrique Meirellles, e um pronunciamento de Temer.

O texto do discurso foi preparado por Meirelles nas útlimas semanas. Os principais pontos serão a união nacional e a crise econômica. O senador José Serra (PSDB-SP), agora ministro das Relações Exteriores com poderes ampliados para área do comércio externo, também aconselhou o presidente no capítulo da pacificação do país. 

Entre os nomes do novo governo está o de José SerraArte O Dia

Na prática, três experientes articuladores políticos, ex-ministros nos governos petistas cuidarão do tema:Geddel Vieira Lima, titular da Secretaria de Governo, Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil, e Wellington Moreira Franco, secretário-especial do gabinete presidencial. Outra ponte com o passado petista será de responsabilidade do carioca e deputado Leonardo Picciani, hoje ministro do Esporte, e um dos últimos peemedebistas a defender o governo Dilma.

Para melhorar as relações com os parlamentares, Michel Temer estuda ir ao Congresso e apresentar pessoalmente as prioridades do seu governo. O presidente planeja levar aos parlamentares um conjunto de projetos de lei e pedir ajuda para aprovação das propostas que, segundo Temer, seriam fundamentais para tirar o país da crise econômica.

Não haverá cerimônia de posse de Temer. Ele chegará ao Palácio do Planalto no meio da tarde de hoje. Fará uma cerimônia discreta de posse dos ministos e logo começa a trabalhar. “Temos muito trabalho pela frente”, resume o ministro Romero Jucá.

Reportagem de Ana Beatriz Magno

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