Voluntário deixa Olimpíada do Rio em protesto contra veto a 'fora, Temer'

Torcedores foram retirados de algumas competições, nos primeiros dias de jogos, quando levantaram cartazes e faixas contra Michel Temer

Por O Dia

Rio - Após descobrir que várias pessoas foram retiradas por agentes da Força Nacional, após protestarem contra o governo interino de Michel Temer, um voluntário decidiu abandonar a Olimpíada na tarde desse domingo. 

O estudante de jornalismo Luís Moreira, de 26 anos, postou uma foto em sua conta no Facebook, dizendo que estava largando a função. O protesto acontece após posicionamento do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do Comitê Organizador Rio 2016 de não permitir manifestações políticas nas arenas esportivas.

Luis Moreira publicou decisão%2C de deixar a Olimpíada%2C no Facebook%2C na noite desse domingoReprodução / Facebook

Ao DIA, Moreira disse que decidiu tomar essa atitude após ver um vídeo em que agentes retiravam torcedores que manifestavam contra o governo do presidente interino. "Fiz isso depois de ver um vídeo em que a Força Nacional retira uma família inteira — que manifestava pacificamente contra o Temer", afirma o rapaz.

Segundo ele, para não sofrer um constrangimento, de retirar pessoas que vissem a protestar contra o governo federal, ele resolveu "abrir mão" do voluntariado. "Eu estudo Comunicação Social. Eu aprendi que o direito a democracia é algo inviolável. A liberdade de expressão é fundamental", finaliza.

Nos últimos dias, torcedores foram retirados, a força, por agentes da Força nacional de algumas competições nesses dois primeiros dias de Jogos quando levantaram cartazes e faixas de "fora, Temer".

O jovem contou que chegou a ligar para o Comitê Rio 2016 para devolver o kit -- com roupas e o crachá -- no entanto, segundo ele, a organização do evento não respondeu seus contatos.

Em BH%2C grupo que vestia camisetas com letras formando 'Fora%2C Temer' foi retirado do Mineirão pela PFReprodução/Mídia Ninja

O Comitê Rio 2016 vem se amparando na lei 13.284, sancionada pela presidente afastada Dilma Rousseff, em maio, que limita a proibição de cartazes e mensagens de conteúdo ofensivo em locais de competições. No entanto, a proibição é apenas com caráter racista ou xenofóbico.

A lei proíbe a utilização de bandeiras para “outros fins que não o da manifestação festiva e amigável”. Na decisão, não há proibição a manifestações de expressão política.

Artigo 13.284Reprodução

Para o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, retirar um torcedor que se manifesta pacificamente fere o princípio constitucional que garante a liberdade de expressão no país. “Você levar uma placa ou cartaz dizendo fora quem quer que seja, pacificamente, é uma legítima manifestação da liberdade de expressão e, logo, não cabe este tipo de cerceamento”, disse o ex-presidente do STF ao portal BuzzFeed Brasil. Ainda segundo Ayres Britto, nenhum regulamento pode se sobrepor à Constituição.

Para o jurista, o direito à liberdade de expressão "independentemente de censura ou licença" é garantido pelo artigo 5º da Constituição. Apesar disto, ele ressalta que os gritos e palavras de ordem podem prejudicar as competições. "Neste caso, atrapalhar uma competição com um grito significa interferir no espaço jurídico dos competidores. Mas fora isso, a manifestação silenciosa não pode ser reprimida", destacou.

O DIA procurou o  Comitê Rio 2016 para comentar a decisão, no entanto ainda não recebemos um posicionamento. 

Veja a decisão na integra de Luís Moreira em abandonar os jogos olimpícos: 

Reportagem de Rafael Nascimento

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