Rodrigo Maia será presidente até terça-feira

Especialistas divergem sobre impeachment que cassou Dilma Rousseff

Por O Dia

Rio - Segundo na linha de sucessão, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), vai exercer interinamente a Presidência da República até a próxima terça-feira, dia 6.

Motivo: o presidente Michel Temer viajou ontem para a China, onde participa de encontro do G-20. O Planalto ficará sob o comando de Maia todas as vezes que Temer viajar para o exterior. Em setembro, Temer vai para os Estados Unidos. 

Especialistas divergem sobre impeachment

- 'Não tenho dúvidas de que é golpe' - João Ferez Júnior, cientista político - Uerj 

Doutor em Ciência Política pela Universidade de Nova York e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, João Ferez Júnior critica duramente o processo de impeachment e prevê dias sombrios para o país com a efetivação de Temer na presidência.

1. O senhor considera este processo de impeachment legítimo ou um golpe de Estado?

— Um golpe de Estado. Não tenho dúvidas em relação a isso. O conceito de golpe está fora do âmbito do Direito e dentro da Ciência Política. É possível, por exemplo, pegar uma peça, um artifício legal, e levá-la ao extremo, transformando isto numa violência política. É o que estamos vendo. A argumentação para tirar a presidenta do poder por parte da oposição é fraquíssima. É um escândalo moral e político o que estamos vivendo.

2. Por que Dilma está sendo afastada do cargo, na sua opinião?

— Por uma conjunção de fatores. Primeiro, por um defeito das nossas instituições. O Poder Judiciário e o Ministério Público, que estão isolados do voto popular e não precisam prestar contas a ninguém, se aliaram à oposição e à grande mídia contra um governo que não lhes agrada, utilizando brechas de uma Constituição que permite abusos como conduções coercitivas seletivas e vazamento de áudios da maior autoridade do país sem que absolutamente nada aconteça.

Precisamos somar a isso a crise econômica no país, claro, e a total inabilidade política da Dilma para sair desta crise e a habilidade política do (deputado afastado) Eduardo Cunha para violar todos os princípios éticos e morais possíveis, da forma mais torpe e vil possível.

3. Qual sua expectativa para o futuro próximo do país com Temer efetivado na Presidência?

— A pior possível, pois o Temer não tem e nunca teve um projeto para o país, a não ser o de recolocar no poder as pessoas que agora o apoiam. O projeto dessa turma é um só: sugar recursos públicos, retirar as políticas sociais e a conquista de direitos que foram importantíssimos para o país nos últimos anos. Viveremos nos próximos meses um triste retrocesso de anos, financiado por um Congresso reacionário e conservador onde quem dá as cartas são as bancadas ruralista, evangélica e da bala.

'Trata-se de um processo legítimo', Ricardo Ismael, cientista político - PUC 

Doutor em Ciência Política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e professor da PUC, Ricardo Ismael considera o impeachment legítimo, mas diz que o futuro com Michel Temer é imprevisível.

1. O senhor considera o processo de impeachment legítimo ou um golpe de Estado?

— Legítimo. É um processo que está sendo acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal desde o início e que segue o que a Constituição estabelece.

2. Por que Dilma está sendo afastada do cargo, na sua opinião?

— Pelo crime de responsabilidade cometido, mas não apenas por isso. Ela perdeu a base social. Foi eleita com 51% dos votos e, em março de 2015, tinha apenas 10% de aprovação. Ela caiu ao perder o apoio do Congresso devido à dificuldade de articulação política que sempre teve.

Temos de somar a isso tudo o vulto dos escândalos de corrupção na Petrobras. Claro que ela sabia de tudo. De fato, ela não tem contas na Suíça, não roubou, mas os esquemas favoreceram claramente seu governo, seus aliados e as suas campanhas.

Sem contar a crise econômica e suas decisões equivocadas nesta área. Ela não conseguia convencer nem mesmo o PT da necessidade de tomar medidas impopulares para desatar o nó criado na economia. Deu nisso.

3. Qual sua expectativa para o futuro próximo do país com Temer efetivado na presidência?

— Teremos dias difíceis. As pessoas vão conhecer Temer agora. Ele nunca foi uma liderança nacional, e sim um político de bastidores. Além disso, o país vive uma profunda crise econômica, ética e política. Não sabemos se as denúncias de corrupção vão atingi-lo e se seu governo continuará. Ele também pode ser cassado.

No entanto, diferentemente da Dilma, Temer tem o apoio dos empresários e uma certa tolerância da sociedade e construiu maioria no Congresso durante o processo de impeachment, mas esta base não é homogênea e pode rachar quando ele apresentar suas propostas de reforma.

Ainda há uma questão: ele pretende fazer um governo de transição e preparar o terreno para quem vencer as eleições de 2018 ou vai se candidatar à reeleição? Se ele optar por ser candidato em 2018, certamente não contará mais com o apoio do PSDB. E aí...

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