Por karilayn.areias

Rio - Não é preciso viajar ao Velho Mundo para caminhar mais de 500 Km em estradas de terra solitárias em busca do sagrado. Desde 2003, foi criado no Brasil, o ‘Caminho da Fé’, versão brasileira do milenar Caminho de Santigo de Compostela, na Espanha. Uma trilha de fé que tem atraído cada vez mais peregrinos no país.

“É um caminho de meditação e muita introspecção. Uns vêm para tentar refazer a vida, outros para se livrar das drogas, mas a maioria vem pela fé, em busca de um novo olhar da vida”, revela o aposentado Almiro Grings, 73 anos. Após percorrer por duas vezes o milenar caminho espanhol, ele criou junto com os amigos Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro, a rota brasileira. Desde então, mais de 30 mil pessoas já fizeram a trilha.

Sozinhos ou em grupo, a pé ou de bicicleta, os peregrinos caminham no asfalto e mais de 300 Km, em estradas de terra, no coração da Serra da Mantiqueira, em profunda comunhão com a natureza. “O Caminho de Santigo é bem mais plano, aqui é muito mais difícil e pesado por causa das ladeiras. Você vai serpenteando a Serra da Mantiqueira o tempo todo. É muito mais bonito”, garante seu Almiro.

Após escolher um ponto de partida, saindo de cidades do interior de Minas Gerais ou São Paulo (veja o mapa), os romeiros rumam em direção à Catedral de Nossa Senhora Aparecida. Durante a viagem, o caminhante carimba um tipo de passaporte em cada ponto de parada. No final, quem tiver toda a jornada registrada recebe o certificado de conclusão do caminho do Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

“Não vale chegar de avião ou de carro. O caminho é ir em busca do sagrado com sacrifício, seja o cansaço, a bolha no pé ou a noite mal dormida. É preciso controlar o seu corpo, suas paixões e prazeres para que o encontro com o sagrado realize aquilo que você busca”, explica o superintendente da Fundação Nossa Senhora Aparecida, Padre Evaldo Cesar. Para o religioso, na jornada surgem novos significados da fé. “Meu pai, de 76 anos, fez cinco vezes. Em 2015, dois companheiros que estavam com ele, morreram atropelados pelo caminhão, no acostamento. Meu pai não foi por pouco e confessou. “Filho, acho que eles estavam preparados, eu só não fui pois não estava pronto”, conta. “É uma leitura muito simples, mas de muita fé”, analisou Padre Evaldo. 

Disposição para andar e surpresas

Vencer os próprios limites ao caminhar, às vezes, mais de 40Km por dia, é um dos desafios dos peregrinos no Caminho da Fé. “É humanamente impossível fazer uma maratona por dia. É mesmo pela fé e é maravilhoso”, afirma a dentista Fernanda Ramiro, que fez o caminho acompanhada do noivo, o personal trainer Eduardo Trevisan. “Você esgota suas energias e de repente vem uma força inexplicável que te ajuda a seguir em frente. É muito especial.” Devoto de Nossa Senhora Aparecida, o gerente comercial Alceu Santos fez até música para agradecer pelas graças em sua vida. “A música chama-se ‘Promessa’. Demorei 15 anos para vir e pagar a que fiz. Esta é a terceira vez, é uma recarga espiritual.”

Dono de uma pousada no Caminho, Edson Ferreira tem aprendido muito com os romeiros. “Com 6 Kg na mochila e poucas coisas, o sujeito sai pelo caminho e vive uma experiência fantástica. A gente para de pensar nessa coisa de ter e querer. O caminho ensina.”

A nova rota de fé mudou a vida de famílias de vilarejos distantes em Luminosa e Paraisópolis (MG). “Antes do caminho, quase ninguém passava aqui. Era isolado. Agora passa muita gente. Estou num pedacinho do céu”, afirma Dona Inês, que recebe muitos romeiros em sua casa. Seu Rogério também é só alegria. “É um prazer receber as pessoas. Já recebi muitas graças. Só tenho a agradecer ao caminho.”

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