'Aqui em Vitória, o sistema caiu', diz produtor que projetou hashtag #semmedo

Rike Soares fala sobre viver na cidade vencida pelo terror e a forma surpreendente que ele encontrou para reagir

Por O Dia

Espírito Santo - ‘O que aconteceu aqui em Vitória foi uma coisa que ninguém poderia imaginar: o sistema caiu; a cidade silenciou, morreu.’ Assim o produtor Rike Soares define o clima que tomou conta da capital do Espírito Santo desde a madrugada de sábado, 4 de fevereiro. Até o momento em que o terror se abateu sobre o estado, ele, como todos os capixabas, não tinham a menor ideia do que estava no horizonte.

“Eu fazia o de sempre, estava na rua. Minha função é levar a música para as pessoas, como a do médico é levar saúde”, diz ele, que organiza eventos na Grande Vitória. De um momento para o outro, ele se viu engolfado pelo pesadelo. Na quarta-feira, à noite, ele teve a reação mais inusitada de toda a crise: saiu pelas ruas de Vitória com um sistema de som sobre o carro, alimentado por um gerador movido a gasolina, tocando em alto volume a música ‘Imagine’, de John Lennon — aquela que diz “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz” — e projetando nos prédios da cidade a hashtag #semmedo.

Filhos de Kaúlla%2C que ficaram trancados por uma semana num apartamento no Centro%2C no Espírito Santo Divulgação

A crise começou na sexta-feira, 3 de fevereiro, com o bloqueio de um destacamento em Viana. No dia seguinte, o movimento se espalhou, e batalhões em todas as grandes cidades do estado — Linhares, Colatina, Guarapari... —, além do Quartel do Comando-Geral, na capital, foram bloqueados. “Nesse dia, se ouvia alguma coisa. O clima era tenso, mas ninguém sabia o que estava acontecendo. Vitória não costuma ter um policiamento tão ostensivo, só na periferia.”

E, na periferia, já havia relatos de tiroteios e execuções, com oito mortos. Foi no domingo, quando 16 mortes foram registradas, que a situação se agravou. Os assaltos se multiplicaram. “Eu estava vivendo a minha vida. Fui com minha filha no calçadão. Até que alguém veio e me disse para ir para casa”, conta Rike.

Começava ali o cárcere privado dos moradores da Grande Vitória. Na segunda, foram noticiadas 27 mortes. Os criminosos agiam com toda a liberdade, arrombando lojas e disputando territórios. Os saques a lojas começaram. “Eu moro em um bairro boêmio,de classe média (Jardim da Penha). Tudo caiu no silêncio. O medo tomou conta de tudo”, conta Rike.

Hashtag %23semmedo projetada nos muros e árvores de VitóriaReprodução Internet

Na terça-feira, a angústia chegou ao auge. O comércio estava fechado, escolas e postos de saúde não funcionavam, o Departamento Médico-Legal não dava conta de tantos mortos. “As ruas foram tomadas por bandos com 10, 12, às vezes garotos, forçando portas de condomínios, roubando quem estivesse na rua. Foi o auge da angústia. A gente se sentia completamente sozinho, trancado. Não havia mais cidade.”

Naquela noite, o produtor decidiu que era preciso reagir. “O que você faz diante de tanto silêncio?”, pergunta Rike. “A gente buzina, tenta deixar a rua viva”, responde. Falando com outras pessoas da área cultural da cidade, surgiu a ideia do passeio com o carro de som. “A proposta foi não ficar quieto.”

Memórias do cárcere

Rike saiu com seu Ecosport na quarta-feira à noite. Os versos de John Lennon cortaram o silêncio de Vitória e foram recebidos com surpresa e aplausos, chamando a atenção de todo o país. Rike foi convidado até para participar do programa de Fátima Bernardes na TV Globo. Ficou em Vitória e marcou para ontem um evento de música, com o palco aberto para quem quisesse se apresentar. “O que a gente quer é voltar a viver”, justifica ele, que, em meio à queda de braço entre PMs e governo, diz que “não se negocia com arma na mão” e desconfia do timing da cirurgia que afastou o governador Paulo Hartung de suas funções no momento em que explodia a crise.

Kaúlla Magalhães, de 32 anos, experimentou como poucos o cárcere em que se tornou Vitória. Hospedada no local mais movimentado da capital, viu-se diante de uma cidade-fantasma. “Eu estou no Centro. Por aqui, a circulação é intensa, mas está tudo deserto há dias. Moro em Itaperuna (RJ) e não consigo ir embora porque as estradas estão perigosas. Vim passar as férias dos meus filhos de 4 e 7 anos e estamos presos em casa há uma semana. Eles perderam as aulas, e eu estou sem trabalhar. Vi da janela uma cena aterradora: seguranças botando para correr 11 bandidos que tentavam invadir as lojas. Tínhamos a ideia de morar aqui, mas desistimos”, conta.

Reportagem de Dirley Fernandes com colaboração de Maria Inez Magalhães

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