‘Quero levar o olhar do índio para a sociedade’, diz Dionedson Terena

Fotógrafo está com o trabalho exposto na II Jornada Esportiva e Cultural Indígena, em Maricá

Por O Dia

Rio - Dionedson Terena foi chamado no canto por André Liohn, quando os dois fotografavam uma aldeia. O colega de ofício explicou que ele não poderia fotografar chorando. Poucos dias antes, tinha presenciado a morte do ‘guerreiro’ Oziel Gabriel, atingido por um tipo de munição de uso exclusivo da Polícia Federal, duarnte ação de reintegração de posse. Ele compreendeu a lição e fez muitas outras fotos de indígenas assassinados no Matro Grosso do Sul. Sem chorar. “Previ que haveria mais mortes. E houve. Registrei muitas. Meu trabalho é fazer com que não sejam esquecidas”, diz o Terena. As fotos podem ser conferidas na II Jornada Esportiva e Cultural Indígena, em Maricá. 

Dionedson Terena%3A imagens fortes de crianças%2C cerimônias fúnebres%2C ritos e encontros entre as civilizações brancas e indígenas Daniel Castelo Branco/ Agência O DIA

O DIA: O que te levou à fotografia?
TERENA: Quando minha família foi para Campo Grande, meu pai ia em reunião, tentava organizar os índígenas, mas ele é mais reservado. Então, me botava na frente: “Fala”. Nesses encontros, conheci a Rede de Educação Cidadã e comecei a entender o que era ser um indígena e o que existia à minha volta. A gente debatia como os meios de comunicação tratavam a questão indígena. A gente, por exemplo, fazia reocupação de terras que sempre foram nossas e tinham sido invadidas por fazendeiros. E éramos chamados pela mídia de invasores! Isso dava muita revolta. Como a gente vai invadir uma terra que é nossa? Isso fazia a sociedade ver o índio de forma negativa. Entendi a importância da comunicação e comecei a documentar tudo. Comprei uma máquina bem simples e comecei a registrar.

Você nasceu numa aldeia, em terra indígena (Taunay-Ipegue), e se mudou para a capital , Campo Grande. Como é essa experiência de índio na cidade?
A aldeia do Bananal é numa terra com sete grupos, com pouco mais de mil indígenas morando lá. Nasci e cresci só falando língua terena. Saí de lá com 14 anos. É a idade do índio aproveitar a liberdade da aldeia, de brincar com os amigos. É o auge: banho de rio, caçadas, tudo isso... Mas meu pai reuniu os oito filhos e disse: “Temos que ir para Campo Grande em busca da sobrevivência”. Todo mundo aceitou. Mas, sofremos. A gente não sabe o que vai encontrar... Moramos num barraco forrado com lona. Um dia, a gente ganhou umas roupas. Minha mãe foi dando para os filhos. E achou um casaco com um punhadinho de dólares. A gente esperou três meses para ver se o dono aparecia. Foi quando começamos a melhorar. Compramos telha. Aí, arranjei emprego de gari. Era meu sonho, conseguir um emprego na cidade. Naquela época, me senti realizado. 

Fale da luta dos terenas, na qual você tem um papel de destaque. Como começou seu envolvimento?
Em 2009, fui convidado para ser educador social. A educação popular e a indígena tradicional é a mesma coisa: o ensino do respeito ao outro, do ouvir, a conscientização. Tudo isso tem na nossa cultura. Só não tinha organizaão entre os terenas, considerados inteligentes porque tem mais relação com o branco. Eu filmei os guarani kaiowá e mostrei para o meu povo. Eles têm o conselho deles, Atigauçu, que funciona há 30 anos. Vendo as imagens, os terenas entenderam que era importante a organização. Eu consegui marcar uma reunião, mas a Funai convenceu os caciques a não irem.
Não queriam confusão... Mas a gente tinha experiência de conversar com a comunidade. Nas aldeias, tem professor, tem jovens. Eles foram, aí os cacique tiveram que ir atrás. Em setembro de 2011, com as 38 aldeias terenas do Mato Grosso do Sul, criamos o Conselho do Povo Terena. Todos os caciques estavam presentes. Eu pensei: realizei meu sonho.

A morte do Oziel foi logo depois disso?
A questão fundiária era o que importava em todas as aldeias. Eram fazendeiros invadindo nossa terra por todos os lados. Em 2012,decidimos retomar todas as nossas terras que tinham sido ocupadas. E começamos as reocupações com nossos guerreiros. Aí, veio a morte do Oziel (Segundo o Ministério Público, o terena foi morto, em maio de 2013, com um tiro de pistola, quando estava a cem metros de onde estavam os policiais que faziam a reintegração de posse da área).

Você estava no local.
Sim. A polícia chegou atirando para matar índio. Não teve mais tragédia porque Deus ajudou. O estado parou. No Mato Grosso do Sul, temos a segunda maior população indígena do país (cerca de 73 mil de um total de 896 mil indígenas). Eles acharam que a gente ia recuar após a morte do Oziel, porque foi muito duro, uma tristeza grande em todas as aldeias. Mas aí é que nós resolvemos partir para a luta mesmo. Pegamos nossas flechas, nossos arcos... fizemos nossas reocupações, fomos para cima. Foi aí que o Estado percebeu que, com o índio não se brinca, ali nós nos libertamos depois de tanto tempo de silêncio.

Naquele momento, o ministro (José Eduardo Cardozo) esteve no Mato Grosso do Sul . Mas até hoje não há solução definitiva.
O ministro foi lá. Fizemos uma mesa. O ministro disse que o problema seria resolvido em 80 dias. Era a área onde Oziel foi assassinado (Fazenda Buriti, em Sidrolândia). Os fazendeiros não aceitaram o valor oferecido pela terra e nada foi resolvido. A gente vive ali até hoje em tensão permanente (a área tem 15 mil hectares reivindicados como terra indígena, mas os fazendeiros não concordaram com o valor oferecido como indenização pelo governo federal, que foi de R$ 80 milhões). Estou documentando todo esse processo, em foto e vídeo.

Criança índia%3A foco preferencialDIONEDSON TERENA

E para que você acha que vai servir isso tudo?
Olha, meu trabalho é levar o olhar indígena para toda a sociedade brasileira. É com essa documentação que eu tenho feito que eu cheguei a vir aqui para o Rio de Janeiro, para essa exposição na aldeia em Maricá (Tekoa, Aguy, Ovy Porã, de índios guaranis, na Fazenda São Bento da Lagoa). E tenho convites para expor em Portugal e outros lugares. Tenho imagens fortes do meu povo, do povo guarani kaiowá e de outros povos de Mato Grosso do Sul. A imagem que a televisão da minha terra passa é do índio como vagabundo, que não trabalha, que só bebe pinga. Eu quero conscientizar a sociedade — na cidade e na aldeia — sobre o que é o índio.Porque, se depender da imprensa, vamos continuar sendo discriminados.

E está conseguindo?
Uma TV local, no dia do enterro de um guerreiro nosso, levou um mandado de reintegração de posse para mostrar para os irmãos. Um dos nossos, triste, rasgou aquilo. Pusemos no Facebook e a repórter sofreu tantas críticas, de todas as aldeias e da cidade, que a repórter me pediu para tirar o post. Nós agora sabemos usar o celular a nosso favor. Nossa comunicação está melhorando.

Sem terra para índio e nem verba para a Funai

No sábado, completará um ano desde que o último hectare de terra indígena demarcado foi homologado (entre 2015 e 2016, tinham sido dez áreas). “Às vezes, perco a esperança. Agora, podem acabar com as demarcações”, lamenta Dionedson Terena.

Os riscos a que o fotógrafo se refere são reais e vem de duas frentes. A primeira é a PEC 215, que tramita no Congresso há 17 anos e que pode ser posta em pauta a qualquer momento. A proposta tem o apoio do atual ministro da Justiça. A PEC repassa ao Congresso — onde a influência da bancada ruralista é decisiva — a decisão sobre a demarcação de terras indígenas.

A segunda é a precariedade com que se debate a Funai. O orçamento para as despesas discricionárias do órgão — aquelas efetivamente utilizadas para o atendimento às comunidades indígenas — foram reduzidas de R$ 180 milhões em 2015 para R$ 107 milhões em 2017 —um corte acumulado de 59%. Em março, o governo cortou 347 cargos da fundação, o que levou ao fechamento de 51 coordenações técnicas locais — exatamente as unidades que trabalham diretamente com os índios — em todo o país.

Se depender de Osmar Serraglio, terra para índio não vai ser mesmo prioridade. Ele declarou em março que “terra não enche a barriga” em resposta a cobrança por novas demarcações. “Nós comemos o que plantamos. A terra é nossa mãe”, diz Terena, perplexo com a frase do ministro.

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