Por adriano.araujo

Rio - Recordista mundial de produção de energia elétrica, a empresa Itaipu Binacional inaugurou, na última sexta -feira, uma usina de produção de gás combustível veicular a partir de uma mistura de esgoto, restos orgânicos de restaurantes e poda de grama, em Foz do Iguaçu, no Paraná. O projeto, parceria com o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás), é o primeiro do Brasil que aproveita essa matéria-prima. Normalmente, a produção de biogás no país é feita com dejetos de animais.

O modelo passará por 20 meses de teste e poderá ser replicado em todo o Brasil com grandes vantagens ambientais, econômicas e sociais. Mensalmente, a usina pode tratar 10 toneladas de resíduos alimentares, gerados nos quatro restaurantes da área interna de Itaipu; 30 toneladas de poda de grama, provenientes dos 400 hectares de área verde da empresa; e 300 mil litros de esgoto, oriundos dos prédios administrativos.

Projeto%2C parceria com o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás)%2C é o primeiro do Brasil que aproveita esgoto%2C restos orgânico e poda de gramaDivulgação

A produção atual é de 4 mil m³ de biometano por mês, que pode abastecer 80 veículos da frota da usina. Considerando um uso médio de 800 km por veículo ao mês, só esta parte da frota vai economizar 5.650 litros de etanol. Ao custo de R$ 0,26 o m³ do biometano, contra R$ 0,36 do etanol, a economia financeira chega a R$ 15 mil todo mês. 

Como subproduto, são produzidos 300 mil litros de biofertilizante, que serão utilizados como adubo para canteiros e gramados da empresa. Mensalmente é evitada a emissão de 4 toneladas de gases causadores do efeito estufa.

"Essa tecnologia foi desenvolvida aqui e também pode ser usada na conversão dos dejetos animais para a produção de gás. Se levarmos em conta que 59% das exportações do Paraná resultam da criação bovina, suína e de aves, é de grande relevância encontrar uma solução que proteja a natureza e evite despejo desses resíduos nos rios", avaliou o diretor-geral brasileiro de Itaipu, o  engenheiro eletricista Luiz Fernando Leone Vianna, no cargo há pouco mais de dois meses.

O projeto custou menos de um terço de uma solução que seria importada da Alemanha. O custo total de implantação foi de R$ 2.160.053. O modelo pode ser levado a indústrias, cooperativas, hotéis, além de servir como política pública para as prefeituras resolverem o problema do lixo urbano e atenderem às exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos (criada pela Lei 12.305/10) de eliminar os lixões entre 2018 e 2021. 

“Queremos mostrar às prefeituras que elas podem usar os resíduos sólidos para gerar gás e este gás pode abastecer a frota do município”, ilustrou o diretor presidente do CIBiogás, Rodrigo Régis.

Segundo o diretor-geral da Itaipu Binacional, Luiz Fernando Vianna, a empresa usará seu peso institucional para incentivar prefeituras e entidades parceiras a replicarem a tecnologia. “Nós conseguimos fechar o ciclo da produção do biogás. Queremos levar aos municípios lindeiros e da Região Oeste do Paraná, em um primeiro momento, mas a tecnologia está disponível para ser aplicada em qualquer região do País”, afirmou.

Para o chefe da Assessoria de Energias Renováveis de Itaipu, Paulo Afonso Schmidt, o modelo atende a uma necessidade da hidrelétrica, mas pode facilmente ser adaptado às características de outros locais, respeitando a escala e utilizando outras matérias-primas. 

“O componente ambiental é forte, mas também devemos pensar na questão econômica. Nossos esforços são para desenvolver um projeto que seja factível com na realidade. Não tenho dúvida de que a produção do biogás é uma tendência irreversível. O biometano é cerca de 20% menos agressivo que o CO2 e resulta em menos impacto que as emissões de diesel, gasolina ou etanol”, concluiu Schmidt.

Desafios

Empossado como diretor-geral brasileiro no fim de março, após 14 anos de gestão ligada aos governos do PT, Luiz Fernando Vianna assumiu a Itaipu Binacional com dois grandes desafios no horizonte: a atualização das unidades geradoras, prevista para começar ano que vem, e a Revisão do Anexo C do  Tratado de Itaipu, documento que define as bases financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade, que acontecerá em 2023.

"Itaipu fatura  3,8 bilhões de dólares anuais, porém 62% deste valor é usado para pagar a dívida de construção da usina. O que acontecerá em 2023 é que ela estará paga e o que virá será objeto de novo acordo entre os governos do Brasil e do Paraguai", explicou o diretor-geral brasileiro.

Quanto à atualização das unidades geradoras, Luiz Fernando Vianna acredita que é necessária para manter a produção de cerca de 90 milhões de MH/h atual, que abastece mais de 70% do Paraguai e 17% do Brasil.

"Esse planejamento será definido em 90 dias e vamos parar um gerador por vez, durante quatro meses para aperfeiçoamentos tecnológicos. Há unidades geradoras funcionando há mais de 30 anos. Na verdade, 18 das 20 unidades são da década de 80 e 90. O custo será de cerca de 500 milhões de dólares e o trabalho todo deve levar cerca de 10 anos para ser concluído", detalhou Luiz Fernando Vianna.

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