O surgimento do Cartel brasileiro

Aliança com cartéis latinos fortalece PCC na fronteira e se reflete em mais drogas e armas nas cidades brasileiras

Por O Dia

Rio - A morte, em maio, de uma psicóloga que trabalhava no presídio federal de Catanduvas (PR); a apreensão de 73 fuzis, no mesmo mês, no Estado do Rio — contra 21 em maio de 2012 —; os quatro assaltos a bancos usando explosivos que aconteceram nos últimos dez dias no Rio; o ataque, numa boate de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, que deixou quatro mortos. Todos esses episódios têm em comum um único fenômeno: o crescimento exponencial das organizações criminosas no país, que vem alarmando as agentes na linha de frente de um combate em que o Estado perde terreno a cada dia. 

“O tráfico — especialmente, o PCC — ganhou muito em organização e poder aquisitivo nos últimos anos. Quem tem mais dinheiro pode comprar mais e melhores armas”, diz o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, um dos maiores especialistas em crime organizado do país.

Ponte que liga o Brasil ao Paraguai%2C em Foz do Iguaçu. Por ali%2C todos os dias entram drogas e armasReprodução Internet

“Os movimentos do PCC, que está dominando o Paraguai e tem alianças com os grande produtores de cocaína bolivianos, nos permitem afirmar que estamos diante do surgimento de um Cartel Brasileiro. É um grupo estruturado e pronto para, em breve, assumir um poderio comparável ao dos grandes cartéis colombianos e mexicanos", diz o procurador.

O salto do PCC para se tornar uma multinacional do crime teve como marco a morte de um megatraficante em 2016, em episódio que segue tendo reflexos na região da fronteira Brasil-Paraguai. Em 15 de junho do ano passado, cerca de 40 homens, utilizando fuzis e uma metralhadora Browning calibre 50, abordaram o jipe do brasileiro Jorge Raffat Toumani, que seguia com cerca de 30 seguranças, em uma esquina de Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia, vizinha à brasileira Ponta Porã (MS). O carro foi atingido por cerca de 200 tiros, matando na hora o criminoso.

O crime foi planejado pelo PCC como parte do plano de domínio da fronteira. “Não foi uma decisão da facção. Foi um acordo do grupo com os fornecedores bolivianos”, diz Christino. Desde então, mais de 30 mortes são creditadas à guerra pelo controle das rotas de drogas e armas na fronteira, as últimas na segunda-feira. Dois homens abriram fogo numa boate de Pedro Juan Caballero. Dois homens e suas namoradas — todos brasileiros — morreram; outras 11 pessoas foram baleadas.

Organização garantiu a hegemonia

O alvo do atentado de segunda-feira em Pedro Juan Caballero era o traficante ‘Galã’ (Elton Rumich da Silva), aliado do PCC. Foi uma represália ao avanço da facção no Paraguai. Para o juiz federal Odilon de Oliveira, quase uma lenda no combate ao crime organizado na região, apenas um episódio a mais de uma história com final anunciado.

“Ainda vai haver muito sangue. Mas o PCC terá o domínio total da fronteira em breve. Eles ocuparam o vácuo deixado por Rafatt. Hoje, a facção é responsável por praticamente todos os grandes carregamentos de cocaína e armas para o Brasil atualmente. Eles só deixam para outros cargas pequenas, de 10, 20 quilos. Sabemos de conexões fortes com produtores e contrabandistas de armas e drogas bolivianos e peruanos”, diz ele. “Eu vi e aviso sobre esse processo desde 2002. Posso provar isso. Mas o Estado é omisso”.

Delegado de Polícia Federal aposentado e ex-adido da instituição no Paraguai, Antonio Celso dos Santos confirma que o PCC tornou-se hegemônico no Paraguai. “Oitenta por cento dos carregamentos de drogas e armas expressivos na fronteira são organizados pelo PCC. Eles se fixaram (em Pedro Juan Caballero). Então, não compram mais drogas lá. Eles mesmos trazem a cocaína da Bolívia para o Paraguai e eles mesmos entram com armas e drogas no Brasil, levando para São Paulo, em caminhões e carros com fundo falso. Esse processo fez o lucro crescer demais”, diz. “O lucro é investido em armas”.

Terror nos presídios federais

A psicóloga Melissa de Almeida Araújo foi morta com dois tiros de fuzil na cabeça, em 25 de maio, quando chegava em casa, em Cascavel (PR). Ela trabalhava no presídio federal de Catanduvas (PR). O PCC não tinha nada contra ela. O objetivo era intimidar o Estado e seus agentes, segundo o Mínistério Público Federal do Paraná. Duas outras mortes — uma também em Cascavel, outra em Mossoró (RN) tiveram o mesmo objetivo.

Para o procurador Márcio Christino, a hesitação do Estado é a culpada das mortes. “É preciso repensar o isolamento das lideranças. Precisamos um sistema rígido, capaz de intimidar. Nos presídios federais, o regime é duro a ponto de incomodar, mas na Itália ou nos Estados Unidos, há muito mais rigor. As ordens têm saído dos presídios com facilidade”, diz ele.

“Os presídios são dominados pelas facções e tem verdadeiros motéis”, reclama o juiz Odilon de Oliveira. “A pessoa se declara amante e o ‘vagabundo’ cochicha as ordens a ela no parlatório”. Após a morte de Melissa, as visitas íntimas em presídios federais foram suspensas. Um juiz federal, no entanto, concedeu liminar, determinando a retomada do direito para 68 presos.

Investir em inteligência é único caminho

“Se dessem à Polícia Federal, que tem expertise, um décimo do que vai ser gasto na operação das Forças Armadas no Rio e isso fosse aplicado em inteligência, na região da fronteira, os resultados seriam infinitamente superiores para a segurança do cidadão carioca”. A afirmação é do delegado Antonio Celso dos Santos.

Para ele, assim como no Rio, “se um soldado está em Copacabana, o crime muda de lugar ou espera ele ir embora”, na fronteira também é inócua a multiplicação de efetivo. “O investimento é em inteligência. Identificar a liderança, acompanhar o trabalho do tráfico e dar o bote certo, limpo. Isso não acaba com o tráfico. Mas vai diminuir as armas em circulação nos grandes centros”.

O promotor Márcio Christino concorda. “O único combate eficiente é com o uso de recursos de informação e infiltração a serviço da investigação. Multiplicar efetivos não funciona”.

O juiz Odilon Soares, que já dormiu em quartéis em Ponta Porã (MS) para se proteger de inimigos como Fernandinho Beira-Mar e o PCC, diz que falta “capacidade e vontade”.

“A PF tem capacitação para um trabalho de inteligência aqui na fronteira. Mas não tem efetivo, nem estrutura. A região representa 29% do território nacional e tem 13% do efetivo. O patrulhamento, as barreiras, tudo se torna precário. O Exército também tem capacidade de monitoramento, mas está sem recursos. O que acontece aqui se reflete em matança aí no Rio”, diz.

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