Revés na tentativa de recuperação da economia brasileira

Primeiro foi o BC, com previsões piores para a inflação e o PIB em 2014. Depois foi o Tesouro, anunciando um superávit primário 49,8% menor no 1º bimestre. E a seca é um dos responsáveis

Por O Dia

Nesta quinta-feira, o Tesouro Nacional e o Banco Central (BC) anunciaram números que combinados, representam um revés no esforço de recuperar a confiança na economia brasileira. O golpe só não foi maior porque, também no mesmo dia, o Tesouro anunciou uma vitoriosa emissão de € 1 bilhão em bônus com vencimento em 2021. De um lado, o BC aproximou suas previsões de inflação das do mercado. No Relatório Trimestral da Inflação divulgado ontem, estima para 2014 um IPCA de 6,1%, contra os 5,6% previstos no relatório anterior, publicado em dezembro, e cravou uma projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 2% para este ano, menor que o registrado em 2013 (2,3%). Pouco depois, o Tesouro Nacional anunciou um déficit primário de R$ 3,1 bilhões nas contas públicas do governo central (representado pelo Tesouro, Previdência Social e Banco Central) em fevereiro. No bimestre, o superávit primário é de R$ 9,8 bilhões, 49,8 % abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.

A elevação na projeção de inflação foi influenciada pela perspectiva de elevação dos preços administrados, em especial a energia elétrica, para o qual o BC projeta uma correção de 9,5% ao longo do ano. Segundo o BC, a incerteza sobre o comportamento dos preços da gasolina e da energia elétrica integra um dos riscos do cenário de inflação mais alta, junto com o nível da inflação corrente. A preocupação com o clima levou o BC a dedicar um trecho específico do relatório aos efeitos da seca e das altas temperaturas no início do ano. "As condições climáticas vêm apresentando comportamento atípico em diversas regiões do país no princípio de 2014, com chuvas em volume inferior ao padrão histórico e temperaturas em patamares bastante elevados", registrou o BC. Segundo o banco, os impactos climáticos recentes reduziram a estimativa de geração do parque hidroelétrico e aumentaram a utilização de usinas termelétricas, que apresentam custo de geração elevado, com repercussão sobre os preços. Mais uma vez, o clima surge como uma das principais dores de cabeça do governo, em uma dimensão semelhante ao bordão cunhado pelo jornalista James Carville, estrategista da campanha do ex-presidente americano Bill Clinton: "É a economia, estúpido", dizia ele à sua equipe, para lembrar que os EUA viviam uma crise de satisfação em relação ao ambiente econômico.

O diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo, deixou claro que a inflação não alcançará o centro da meta (4,5%) nos próximos 24 meses, horizonte com o qual o banco trabalha. O BC também piorou a sua estimativa para a inflação em 2015 (5,5% contra os 5,4% anteriores). A instituição projeta que o IPCA fechará o primeiro trimestre de 2016 em 5,4%. Segundo ele, a inflação vai ceder, porém mais à frente. Em resposta às críticas de que a política de aperto monetário não está surtindo o efeito esperado, reiterou: "A política monetária é eficaz e continuará sendo, para trazer a inflação para baixo".

Segundo Carlos Hamilton, a política fiscal do governo é neutra e "não adiciona demanda agregada" em 2014 e em 2015. Mas, a depender do resultado fiscal do primeiro bimestre do ano, o Ministério da Fazenda terá muito trabalho para alcançar a meta de superávit primário de 1,9% do PIB (dos quais 1,55% estarão a cargo da União). O déficit primário de R$ 3,1 bilhões registrado em fevereiro veio pior que o do mês anterior (um superávit de R$ 12,9 bilhões), embora melhor que o déficit de R$ 6,6 bilhões de fevereiro de 2013.

O resultado foi decorrente de receitas tributárias fracas, combinadas com despesas inesperadas, como o pagamento de R$ 1,9 bilhão em créditos a exportadores decorrentes da Lei Kandir. "Ao longo do ano, a receita tributária terá tendência de crescimento", assegurou o secretário do Tesouro, Arno Augustin, porque, segundo ele, a economia melhorou. "Este crescimento já vem ocorrendo mês a mês, vai continuar e vai se aprofundar", disse. Em fevereiro, as despesas do governo central atingiram R$ 68,3 bilhões, enquanto a receita líquida ficou em R$ 65,3 bilhões. A estiagem novamente emergiu como problema: "As despesas decorrentes da seca (referindo-se aos gastos extras para evitar elevações de tarifas de luz e as transferências extraordinárias de recursos para socorrer as localidades mais atingidas) tendem a diminuir", disse Augustin. Por conta dos dados fiscais fracos e novas despesas previstas (entre elas a compensação do custo extra das distribuidoras com a compra de energia elétrica mais cara), o governo já estuda elevar impostos sobre cosméticos, refrigerantes e cerveja e abrir novos parcelamentos para impostos atrasados.

Se os resultados de janeiro não ajudaram a melhorar as expectativas econômicas, Augustin pode ao menos apresentar a emissão bilionária de bônus em euros como exemplo de confiança internacional na econômica brasileira. "Fizemos uma emissão com a menor taxa da história. Foi muito positiva mostra a força dos fundamentos do Brasil, mostra que a visão do mercado é de grande confiança no Brasil". Arno informou que o lançamento, realizado logo após o rebaixamento do rating brasileiro pela Standard & Poor's, já estava programado. "Independente de agências e alteração de ratings, os fundamentos do Brasil estão bem demonstrados", declarou.

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