Por monica.lima
Seca e exportações ajudaram a elevar os preços nos supermercadosPaulo Araújo / Agência O Dia

Economistas contam com a percepção do consumidor, de que a atividade já não está no mesmo ritmo do passado, para que a inflação seja contida e a alta de 0,92% registrada em março, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), não se repita na mesma intensidade daqui para frente. Essa foi a taxa mais alta registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em um mês de março desde 2003 (1,23%). “Há um processo de acomodação do consumo das famílias, como efeito de uma situação econômica pior, puxada pela alta da taxa de juros, de uma percepção de piora dos preços e de um mercado de trabalho menos pulsante, que contribuem para que a inflação não suba tanto”, avalia o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito.

Além desses fatores, Luis Otávio Leal, do banco ABC Investimentos, aposta no endividamento das famílias como um item preponderante de freio do consumo ao longo deste ano. Ele afirma que, antes mesmo da divulgação ontem do IPCA de março, não projetava níveis elevados de compras em 2014, por conta da alta dos juros e do comprometimento da renda da população. Já o professor da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA/USP) Paulo Feldman acredita que as motivações para a alta da inflação no mês passado — sobretudo pautada no grupo alimentação — é temporária e não terão repercussões duradouras sobre a economia. “Não podemos traçar um cenário negro por causa de fatores pontuais, que não devem durar mais do que um mês”, diz Feldman.

Em março, o grupo de alimentos e bebidas, ao avançar 1,92%, respondeu sozinho por 51% do índice de inflação oficial. Somado ao grupo transportes (1,38%), por causa do avanço dos preços das passagens aéreas (26,49%), chegou a 79% do IPCA. Entre os alimentos, foi a refeição em casa o item que mais pressionou no mês, com alta de 2,43%, como consequência da seca que atingiu a lavoura de uma série de produtos, como legumes e verduras, e também do crescimento das exportações de carnes e outros agrícolas, como o trigo, informou o IBGE. A batata inglesa, por exemplo, ficou 35,05% mais cara, inflação que jamais fora registrada para o produto desde que o Instituto iniciou a pesquisa de preços, em 1980. Em seguida, destacaram-se tomate (32,85%), feijão-carioca (11,81%), hortaliças e verduras (9,36%) e ovo de galinha (8,21%).

Já as passagens aéreas ficaram mais caras por causa do Carnaval, período em que as empresas reduziram a oferta de promoções. Com isso, o item respondeu pela principal pressão isolada do IPCA.

“É bem provável que, na pesquisa do comércio, apareçam números mais fracos, em função da alta dos preços, principalmente em supermercados. Mas, se o clima melhorar e o choque agrícola se reverter ao longo do ano, haverá uma mudança desse cenário. Se o impacto dos alimentos sobre o IPCA será duradouro ou não, terá que ser visto ao longo dos próximos meses. Depende muito de um fator que ninguém consegue controlar, que é o clima”, analisa Leal, do Banco ABC.

Como consequência de um índice de inflação acima das expectativas em março, Perfeito, da Gradual Investimentos, projeta uma nova alta da taxa básica de juros pelo Banco Central, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). “O Banco Central vai olhar como choque ou como uma questão que está atrapalhando a ancorar as expectativas? Acho que ele vai olhar como choque, e vai subir a Selic em 0,25 ponto, em dose homeopática, como vem fazendo”, prevê.

Para Feldman, da FEA/USP, o IPCA não deverá ultrapassar o teto da meta de 6,5% em 12 meses. Em sua opinião, o governo já demonstrou ter ferramentas disponíveis para segurar a inflação, como no momento em que manteve os preços administrados.

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