Por monica.lima
Economistas dizem que falta qualidade ao mercado de trabalho, principalmente, na indústriaDivulgação

O desemprego no Brasil em 2013 foi de 7,1%, segundo pesquisa divulgada quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cenário é de escassez de mão de obra e de taxas inferiores aos dos pares emergentes e até meses às de países desenvolvidos, com exceção do México, onde a taxa de desemprego foi de 4,6% no ano passado. Ainda assim, a estabilidade do mercado de trabalho brasileiro contrasta com as taxas de ocupação na indústria, que por dois meses consecutivos, em dezembro e janeiro (últimos dados divulgados pelo IBGE), tiveram saldo de geração de emprego nulo. No México, o setor registrou crescimento de 1,6%, no mesmo período.

“Que tipo de emprego e ocupação estão sendo gerados para modernizar o Brasil?”, questiona o economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Clemente Ganz Lúcio.

A tese é que o crescimento do mercado de trabalho não é um indicativo direto de competitividade do Brasil em relação a outros setores, já que boa parte desse avanço ocorre nos setores de serviço e comércio, com menos qualificação e menor rendimento. “A debilidade da estratégia econômica está associada à nossa indústria. E olhando para a indústria, a performance do mercado de trabalho não é tão boa. A indústria é a protagonista das inovações. É ela que nos lançará para uma melhor condição competitiva”, avalia.

Lúcio não invalida a utilização da estatística fechada de desocupação, sem discriminação por setor — como trouxe quinta-feira a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua, uma versão mais abrangente da Pesquisa Mensal de Emprego, a PME) —, como um bom indicativo do desempenho da economia. Ele lembra que nos Estados Unidos, a atuação do Banco Central é pautada na expectativa de uma taxa favorável de desocupação, da mesma forma que, no Brasil, a meta é de inflação. “Desemprego é um indicador macroeconômico fundamental, mas é evidente que precisamos olhar a qualidade desse movimento”, enfatiza.

Para Lia Valls, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), é impossível comparar as taxas de ocupação dos países, porque os mercados de trabalho de cada um deles possuem especificidades que são incomparáveis. Ela cita o caso da China, onde o custo da mão de obra é baixíssimo. “É possível comparar, claramente, a taxa de investimento, o crescimento, a poupança, para saber sobre a capacidade dos países de investir e crescer. Mas mercado de trabalho não tem nada a ver com competitividade”, diz Lia. Nem mesmo a perspectiva de continuidade de um mercado de consumo aquecido, sustentado pela manutenção do emprego e da massa salarial animam a economista da FGV/Ibre no que diz respeito à capacidade do país de atrair investidores. “O investidor não olha para o curto prazo. Ele vê demanda futura. E o que o mercado de trabalho está nos apontando é para a geração de inflação”, projeta a economista.

A perspectiva é que o baixo nível de mão de obra disponível seja um gargalo para a presidenta Dilma Rousseff, segundo o economista-chefe da Opus Investimento, José Márcio Camargo. “A produtividade não cresce e gera pressão inflacionária. No longo prazo, é impossível manter a inflação parada no mesmo nível, sem mexer no mercado de trabalho”, acredita.

A taxa de desocupação de 2013, de 7,1%, é inferior à de 2012, de 7,4%. No entanto, supera a captada pela PME, de 5,4%, a menor já registrada na série histórica do IBGE. A diferença se dá porque a PME considera apenas as seis principais regiões metropolitanas do país, enquanto a Pnad Contínua considera todo o território nacional.

Segundo a Pnad Contínua, a população desocupada no total do Brasil somava 6,052 milhões no quarto trimestre do ano passado, menos do que os 6,796 milhões verificados no trimestre imediatamente anterior.

A estatística mostra que 91,881 milhões de pessoas tinham alguma ocupação no quarto trimestre de 2013, contra os 91,175 milhões verificados no terceiro trimestre. O nível da ocupação — proporção da população ocupada em relação à população em idade de trabalhar — foi de 57,3% no 4º trimestre. No terceiro trimestre do mesmo ano, o nível de ocupação foi de 57,1%, mesmo percentual verificado no quarto trimestre de 2012.

No último trimestre do ano passado, a população ocupada era composta por 69,6% de empregados, 4,1% de empregadores, 23,2% de pessoas que trabalhavam por conta própria e 3,1% de trabalhadores familiares auxiliares. Segundo o IBGE, essa composição não se alterou significativamente ao longo da série histórica da pesquisa. Nas regiões Norte (30,3%) e Nordeste (29,5%), o porcentual de trabalhadores por conta própria era superior ao observado nas demais localidades.

IBGE suspende divulgação da Pnad Contínua

Desde janeiro, o IBGE divulga a Pnad Contínua com periodicidade trimestral e abrangência nacional. A nova pesquisa substituirá a partir de 2015 tanto a PME quanto a Pnad anual, que produz informações referentes ao mês de setembro de cada ano. Quinta-feira, a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, informou, no entanto, que a divulgação da Pnad Contínua está suspensa até janeiro de 2015, embora os dados continuem a ser coletados.

A medida foi tomada após questionamentos de parlamentares sobre a precisão das informações relativas à renda domiciliar per capita de cada estado, já que as estimativas servirão como base para o rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

O IBGE vai utilizar a equipe que preparava a divulgação da Pnad Contínua em uma reformulação da metodologia do cálculo da renda domiciliar per capita dos estados para que a diferença entre eles não seja muito discrepante. Em São Paulo, por exemplo, a variação média da renda gera uma margem de erro de 6%. No Acre essa margem sobe para 16%, e isso pode gerar questionamentos na Justiça. Afinal, quanto menor a renda, maior a participação no FPE.

Assim, o IBGE vai concentrar esforços em atender duas exigências previstas na lei: a primeira é que a pesquisa gere uma renda per capita domiciliar anual (e não apenas pontual, referente a um mês no ano, como ocorre na Pnad convencional); e a segunda, que a margem de erro seja a mesma para todas as Unidades da Federação.

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