Por marta.valim

Protagonista de novas especulações sobre ajuda do governo federal, o setor automobilístico é o que mais tem remetido lucros ao exterior nos últimos anos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), porém, defende que a rentabilidade do setor é baixa e pede ajuda do governo para destravar o crédito para a compra de veículos. A possibilidade de novo socorro às montadoras, que passaram os anos de 2013 e 2014 com impostos mais baixos, é alvo de crítica de economistas, que veem privilégio e efeitos colaterais sobre a mobilidade urbana.

Segundo dados do Banco Central, os fabricantes de veículos automotores, reboques e carrocerias remeteram ao exterior, sob a forma de lucros e dividendos, US$ 27,7 bilhões desde 2006 — último dado disponível no site do BC. O valor é quase US$ 10 bilhões superior ao enviado pelas instituições financeiras, que ocupam o segundo lugar da lista. As remessas, porém, caíram nos últimos dois anos, quando as empresas foram agraciadas com redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Em 2011, por exemplo, foram US$ 2,4 bilhões, menos da metade do pico de US$ 5,6 bilhões registrado três anos antes.

Este ano, até março, a indústria automobilística enviou ao exterior US$ 182 milhões, em uma indicação de que os valores de 2014 serão menores do que os US$ 3,3 bilhões registrados no ano passado. Apesar de um primeiro trimestre de vendas recordes no país, o segmento acusa aumento de estoques e busca alternativas. “Em março acumulamos 48 dias de estoque e o mercado caiu 2,1%, o que significa menos 18 mil veículos”, diz Luiz Moan, presidente da Anfavea, acrescentando que a redução das exportações para a Argentina, devido à imposição de barreiras locais, é outro fator de preocupação.

O risco aos trabalhadores é o principal argumento na busca de apoio do governo, mas a possibilidade de um novo pacote de ajuda tem despertado críticas. “Não existe justificativa econômica para um pacote de ajuda”, comenta Armando Castelar, economista da FGV/Ibre e ex-BNDES. “Se o objetivo é cuidar do trabalho, sai muito mais barato empregar as pessoas ou criar uma bolsa desemprego para garantir o sustento dessas pessoas”, completa. Nas últimas semanas, porém, começaram a surgir notícias de demissões ou férias coletivas em unidades industriais pelo país, aumentando a pressão.

“A pressão sobre o governo é dupla, é das empresas e dos sindicatos. Há um movimento de razoável solidariedade para que o governo apresente soluções”, comenta Claudio Deddeca, professor de economia da Unicamp, para quem o socorro pontual está perdendo a eficácia. “A possibilidade de expansão da frota, pelo tamanho do mercado, está próxima de uma fadiga. Portanto, caberia ao governo definir uma estratégia de reconversão do setor a médio e longo prazo”, analisa.

As empresas trabalham para reverter a imagem de setor privilegiado pelo governo petista, reforçada pela importância do movimento sindical no nascimento do partido. “O setor é muito importante econômica e politicamente e possui um lobby fortíssimo. As demissões no setor são muito visíveis na mídia e seus sindicatos estão entre os mais importantes do país”, afirma João Saboia, professor de economia da UFRJ, que vê no peso econômico da indústria uma boa razão para que receba atenção do governo.

Moan, porém, atribui à “falta de informação” as acusações de que o segmento é privilegiado pelo governo. “Temos a maior carga tributária do mundo. Apenas os impostos diretos representam 30% do custo. Se incluirmos o imposto adicionado, cujos créditos não conseguimos recuperar, a carga chega a 44%”, argumenta. Com a isenção do IPI em 2012 e 2013, diz ele, o governo deixou de arrecadar R$ 4,9 bilhões, valor menor do que os R$ 5,6 bilhões de arrecadação adicional de PIS/Cofins com o aumento das vendas no período. O executivo defende ainda que o nível de remessas é baixo. “Faturamos cerca de US$ 100 bilhões por ano. Remessa de US$ 2,4 bilhões indica apenas 2,4% de remuneração ao acionista.”

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