Por marta.valim

Rio - Os governos do Brasil e da Argentina e representantes do setor privado se reúnem nesta terça e quarta-feira para estudar formas de aumentar as compras bilaterais do setor automotivo. Destravar as exportações, contudo, não é uma tarefa fácil já que o país vizinho enfrenta uma crise econômica, com inflação alta e câmbio desvalorizado.  

Por outro lado,  caso os países não cheguem a um acordo, o crescimento brasileiro pode sofrer um impacto negativo de 0,3 a 0,4 ponto pecentual.  Com a taxa de crescimento de 2,5%, previsto pelo governo, o PIB cairia a 2,1%, segundo projeções do professor de economia do Ibmec, Alexandre Espírito Santo. 

A redução das exportações agrava a situação do setor automobilístico brasileiro, que já enfrenta queda da demanda interna e começa cortar  empregos locais. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as exportações de automóveis para a Argentina caíram 32,7% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2013.

Para o professor de economia do Insper Otto Nogami,  “a questão preponderante é que a reserva cambial argentina se exauriu e agora o país restringe o volume de importação para preservar suas contas”.

"O Brasil começou a dar incentivos ao setor automobilístico e houve um efeito esporádico. Para sair do incentivo fiscal, uma das alternativas era escoar a produção para a Argentina, mas o país entrou em crise", explica o professor de economia do Ibmec Alexandre Espírito Santo. 

Para a economista da FGV Lia Valls, "a preocupação agora é mais com a indústria brasileira do que em resolver esse impasse com a Argentina. A questão é mais um problema doméstico, relacionado à retirada do IPI e um ambiente de baixo de crescimento. Isso em um ano eleitoral”, avalia.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu sinais de que haverá um pacote de estímulos e afirmou que o governo estuda o financiamento privado para o setor, sem dar detalhes.

A solução de uma linha de financiamento para a Argentina, contudo, é vista com ressalvas pelos especialistas. "Para haver uma linha de financiamento do Brasil para a Argentina seria importante haver uma contrapartida", afirma Lia Valls. Já Otto Nogani lembra que "o risco do financiamento é que a Argentina é um país inadimplente".

Para ele, uma solução seria que as transações comerciais começassem a ser feitas em reais, uma moeda que a Argentina pode obter com mais facilidade, pois o Brasil é um grande parceiro comercial. Contudo, pondera ele, “seria mais uma divisa estrangeira que o governo argentino teria que administrar”.

Alexandre Espírito Santo diz que o problema de ter uma moeda única no Mercosul "é contaminar o real com a fraqueza de outras economias do bloco e afetar a credibilidade da moeda". "Não sei se seria uma alternativa vantajosa, se fosse aplicada apenas para a indústria automobilística”, completou.

Outro ponto na pauta das discussões entre o governo brasileiro e as empresas do setor automobilístico são os empregos. Com a queda nas vendas, empresas como Volkswagen, Fiat e GM anunciaram milhares de afastamentos. Acredita-se que o governo poderá propor medidas que flexibilizem a jornada de trabalho para evitar demissões. 

Uma nova redução de impostos como o IPI também não seria uma opção viável. "Se o governo desonerar mais o setor, vai haver um impacto no volume de arrecadação do governo”, afirma Otto Nogami.

Benefícios do acordo

Apesar dos entraves, os economistas destacam a importância de se buscar uma solução comercial com a Argentina. “Houve uma grande redução do superávit do Brasil, as exportações se sustentam nas vendas pra China e para os Estados Unidos. Nesse sentido, seria importante resolver o impasse com a Argentina”, Lia Valls.

Otto Nogami tem opinião semelhante. “Os modelos dos carros produzidos no Brasil não tem muita competitividade externa. São pouco aceitos nos mercados norte-americano ou europeu, por exemplo, já que costumam ter 1 ou 2 anos de defasagem. O mercado no Brasil está saturado. Nesse sentido, é importante um acordo com a Argentina para escoar a produção”, ressalta.

O professor de Relações Internacionais da Puc-Rio Carlos Frederico Pereira da Silva Gama lembra que um acordo com a Argentina é um ponto chave para as negociações em curso entre o Mercosul e a União Europeia.

“Espero que os governos tenham boa vontade política para sair das questões pontuais e colocar no papel medidas gerais para o Mercosul e cronogramas de transição nos próximos anos que minimizem os impactos nos empregos tendo em vista o acordo do bloco com a União Europeia”, diz.

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