Por marta.valim
O Brasil, que respondeu por 28% da produção global no ano passado e por 57% das exportações, teve seu verão mais seco em pelo menos sete décadas na região Centro-SulADALBERTO ROQUE / AFP

O produtor brasileiro de cana-de-açúcar José Rodolfo Penatti pode ver da janela da sua casa evidências de que o mundo está a caminho do primeiro déficit de produção de açúcar em quatro anos.

Nos 60 hectares no estado de São Paulo onde sua família planta desde os anos 1950, as varas de cana estão com a metade da sua altura normal de mais de três metros e estão marrons em vez de verdes, depois que a seca de janeiro a março atingiu a região Centro-Sul do país. “É o pior cenário que eu já vi”, disse Penatti, 54, que estima que perderá 20% da safra.

A colheita menor no Brasil, que é o maior produtor e exportador, deixará a produção global 900.000 toneladas abaixo da demanda nos 12 meses até 30 de setembro e a escassez pode ser maior no ano que vem, disse Bruno Lima, consultor sênior de gerenciamento de risco da FCStone do Brasil. A trader Copersucar SA prevê que os futuros de açúcar bruto saltarão 13% até o fim do ano, para 20 centavos de dólar a libra-peso. Um aumento estendido pode ampliar os custos para compradores como a Nestlé SA e ao mesmo tempo reanimar os lucros das refinadoras depois que quatro anos de estoques excedentes obrigaram dúzias delas a fechar.

“O déficit pegou o mercado de surpresa”, disse Peter Sorrentino, que ajuda a gerenciar cerca de US$ 3,8 bilhões na Huntington Asset Advisors em Cincinnati, ontem, em entrevista por telefone. “Não é preciso muita variação do clima para ter mudanças significativas nas projeções de colheita. O mercado está em baixa há tanto tempo que os investidores e as indústrias também estão reagindo a uma potencial perda de capacidade”.

Aumento do preço

O açúcar bruto avançou 14% desde o final de janeiro até ontem, para 17,76 centavos de dólar, na ICE Futures U.S. hoje em Nova York, superando o ganho de 5,2 por cento do índice de 24 commodities Standard Poor’s GSCI Spot. O índice de ações MSCI All-Country World subiu 5,9 por cento ao longo do mesmo período, enquanto o índice Bloomberg Treasury Bond teve um incremento de 1,3 por cento.

O Brasil, que respondeu por 28% da produção global no ano passado e por 57% das exportações, teve seu verão mais seco em pelo menos sete décadas na região Centro-Sul, o que danificou culturas tropicais como cana-de-açúcar, café e laranja. Os futuros do café arábica subiram 66% neste ano, tocando em abril a maior alta em 26 meses, e os futuros do suco de laranja subiram 12 por cento.

A produção de cana no Centro-Sul, que responde por 90% do total do Brasil, pode cair até 5,2%, para 565 milhões de toneladas, segundo Júlio Maria Borges, chefe da consultoria JOB Economia Planejamento, com sede em São Paulo.

Estendendo o déficit

A demanda global atingirá um recorde de 167,6 milhões de toneladas no ano que termina em 30 de setembro, estendendo duas décadas de aumentos que viram o consumo subir 48 por cento, mostram dados do Departamento de Agricultura dos EUA. Na temporada 2014-2015, que começa em 1º de outubro, a demanda pode superar as colheitas em até 3 milhões de toneladas, segundo a Copersucar, que tem sede em São Paulo.

Os produtores do Brasil, do México e da China viram uma redução nos incentivos para aumento da produção depois que os preços caíram até 59 por cento, em janeiro, em relação à maior alta em 30 anos, registrada em fevereiro de 2011, e após uma subida dos custos de refino, segundo Jonathan Kingsman, fundador da Kingsman SA, uma unidade da Platts, da McGraw Hill Financial Inc. Desde 2010, pelo menos 44 usinas brasileiras fecharam, disse Norberto Zaiet, vice-presidente do Banco Pine, com sede em São Paulo.

Os estoques podem encolher mais à medida que mais cana é usada para fabricar combustível, que oferece melhores retornos em meio a um aumento da demanda doméstica e dos preços. Até 58 por cento da colheita brasileira será convertida em etanol, segundo a Raizen, uma joint venture da Royal Dutch Shell Plc e da Cosan SA. Seria a taxa mais alta em cinco anos, segundo a Unica, uma associação do setor.

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