Por monica.lima

Rio - Com uma descoberta de gás não convencional na Bacia do São Francisco, em Minas Gerais, a mineira Orteng espera, para o final do mês, uma reavaliação dos custos de perfuração de seu primeiro poço com a tecnologia de fraturamento hidráulico na área. A revisão dos planos se mostrou necessária após a publicação, pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), de regras para a atividade e é um bom exemplo de como a atividade ainda dá passos tímidos no Brasil. Já com algumas descobertas, petroleiras brasileiras e estrangeiras citam a falta de definição sobre regras e a escassez de equipamentos como obstáculos para o desenvolvimento da produção.

Além da Orteng, a também brasileira Petra, a britânica Shell e a canadense Gran Tierra estão entre as petroleiras que já comunicaram à ANP a descoberta de indícios de jazidas não convencionais de óleo e gás. Alguns poços com a tecnologia de fraturamento hidráulico foram perfurados, com o objetivo de testar os reservatórios, mas o desenvolvimento da produção ainda levará tempo, dizem executivos das empresas que iniciaram as atividades no segmento. “A indústria de exploração de petróleo em terra no Brasil ainda está engatinhando”, resume Frederico Macedo, gerente de óleo e gás da Orteng, que foca suas atividades na Bacia de São Francisco, considerada uma das mais promissoras para jazidas não convencionais.

A primeira operação de fraturamento da Orteng está prevista para o bloco exploratório SF-T-132. A empresa planeja um poço vertical para entender o comportamento da rocha, procedimento conhecido como teste de formação (os poços produtores normalmente são horizontais, cobrindo uma área maior da jazida). Um orçamento inicial foi solicitado às gigantes internacionais Halliburton e Schlumberger. “Mas veio a portaria da ANP, com alguns pré-requisitos novos, e fomos forçados a reavaliar o processo, para calcular os impactos no custo”, explica o executivo. Publicada em maio, a portaria define estudos necessários para o fraturamento e requisitos para a cimentação dos poços, para evitar vazamentos.

Perto dali, a Petra também encontrou indícios de jazidas não convencionais de gás natural. A companhia informou que está ainda estudando as tecnologias disponíveis para avaliar a viabilidade de prosseguir com os projetos. Em nota enviada ao Brasil Econômico, também cita os custos de exploração como um dos obstáculos para o segmento. “As empresas operadoras continuam a enfrentar sérias limitações em termos de serviços com custos convergentes aos praticados no mercado internacional”, diz a nota. A tecnologia de fraturamento hidráulico — usada para liberar os hidrocarbonetos por meio de fissuras na rocha — demanda bombas de alta pressão e grande consumo de água e produtos químicos.

Embora a Petrobras use a tecnologia há tempos para estimular reservatórios maduros (em fase final de produção), não há no Brasil grande disponibilidade de equipamentos para garantir o desenvolvimento de jazidas não convencionais. A falta de escala é citada também por Júlio Moreira, presidente da unidade brasileira da Gran Tierra, entre os obstáculos enfrentados por sua empresa. A companhia perfurou, no ano passado, três poços horizontais para testar uma jazida não convencional próxima ao campo de Tiê, na Bacia do Recôncavo, na Bahia. Este ano, vai se dedicar a avaliar as informações coletadas antes de definir o futuro da atividade.

Se tudo correr como o esperado, diz ele, a Gran Tierra pode perfurar cinco novos poços a partir do ano que vem. Com níveis de produção limitados pela baixa porosidade dos reservatórios, as jazidas não convencionais precisam de muito mais poços produtores do que os reservatórios convencionais para justificar o investimento. “O Brasil precisa continuar a promover outras rodadas de licitações com esse foco. Só assim será possível acreditar que as empresas possam desenvolver uma indústria de serviços de apoio às atividades de exploração não convencional no país”, afirma Moreira. “Os atuais custos dos serviços de apoio precisam cair, seguindo padrões observados nos Estados Unidos e no Canadá”.

A ANP realizou, no final de 2013, uma rodada de licitações de áreas exploratórias com potencial para a descoberta de gás natural. Entre as regiões incluídas, algumas com grande expectativa com relação a jazidas não convencionais — segmento que tem provocado uma verdadeira revolução energética nos Estados Unidos. Com a portaria que regulamenta a atividade, a ANP concluiu a regulamentação sobre o fraturamento hidráulico. Há ainda, porém, dúvidas com relação ao licenciamento ambiental, hoje no âmbito estadual, mas que pode ser absorvido pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Além disso, a tecnologia enfrenta grande resistência de ambientalistas, acadêmicos e do Ministério Público, que chegou a propor a suspensão do leilão da ANP no ano passado. O riso de contaminação de aquíferos é citado normalmente entre os principais argumentos para pedir a moratória da atividade. “Seria muito importante contar com um arcabouço regulatório específico para a exploração não convencional no Brasil”, comenta Moreira. A Gran Tierra pretende investir US$ 30 milhões este ano no país, com a análise dos dados e atividades no campo de Tiê, onde produz, em média, 900 barris de petróleo por dia de um reservatório convencional.

Shell desiste de operações em Minas Gerais

Citada por diversos especialistas como uma das apostas para o desenvolvimento de jazidas não convencionais no Brasil, a Shell retirou o segmento de seu portfólio e decidiu focar em grandes projetos petrolíferos. Sócia da Petrobras no campo de Libra, maior descoberta brasileira de petróleo, a empresa informou apenas que não encontrou indícios que justifiquem o prosseguimento das atividades em não convencionais.

“A Shell concluiu a perfuração do primeiro poço exploratório no bloco SF-T-81, na região de Arinos, norte do estado de Minas Gerais, em setembro do ano passado. Os resultados desse poço não foram positivos a ponto de justificar, por parte do consórcio (Shell 60%, Vale 40%), o desenvolvimento da área para produção em escala comercial”, disse a companhia, em nota oficial.

Além de incerteza regulatória e escassez de equipamentos, a Bacia do São Francisco sofre com a falta de infraestrutura — seja rodoviária, para transporte de materiais, seja dutoviária, para escoamento da produção — , o que pode tornar ainda mais caro o desenvolvimento das reservas. A Petra, por exemplo, avalia usar a tecnologia de compressão do gás, para transporte em caminhões, caso confirme o potencial de produção de suas concessões.

A Bacia do Recôncavo, ao contrário, tem infraestrutura farta, o que pode explicar o maior otimismo da Gran Tierra com relação a seus pares. A região foi a primeira bacia produtora de petróleo no Brasil e conta com uma extensa rede de gasodutos e oleodutos operados pela Petrobras. Além disso, tem mais potencial para óleo, que pode ser transportado por caminhões até os mercados consumidores.

O governo de Minas Gerais, porém, aposta alto no potencial da indústria do gás no estado e tem avançado em regras para permitir o mercado livre de gás e agilizar licenças ambientais. Tem atuado ainda em parceria com as operadoras para desenvolver o segmento — a estatal Cemig é sócia de petroleiras na atividade exploratória na região.


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