Por monica.lima

Rio - O receio de incitar manifestações e, com isso, atrair “quebra-quebra” às suas lojas somado à percepção de que sobram protestos e faltam torcedores resultou em um comércio com estoque restrito de mercadorias destinadas às comemorações da Copa do Mundo, segundo a Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio-SP). Neste ano, ao contrário do que ocorreu em eventos passados, o varejo não está abarrotado de enfeites de rua e alegorias de torcida para a seleção brasileira de futebol, conta Guilherme Dietze, economista da Federação. De fato, a falta de perspectiva econômica e a certeza de que não há mais ferramentas de estímulos ao consumo a serem lançadas pelo governo levaram o varejo a reduzir ao máximo os seus estoques em geral. E muito menos a Copa, motivo do desencadeamento de uma série de protestos, diz Dietze, foi capaz de reverter a confiança dos comerciantes.

Ele avalia que, exatamente por causa dos protestos, as empresas patrocinadoras do mundial não promoveram uma campanha de marketing firme. Como consequência, o comércio também não embarcou nas comemorações. Tampouco a expectativa é de que haja uma corrida de uma multidão de consumidores de última hora interessados em enfeitar casas e ruas. “O receio é ainda maior de o Brasil perder na primeira fase. A reação popular pode ser de muita revolta. A verdade é que não há um cenário claro que anime o comerciante”, afirma Dietze.

Na Saara%2C no Rio%2C as lojas começaram a apostar agora nas vendas para os jogos. Por enquanto%2C venda ainda não ultrapassou a de 2013André Luiz Mello/Agência O Dia


No Rio de Janeiro, o principal centro comercial popular, a Saara, é um exemplo do desânimo retratado pela Fecomércio. Ênio Bitencourt, presidente da associação de lojistas locais, conta que as vendas demoraram a engrenar e somente agora, a 15 dias da abertura da Copa, iniciou um pequeno movimento. Ainda assim, ele espera um retorno muito inferior ao do passado, porque, em sua opinião, “o entusiasmo do povo está muito devagar”. Ele diz que há mercadorias destinadas à Copa, mesmo que em menor volume do que se esperava, “o que falta é freguês”.

Percorrendo as ruas do mercado a céu aberto, o que se percebe é que a decoração é modesta, comparada à do mundial de 2010, poucas lojas exibem artigos em “verde e amarelo”. Em um breve bate-papo com os comerciantes, predomina o desânimo e a expectativa de que as vendas melhorem a partir do mês que vem. Nem mesmo os anúncios da tradicional rádio Saara, por meio da qual são promovidos os artigos de datas festivas, fazem menção à Copa.

“Na semana passada houve um aumento na venda, mesmo assim, o volume é bem menor do que o da Copa anterior. Temos mais variedade de artigos, mas isso não está animando as pessoas e acho que pode ter a ver com as manifestações”, relata Maria das Graças Rodrigues, gerente da loja Aindan, de artigos diversos. Janaina Elias, gerente da loja Brink Alegria Maravilha, diz que, neste ano, o movimento está pior até mesmo do que em 2013, por causa do cenário econômico.

Em geral, o que predomina no comércio, segundo Dietze, da Fecomercio-SP, é a falta clareza sobre o futuro da economia. O reflexo está no indicador de confiança dos empresários do setor, que atingiu a linha da indiferença, segundo pesquisa realizada pela Federação. E a consequência é a retração dos investimentos. “Falta perspectiva e investimento. É um ciclo danoso da economia”, ressalta. A opinião de Dietze é que não há espaço para reduções de preços e liquidações, assim como para facilitação do crédito, por causa da alta recorrente da taxa básica de juros, a Selic. A solução tem sido reduzir os estoques “e aguardar alguma sinalização do governo”, diz ele.

Os mais atingidos são os segmentos de bens de consumo duráveis, por não serem de primeira necessidade para as famílias. Ao mesmo tempo, pela mesma lógica, a inflação empurrou o consumidor para a compra prioritária de alimentos.

Por causa do desalento com a economia, o índice de confiança do empresariado do comércio de maio, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), despencou para a pior marca registrada na série histórica: -4,4%, ante -3,1%, em abril. “Com o resultado, os indicadores da Sondagem do Comércio sugerem arrefecimento do nível de atividade econômica do setor no segundo trimestre”, informou a FGV/Ibre.

O pessimismo é maior com a situação atual do que com o futuro, relativo aos próximos seis meses. A pesquisa informa que a confiança dos empresários caiu 7,2% segundo o Índice de Situação Atual (ISA), enquanto o Índice de Expectativas recuou 2,6%.

Colaborou André Luiz Mello

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