Indústria tem pior geração de empregos no Brasil

Setor perdeu peso na abertura de novas vagas no país e, ao lado de agropecuária e construção civil, contribui para cenário fraco

Por O Dia

Rio - A indústria de transformação teve a maior perda de participação na abertura de novos postos de trabalho no Brasil nos últimos 12 meses, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, o setor criou 3.618 vagas no período encerrado em maio de 2014, contra 149.512 verificados um ano antes. Ao lado da agropecuária e da construção civil, a indústria compõe o grupo dos setores que mais contribui para a desaceleração do emprego no Brasil. Em maio, o saldo de novos postos de trabalho foi o pior desde 1992.

No acumulado de 2014, a indústria de transformação tem um saldo positivo de 72,3 mil postos de trabalho, mas começou a desacelerar novamente em maio, movimento interpretado como um sinal de que o ritmo de contratações vai se manter lento. No período, o setor ainda teve um saldo melhor do que comércio e indústria extrativa mineral — no primeiro caso, porém, a explicação é sazonal, uma vez que as lojas costumam demitir, no início do ano, empregados temporários contratados para o Natal. Para especialistas, a pouca competitividade da indústria brasileira com relação a concorrentes externos e a busca por produtividade são responsáveis pelo desempenho.

“O emprego segue a atividade econômica. Mas no caso da indústria, o baixo nível de desemprego pressionou os salários e, com isso, leva as empresas buscarem ganhos de produtividade, trocando mão de obra por tecnologia”, comenta o superintendente do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Jardel Leal. “Daqui para frente, a indústria vai contratar em ritmo mais lento”, conclui.

A redução do IPI para o setor automobilístico anunciada ontem pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega, pode não gerar tanto efeito no emprego, ressalta o economista-chefe da Oppus Investimentos, José Márcio Camargo. “O que houve no país foi uma antecipação do consumo nos últimos 3 anos. E o que vemos hoje é a indústria automobilística com uma baixa demanda, estoques altos e demissões”, avalia.

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Um retrato do mercado de trabalho brasileiro nos primeiros meses do ano mostra concentração regional das demissões em estados do Norte e Nordeste, notadamente em Pernambuco e Alagoas, e saldo ainda positivo no centro-sul. Embora o agronegócio continue figurando, em números absolutos, como um dos principais contratantes, o ritmo deste setor também apresenta retração. Com um saldo de 346,2 mil novas vagas, o setor de serviços aparece, de longe, como o mais positivo em novas contratações.

Segundo especialistas, o mau desempenho do emprego em Pernambuco e Alagoas tem forte influência do fim da safra de cana-de-açúcar, que este ano foi afetada pela seca. Em Pernambuco, além disso, a desmobilização de trabalhadores de grandes obras de construção civil no Porto de Suape teve papel fundamental. “No pico, chegamos a ter mais de 80 mil pessoas trabalhando lá, em obras como a Refinaria Abreu e Lima, a Petroquímica Suape e os estaleiros. Agora, as obras estão chegando ao fim”, diz Jorge Jatobá, diretor financeira da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, baseada em Recife.

De fato, Ipojuca, onde está sediado o porto, foi a cidade brasileira com o pior saldo na geração de emprego do país, 11,1 mil vagas fechadas nos primeiros cinco meses de 2014, cenário que vem mobilizando autoridades locais em um esforço para minimizar os impactos sobre a economia local. Na outra ponta, está São Paulo, com 47,3 mil novas vagas abertas, desempenho garantido pelas contratações no setor de serviços, impulsionado pela realização da Copa do Mundo. Outro setor beneficiado pelo evento, a construção civil vem em segundo lugar entre os geradores de emprego em São Paulo, com 5,7 mil novas vagas.

A construção civil é apontada por especialistas como outro setor que deve desacelerar. Nos últimos 12 meses, abriu metade do número de vagas registrado no mesmo período do ano anterior. “Nos últimos seis meses houve um aumento na intensidade de obras para a Copa do Mundo, mas, no momento em que os estádios estão prontos e a infraestrutura, não, não se tem mais tanta urgência para se fazer essas obras. Por isso, a intensidade da atividade deve diminuir e o setor deve registrar desemprego nos próximos meses”, prevê Camargo.

No comércio, a expectativa também é de desaceleração. “O crédito mais caro inibe a compra. Para se ter uma ideia, para pessoa física, o crédito está no nível mais alto desde setembro de 2005, com taxas de 42% ao ano”, diz o economista da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes. Em função da perda de ritmo do setor, a CNC revisou para baixo tanto o crescimento da atividade para o ano, quanto a geração de empregos.

A expectativa, que antes era de um crescimento em torno de 6% para 2014, está agora em 4,5%. “Maio costuma ser um mês de reversão de emprego, com início de geração de saldo positivo. Acontece é que assim como em outras atividades, o comércio esse ano também está mais devagar e ainda não conseguiu reverter a baixa geração de vagas”, afirma o economista da CNC.

Leal, do Dieese, fala em acomodação do mercado de trabalho no comércio, com o “amadurecimento” do consumidor, principalmente na região Nordeste. “Em um primeiro momento, houve crescimento muito grande da renda e do acesso ao crédito, que impulsionou as vendas e o emprego no comércio. Mas, assim como o empresariado, o trabalhador está tendo que aprender a planejar sua renda e a lidar com restrições ao crédito”, argumenta.


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