Indústria vê pouco avanço em acordos com a China

Empresariado nacional ainda sofre com barreiras à entrada de produtos de maior valor agregado

Por O Dia

Apesar do grande pacote de acordos fechados com a China na semana passada, a indústria brasileira vê com cautela a possibilidade de harmonizar as relações com o país asiático, historicamente conflituosas em matéria comercial. Na opinião de especialistas, remanescem por parte da China barreiras aos produtos brasileiros de maior valor agregado. Enquanto isso, a indústria brasileira, que teve a sua tendência de desaquecimento acentuada em junho, continua a sofrer com a enxurrada de produtos chineses que entram no país a preços tão baixos que inviabilizam a competitividade dos fabricantes nacionais. Os investimentos anunciados pelo presidente da China, Xi Jinping, são bem-vindos, mas não se esperam efeitos de curto prazo na economia brasileira.

“Houve uma série de questões no caminho até que chegássemos à reunião da quinta-feira. Quando falamos de China, sempre pensamos em uma agenda defensiva da nossa parte, por conta da alta competitividade dos produtos chineses. A imagem do país perante o empresariado brasileiro é muito negativa, pois a nossa pauta comercial é desigual. Embora o saldo seja positivo para nós, não favorece as exportações dos nossos produtos de alto valor agregado”, afirmou o economista da área de NegóciosInternacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fabrizio Panzini.

Na visão do economista da CNI — instituição que sediou um encontro de negócios com a presença de 200 empresários chineses em paralelo à visita presidencial —, é positiva a percepção que ficou entre o empresariado da reunião entre Xi Jinping e a presidenta Dilma Rousseff, “mas os resultados entregues foram poucos”. “Foram relevantes a derrubada do embargo chinês à carne brasileira, a venda de aeronaves da Embraer e o fato de o Banco do Brasil, depois de dez anos tentando entrar na China, ter conseguido ser o primeiro banco latino-americano a abrir uma agência no país”, disse.

Por outro lado, permaneceram muitos entraves às exportações brasileiras para a China, até mesmo no caso da carne. “Os chineses impõem barreiras não apenas ao país, mas ao selo de habilitação dos frigoríficos. Há uma falta de transparência no que eles chamam de barreiras técnicas”, afirmou Panzini. Ele cita os entraves ao setor químico e o não reconhecimento dos certificados para produtos médico-hospitalares, além do problema da escalada tarifária. “Para a compra de muitos dos nossos produtos básicos, eles colocam uma tarifa igual a quase zero. Mas, para importar os industrializados, as tarifas chegam a 30%. É o caso do suco de laranja, dos mármores e do café industrializado”, disse. Para o economista da CNI, apesar do saldo positivo da visita de Xi Jinping, “alguns setores vão permanecer vendo os chineses com um olhar negativo”. Panzini disse que a aproximação com a China é estratégica para o desenvolvimento do país e poderá favorecer a economia no futuro, mas não conseguirá reverter os problemas no curto prazo.

Ao fim das reuniões conjuntas que manteve com Xi Jinping, Dilma Rousseff destacou aos jornalistas a venda de jatos da Embraer por serem produtos de alto valor agregado e a derrubada da barreira contra a carne brasileira, por favorecer a expansão do agronegócio. Contudo, Josefina Guedes, diretora da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) e da consultoria internacional Guedes, Bernardo, Imamura e Associados, afirma que os acordos assinados na semana passada precisam ser vistos com cautela.

“Considero que os investimentos chineses em áreas como petróleo, energia e, agora, ferrovias, se concretizarão porque há um interesse deles de incentivar esses setores para o abastecimento da China. A derrubada da barreira da carne é muito positiva e também a venda de jatos brasileiros aos chineses, mas só o tempo dirá em que medida esses acordos poderão estimular a economia brasileira”, afirmou a diretora da AEB.

Paralelamente, os números da indústria brasileira continuam em queda. A Sondagem Industrial divulgada pela CNI na sexta-feira revelou que a utilização da capacidade instalada recuou três pontos percentuais entre maio e junho, para 68%, no menor nível desde junho de 2009. A produção do setor continua a cair, os estoques aumentaram pelo terceiro mês consecutivo e o corte nos postos de trabalho se acentuou.

Para o economista da CNI Marcelo Azevedo, “a falta de demanda tornou-se a segunda maior preocupação dos empresários, perdendo apenas para a carga tributária”. Segundo o gerente-executivo de Pesquisa e Competitividade da CNI, Renato da Fonseca, recaiu sobre junho o “efeito Copa”, que se somou a outros fatores negativos, como a inflação e a inadimplência do consumidor.

Últimas de _legado_Notícia