Por marta.valim

Mês após mês, os indicadores da indústria apontam uma queda sem freio do setor. Especialistas se dividem, no entanto, entre os que acreditam que o cenário vai continuar se deteriorando, enquanto outros avaliam que não pode ficar pior do que está. Enquanto a produção diminui, os estoques aumentam, e se acentua a queda no emprego, emerge a dúvida: onde está o fundo do poço?

“O país cresce pouco e não tem fôlego para a demanda. O pior não passou ainda. Existe um movimento em curso, com efeitos da política monetária ainda a se materializarem. O lado fiscal não ajuda, estamos num equilíbrio macroeconômico ruim. Infelizmente, a perspectiva é de mais enfraquecimento para a indústria”, afirmou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Na opinião da economista, o processo de desaceleração do mercado de trabalho industrial irá continuar. “Como vamos fazer para a indústria se recuperar, uma vez que há salários crescendo acima da competitividade?”, questionou. Segundo Zeina, as políticas de incentivo do governo também não foram bem-sucedidas. “Como continuar com políticas que beneficiam alguns e não todos? Nós, certamente, vamos ter de trocar políticas setoriais por medidas mais horizontais, pois essas proteções aos setores acabaram reduzindo o potencial de crescimento do país. Não só geraram pressão da demanda, mas desestímulo à oferta, beneficiando setores menos competitivos. Com isso, a economia se tornou mais frágil e mais suscetível à pressão inflacionária”, criticou.

Para o professor de economia da UFRJ Luiz Fernando Rodrigues de Paula, não há dúvidas de que a situação da indústria irá piorar ao longo de 2014 e, em relação a 2015, ele mesmo se considera “levemente pessimista”, seja qual for o cenário pós-eleitoral. Na opinião dele, nem a presidenta Dilma Rousseff nem a oposição apresentam propostas capazes de reverter esse cenário. “Às vezes achamos que estamos no fundo do poço e não estamos”, analisou.

O economista atribui a situação atual da indústria brasileira a fatores conjunturais associados a outros estruturais. “O câmbio derreteu de 2004 para cá, mas como tivemos uma desvalorização forte em 2002 e 2003, isso permitiu que a apreciação cambial fosse absorvida até 2006. Mas, no início de 2008, isso se tornou um fator preocupante para a indústria, que até então conseguia acompanhar o crescimento do comércio. A partir daí, o setor industrial estagnou-se e a participação dos manufaturados no coeficiente de importação aumentou. O problema se acentuou a partir do ano passado, quando a demanda desacelerou e o faturamento da indústria passou a cair também. Passamos do sinal amarelo ao sinal vermelho. A situação está ficando muito complicada”, opinou.

Menos sombrio é o cenário traçado pelo economista da Gradual Investimentos André Perfeito, que estima uma retração de 1% para a indústria em 2014 enquanto a média do mercado prevê um encolhimento de 1,5%, segundo o Banco Central. “Os incentivos do governo, como a redução do IPI, perderam eficácia e não se traduzem mais em aumento da demanda. O consumo das famílias parou de subir e a oferta de crédito diminuiu. Mas acho que, após as eleições, esse clima de desânimo diminuirá. Todos esperam o resultado da eleição para investir, pois se o Aécio Neves (PSDB) ganhar, o real pode ter uma apreciação, e se a presidenta Dilma Rousseff vencer, o risco inflacionário será considerado mais alto. O empresário está sendo cuidadoso”, ponderou.

O professor de economia da Unicamp Fernando Nogueira da Costa considera que a conjuntura está “muito contaminada pelo cenário eleitoral” e que, olhando-se para o Brasil no longo prazo, a perspectiva é positiva: “Temos grandes obras em andamento, como Belo Monte, os investimentos do pré-sal, as concessões de infraestrutura que estão acontecendo. As decisões de investimento precisam ser tomadas com foco no longo prazo. E isso vale para a indústria. Por que grandes montadoras de marcas como BMW, Audi e Mercedes-Benz estão aumentando os investimentos no país? Porque sabem que quem não fizer investimentos agora por conta de queda na demanda, vai perder uma oportunidade”, considerou.

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